A Voyager 1, da NASA, está prestes a alcançar um feito inédito para a humanidade: tornar-se o primeiro objeto humano a completar um dia-luz de distância da Terra. Quando isso acontecer, um sinal de rádio enviado do planeta levará cerca de 24 horas para chegar até a espaçonave — e outro tanto para que uma eventual resposta retorne.Lançada em 1977, a Voyager 1 é o objeto humano mais distante já enviado ao espaço. Quase cinco décadas depois, a sonda continua transmitindo dados científicos enquanto se afasta cada vez mais da Terra a mais de 61 mil km/h, ampliando um recorde que dificilmente será superado tão cedo.Embora o número impressione, é difícil compreender o que essa distância realmente representa. Afinal, a luz — que viaja a cerca de 300 mil quilômetros por segundo e é a coisa mais rápida conhecida — ainda precisa de um dia inteiro para percorrer o caminho entre a Terra e a Voyager.Durante o Olhar Espacial desta sexta-feira (17), o astrônomo e colunista do Olhar Digital Marcelo Zurita e o astrônomo amador e divulgador científico Alexsandro Mota explicaram por que esse marco é tão importante para a exploração espacial, como a NASA ainda consegue se comunicar com a sonda e por que ela continua surpreendendo cientistas quase 50 anos após seu lançamento.O que significa completar um dia-luz?A maioria das pessoas já ouviu falar em ano-luz, unidade usada para medir as enormes distâncias entre estrelas e galáxias. O dia-luz segue exatamente o mesmo princípio, mas em uma escala menor: corresponde à distância percorrida pela luz em 24 horas, cerca de 25,9 bilhões de quilômetros.É justamente essa marca que a Voyager 1 está prestes a alcançar. Segundo dados da NASA, a sonda é atualmente a espaçonave mais distante da Terra e a única prestes a completar um dia-luz de distância. A Voyager 2, lançada poucas semanas antes, também continua em operação, mas está vários bilhões de quilômetros mais próxima do planeta.Marcelo Zurita destacou que esse marco ajuda a colocar em perspectiva o quão longe a missão chegou. Já o astrônomo amador e divulgador científico Alexsandro Mota explicou que esse tipo de distância está muito além da nossa experiência cotidiana.“Quando você fala a palavra bilhões, a gente não consegue mensurar o quão isso é grande, o quão isso é distante”, destacou Mota. “Estamos acostumados com poucos quilômetros, dezenas ou centenas de quilômetros, mas mensurar os bilhões de quilômetros que essas sondas estão hoje da Terra é difícil de imaginar.”Zurita lembrou ainda que, apesar da distância impressionante, a Voyager 1 continua relativamente próxima em escala astronômica. Enquanto a sonda está prestes a completar um dia-luz de distância, a estrela mais próxima do Sol, Proxima Centauri, está a mais de quatro anos-luz da Terra.Conversar com a Voyager leva quase dois diasA distância entre a Terra e a Voyager 1 não impressiona apenas pelos números. Ela também muda completamente a forma como a NASA se comunica com a espaçonave. Hoje, qualquer comando enviado à sonda leva cerca de 24 horas para chegar ao destino.Isso significa que qualquer troca de mensagens deixa de acontecer em tempo real. Se a Voyager responder imediatamente, o sinal levará outras 24 horas para retornar. Na prática, uma única interação entre a Terra e a sonda pode levar aproximadamente dois dias para ser concluída.Durante o Olhar Espacial, Marcelo Zurita ilustrou essa diferença com uma demonstração simples. Depois de cumprimentar Alexsandro Mota e receber a resposta quase instantaneamente, explicou que o mesmo diálogo com a Voyager exigiria cerca de 48 horas entre a pergunta e a resposta.“Esse ‘oi’ para chegar daqui da Terra até a sonda Voyager vai levar quase 24 horas. Depois de praticamente 48 horas eu vou receber o ‘Oi, Zurita’ da Voyager”, ilustrou Zurita.Segundo Alexsandro Mota, esse tempo de viagem também é uma ferramenta fundamental para a missão. Como as ondas de rádio viajam à velocidade da luz, a NASA consegue calcular com precisão a distância da Voyager medindo quanto tempo o sinal leva para percorrer o trajeto entre a Terra e a espaçonave.“A principal forma de você saber a distância que ela está é o tempo de resposta da antena para os radiotelescópios na Terra”, explicou ele. “Baseado nesse tempo e na velocidade da luz, a gente descobre a distância exata que ela está.”Como a NASA consegue receber um sinal tão distante?Manter contato com uma espaçonave lançada em 1977 e localizada a quase um dia-luz da Terra parece improvável. Ainda assim, a Voyager 1 continua enviando dados científicos graças a um sistema de comunicação projetado ainda na década de 1970 e que permanece em funcionamento até hoje.A sonda utiliza uma antena de alto ganho para transmitir sinais de rádio em direção ao planeta. Segundo Alexsandro Mota, a potência dessa transmissão é extremamente baixa: quando chega à Terra, o sinal tem menos energia do que a luz de uma lâmpada de geladeira. “Esse sinal incrivelmente fraco chega aqui e a gente consegue receber, amplificando ele de várias formas para trazer os dados úteis que a sonda está enviando.”A histórica imagem “Pale Blue Dot”, feita pela Voyager 1 em 1990, mostra a Terra como um minúsculo ponto de luz visto a cerca de 6 bilhões de quilômetros de distância – Imagem: NASA/JPL-CaltechPara captar essa transmissão, a NASA utiliza a Deep Space Network (DSN), uma rede de grandes antenas distribuídas em diferentes regiões do planeta e dedicada à comunicação com missões no espaço profundo. A Voyager também precisa manter sua antena permanentemente apontada para a Terra. Um pequeno desvio pode interromper completamente a comunicação, como ocorreu em 2023, quando a Voyager 2 perdeu contato temporariamente com a agência espacial após uma alteração em sua orientação.Outro desafio é a energia. Como está longe demais do Sol para utilizar painéis solares, a Voyager 1 depende de geradores nucleares de radioisótopos (RTGs), cuja potência diminui gradualmente ao longo dos anos. Para prolongar a missão, a NASA vem desligando instrumentos científicos e outros sistemas considerados menos essenciais.Mesmo quando deixar de transmitir dados científicos, a Voyager 1 continuará sua jornada pelo espaço. A sonda seguirá cruzando a Via Láctea durante milhões de anos, levando consigo o Golden Record — uma cápsula do tempo com sons, imagens e mensagens da humanidade.O post Sonda da NASA vai completar um dia-luz de distância da Terra em breve apareceu primeiro em Olhar Digital.