O coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins, da Polícia Militar de São Paulo, manteve uma relação de amizade com Cléber Azevedo dos Santos mesmo depois de o empresário ser alvo de uma operação policial de grande repercussão.Meses após a Operação Fractal, deflagrada no fim de 2022, Pereira Martins e Cléber celebraram juntos a chegada de 2023, ao lado de familiares, como mostram fotografias obtidas com exclusividade pelo Metrópoles.9 imagensFechar modal.1 de 9Coronel em foto tirada no revéillon de 2023, juntamente com suspeito de operar esquema para o PCCReprodução/Instagram 2 de 9Coronel e dupla apontada por envolvimento com o crime dividem a mesma mesa Reprodução/Instagram 3 de 9Cléber ao lado de Pereira MartinsReprodução4 de 9Empresário é apontado em investigação como operador do PCCReprodução/Instagram 5 de 9Coronel compõe mesa também ocupadas por suspeitos de prestaar serviços ao crime organizadoReprodução/Instagram 6 de 9Coronel da reserva em oto tirada no 1º dia de 2023Reprodução/Instagram 7 de 9Advogado Antônio Carlos Ubaldo Júnior, acima, e o empresário Cléber Azevedo, em primeiro planoReprodução/Instagram 8 de 9Coronel da reserva Pereira Martins (esq em destaque) e Cléber Azevedo dos SantosReprodução/Instagram 9 de 9Coronel da reserva Pereira Martins (esq em destaque) e Cléber Azevedo dos SantosReprodução/Instagram Em duas imagens publicadas pela esposa do coronel, o oficial aparece próximo de Cléber na madrugada do Ano Novo. Crianças, adolescentes e as companheiras dos dois também posam sorrindo ao lado de uma piscina. Essa foto e outra, em um local semelhante a um restaurante, foi tirada do ar, como constatou a reportagem, na quinta-feira (23/7).“Amigos sempre juntos”, escreveu a mulher de Pereira Martins na legenda da postagem.O encontro confirma visualmente uma relação descrita pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) em documentos da investigação sobre operadores financeiros suspeitos de prestar serviços de lavagem de dinheiro a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o vínculo de Cléber e de Robson Martins de Souza com o coronel permaneceu mesmo depois de os empresários terem sido alvos de operações policiais, entre elas a Fractal.Ano Novo após operaçãoA Operação Fractal atingiu Cléber e outros operadores no fim de 2022. Mesmo assim, as fotografias indicam que a convivência social com Pereira Martins continuou.O registro da festa de Ano Novo é relevante para estabelecer a cronologia da proximidade, mostrando que o encontro ocorreu depois de uma investigação policial colocar Cléber publicamente sob suspeita.As imagens, isoladamente, não demonstram a prática de crime pelo coronel. Também não indicam que Pereira Martins participasse das operações financeiras atribuídas ao empresário. Leia também São Paulo“Amigos sempre juntos”: coronel da PM passou Ano Novo com operador do PCC Mirelle PinheiroSP: coronéis da PM são citados em investigação contra banco do PCC São PauloChefe da PM de SP entregou o cargo após citação em inquérito sobre PCC São PauloMembro do PCC que delatou elo com Rota revelou plano para matar Moro Elas mostram, porém, que a relação não se limitava a contatos esporádicos, institucionais ou profissionais. As duas famílias passaram juntas uma celebração privada, em ambiente de intimidade.Essa proximidade também aparece em outra postagem retirada do ar. Em um restaurante, Pereira Martins e a esposa dividem a mesa com Cléber e com o advogado Antonio Carlos Ubaldo Júnior.Ubaldo foi preso em março deste ano durante a Operação Bazaar, que apurou lavagem de dinheiro e corrupção policial. Posteriormente, ele e Cléber voltaram a ser investigados por supostamente atender clientes ligados ao PCC.Grupo permaneceu ativoA amizade também foi registrada em mensagens recuperadas pelos investigadores. Cléber, Robson e Pereira Martins participavam de um grupo de WhatsApp chamado “Aniversário general”, ativo ao menos até 21 de novembro de 2023.Segundo o Gaeco, no espaço eram trocadas mensagens pessoais e sociais, inclusive sobre encontros, festas e celebrações.Para os promotores, o conteúdo demonstrava uma relação de proximidade. O grupo permaneceu ativo durante quase todo o ano em que o coronel havia celebrado o réveillon com Cléber.A investigação cita ainda uma fotografia de Pereira Martins ao lado do empresário. Na