A Via Láctea pode ter sofrido uma mudança radical em sua orientação após uma grande colisão ocorrida há cerca de 10 a 11 bilhões de anos. A hipótese foi apresentada recentemente por astrônomos da Universidade de Durham durante a Reunião Nacional de Astronomia da Royal Astronomical Society, realizada em Birmingham.A conclusão surgiu a partir da análise de simulações cosmológicas de galáxias semelhantes à nossa, que foram comparadas com observações da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia. O trabalho busca esclarecer por que o halo estelar da Via Láctea gira de forma muito mais lenta do que os pesquisadores esperavam.Se confirmada, a interpretação acrescenta um novo capítulo à história da formação da galáxia e pode oferecer pistas sobre a evolução da matéria escura, além de indicar que a posição ocupada pelo Sistema Solar nem sempre esteve orientada da mesma maneira dentro da Via Láctea.Simulações ligam rotação lenta do halo à antiga mudança de orientaçãoVia Láctea – Imagem: Open stock 01/ShutterstockPara investigar a origem da lenta rotação do halo estelar, os pesquisadores acompanharam, em supercomputadores, a evolução de 25 galáxias com características semelhantes às da Via Láctea ao longo de bilhões de anos. O objetivo era identificar quais eventos poderiam produzir uma configuração equivalente à observada atualmente.A comparação revelou que as galáxias com os halos estelares de menor rotação compartilhavam duas características marcantes. Elas haviam passado por uma colisão frontal com outra galáxia e, posteriormente, sofreram uma mudança de orientação superior a 90 graus em seus discos, fenômeno conhecido pelos astrônomos como “disc flip”.Segundo o pesquisador Kirill Batrakov, responsável pelo estudo, a própria história da Via Láctea sugere que esse processo pode ter ocorrido também em nossa galáxia. “Já sabemos que a Via Láctea passou por uma enorme colisão frontal com uma galáxia conhecida como Gaia-Sausage-Enceladus. Por isso, acreditamos que o disco da Via Láctea provavelmente também mudou de orientação no passado“, afirmou o astrônomo durante a apresentação do trabalho na Reunião Nacional de Astronomia da Royal Astronomical Society.Os pesquisadores lembram que a Gaia-Sausage-Enceladus (a “Galáxia da Salsicha”) era uma galáxia anã absorvida pela Via Láctea entre 10 e 11 bilhões de anos atrás. Esse encontro é considerado o maior episódio de fusão da fase inicial da nossa galáxia e deixou como herança bilhões de estrelas percorrendo órbitas extremamente alongadas.Conforme os autores, identificar uma antiga inversão do disco também amplia as possibilidades de compreender o comportamento do halo de matéria escura, já que os resultados indicam uma forte relação entre a rotação dessa estrutura invisível e a do halo formado por estrelas.Gaia fornece a primeira visão precisa de como seria nossa seção da Via Láctea vista de cima (Imagem: ESA/Divulgação)Batrakov observa que uma alteração dessa magnitude teria modificado a trajetória da maior parte das estrelas da Via Láctea. “Uma inversão do disco significa que a maioria das estrelas da Via Láctea já percorreu trajetórias muito diferentes das atuais, possivelmente até mesmo o nosso Sol, o que indica que nossa posição aparentemente estável na galáxia talvez não tenha sido assim durante toda a existência do Sistema Solar“, declarou o pesquisador ao apresentar os resultados.O astrônomo também destaca que reconstruir episódios tão antigos ajuda a comparar a evolução da Via Láctea com a de outras galáxias. “Como vivemos dentro da Via Láctea, conseguimos estudá-la com um nível de detalhe impossível em qualquer outra galáxia. Descobrir que seu disco mudou de orientação acrescenta um novo capítulo à sua história e mostra que é possível reconstruir esse passado complexo a partir das observações atuais“, concluiu Batrakov durante a divulgação do estudo.O post Via Láctea já passou por enorme colisão com “galáxia salsicha” apareceu primeiro em Olhar Digital.