imagem anexada aos autos, o oficial sorri enquanto Cléber segura uma garrafa e um copo de cerveja.O conjunto formado pelas mensagens, pelo grupo e pelas fotografias obtidas pela reportagem reforça que a relação se manteve ao longo do tempo.Banco para integrantes do PCCCléber é apontado pelo MPSP como um dos operadores de um esquema financeiro voltado a movimentar e ocultar recursos de criminosos.A investigação afirma que o grupo oferecia serviços clandestinos de lavagem de dinheiro e mantinha uma espécie de “banco” reservado a integrantes relevantes do PCC.Entre as práticas descritas estão a troca de dinheiro vivo por transferências bancárias, o uso de contas de empresas de terceiros e a movimentação de recursos sem que o verdadeiro pagador ou beneficiário aparecesse formalmente.Cléber e o doleiro Leonardo Meirelles também são associados à fintech Akron. Segundo os investigadores, a plataforma seria apresentada como uma forma de blindar clientes contra fiscalizações administrativas e investigações criminais.Em um áudio, Cléber afirma que a estrutura poderia movimentar recursos relacionados a criptomoedas, pirâmides financeiras e até dinheiro proveniente do tráfico de drogas, desde que a operação fosse financeiramente vantajosa.Tribunal do crimeOs documentos também apontam que Cléber teria recorrido ao chamado tribunal do crime do PCC para resolver disputas particulares.Uma das controvérsias envolvia uma casa na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral paulista, e uma cobrança de R$ 2 milhões.Segundo o Ministério Público, Cléber procurou integrantes da facção e participou voluntariamente de uma reunião destinada a solucionar o conflito fora do Poder Judiciário.O empresário teria afirmado em mensagens que não era “irmão” — termo usado para integrantes batizados no PCC —, mas “companheiro”, expressão interpretada pelos investigadores como referência a uma pessoa ligada à organização e submetida às suas regras.O Gaeco afirma que Antonio Carlos Ubaldo Júnior ajudou a aproximá-lo de Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho, apontado como uma liderança do PCC no centro de São Paulo.Ubaldo aparece nas fotografias do restaurante ao lado de Cléber e do coronel Pereira Martins.Sacolas e transferênciasConversas analisadas pelo MPSP mostram Ubaldo tratando diretamente com Léo do Moinho sobre transferências e entregas de dinheiro vivo.Em um dos diálogos, o advogado informou que uma sacola recebida continha R$ 498,5 mil. Na sequência, mencionou outros valores que teriam sido enviados separadamente.A investigação também encontrou transferências efetuadas por meio de contas de empresas e pessoas que, segundo os promotores, eram usadas para ocultar o verdadeiro responsável pela movimentação.Em uma operação, Ubaldo teria enviado comprovantes de transferências de R$ 100 mil e R$ 150 mil, originadas de duas empresas diferentes, após receber uma ordem de pagamento relacionada a Léo do Moinho.Os promotores sustentam que o modelo era usado para bancarizar dinheiro vivo proveniente do tráfico e de outras atividades criminosas.Contatos na Polícia MilitarPereira Martins não é o único coronel mencionado nos documentos.A investigação cita ainda José Augusto Coutinho, então comandante das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), e um oficial identificado pelo sobrenome Patrício. Coutinho posteriormente ocupou o cargo de comandante-geral da PM, cargo do qual abriu mão, em abril deste ano, após o Metrópoles revelar a menção ao nome do oficial em um inquérito que apurava a escolta ilegal para dirigentes de uma empresa de ônibus ligada ao PCC.Segundo o Gaeco, as apurações que resultaram na Operação Janus, havia menções a contatos com Coutinho. Já Patrício aparece como “cliente” em uma planilha na qual consta um pagamento de R$ 1 mil.Os documentos não afirmam que Coutinho tenha recebido dinheiro ou participado de qualquer operação financeira. A simples menção ao nome dele não permite atribuir envolvimento em crime.Pereira Martins, Coutinho e Patrício não aparecem na lista de pessoas contra as quais o Gaeco pediu prisão preventiva na Operação Janus.No caso de Pereira Martins, o elemento destacado pelo MPSP é a relação social mantida com Cléber e Robson, além da afirmação de que o vínculo continuou depois de operações policiais contra os empresários.