Como as tarifas chegam ao supermercado e encarecem a cesta básica

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A aplicação das tarifas de até 37,5% imposto pelo governo de Donald Trump a produtos brasileiros acendeu o alerta nos corredores dos supermercados. Embora as taxas atinjam diretamente as exportações, a pressão sobre o dólar e o custo de insumos importados ameaçam encarecer o carrinho de compras dentro do Brasil.Diante desse cenário, fica a dúvida: em que medida o protecionismo dos EUA consegue influenciar o preço dos alimentos essenciais no supermercado?Sobre o tarifaçoA escalada do protecionismo começou na quarta-feira (22/7), quando entrou em vigor uma tarifa inicial de 25%.O governo norte-americano justificou a medida alegando a existência de “práticas desleais” de mercado que estariam prejudicando a competitividade das empresas e exportadores dos EUA.Sem dar margem para recuperação, uma taxa adicional de 12,5% foi anunciada no dia seguinte (23/7) e já passou a valer nessa sexta-feira (24/7).Dessa vez, a justificativa mudou de tom, acusando o país de não combater adequadamente o trabalho forçado em suas cadeias produtivas.Após o anúncio da sobretaxa de 12,5%, a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom no discurso.Em nota, o Palácio do Planalto afirmou que iniciaria “imediatamente” os trâmites para acionar a Lei da Reciprocidade, que autoriza o país a retaliar ou aplicar tarifas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos brasileiros.A economista Petra Duque explica que uma das consequências do tarifaço é que ele tende a pressionar a valorização do dólar frente ao real por meio de dois canais principais. O primeiro é que, ao dificultar as exportações brasileiras, entram menos dólares no país, o que deixa a moeda mais cara.O segundo é que a guerra comercial assusta os investidores globais, fazendo com que eles tirem seu dinheiro do Brasil para buscar investimentos mais seguros.Petra explica que esse efeito do aumento da moeda americana sobre a inflação, chamado de pass-through cambial, nos produtos não é imediato e que ainda existe uma “rigidez de preço”.“Você tem tanto os estoques dos varejistas quanto contratos futuros a preços pré-estabelecidos que dão uma certa maleabilidade nos preços. É sempre um cabo de guerra entre o produtor e o varejista, e o varejista tende a resistir a reajustes imediatos, utilizando os estoques para ter essa flexibilidade. Por isso, esse efeito do câmbio na inflação não é imediato”,  explica.A especialista também cita o “efeito tesoura”, cenário em que os custos de produção sobem pela alta dos insumos dolarizados enquanto o consumidor, sem ganho de renda, restringe a demanda. Para evitar a paralisação das atividades e a transmissão imediata do repasse para a inflação, as empresas optam por reduzir suas margens de lucro.“Você tem, nessa situação, tanto o sacrifício da rentabilidade quanto a inflação invisível — que é a redução das embalagens, com a indústria disfarçando a inflação ao colocar o mesmo produto em menor quantidade sem que as pessoas prestem tanta atenção. Além disso, há o aumento de linhas mais populares e a substituição por marcas mais econômicas”. Leia também Reinaldo AzevedoO novo tarifaço e o que está em jogo nas ordens brasileira e mundial BrasilTarifaço: ministro diz que Brasil não abre mão de Lei da Reciprocidade BrasilCNI quer grupo de trabalho para mitigar efeitos do tarifaço dos EUA São PauloAlckmin sobre tarifaço dos EUA: “Objetivo é resolver o problema” Impacto na cesta básicaUma outra questão a ser levantada é: até que ponto o protecionismo dos EUA consegue influenciar o preço dos itens essenciais da cesta básica no Brasil?O economista Aurelio Trancoso explica que as tarifas reduzem as exportações do Brasil e fazem o dólar subir, encarecendo insumos e alimentos importados e aumentando o preço da cesta básica.“Como dependemos da importação de trigo (para o pão, macarrão, biscoitos) e os produtores compram fertilizantes em dólar, esse custo cambial sobe rapidamente e é repassado direto para o preço dos alimentos no supermercado, afetando também a cesta básica”, explica Aurelio.O especialista destaca que as tarifas encarecem os insumos e reduz a produção, e “cria um cenário de alta generalizada na cesta básica”, comprometendo grande parte do salário do cidadão com alimentação.A curto prazo, segundo Trancoso, toneladas de soja, milho e carne podem baixar os preços temporariamente. No entanto, sem os mercados americano e chinês, os produtores plantarão menos e criarão menos gado na safra seguinte.“Com menos grãos no mercado, a ração animal fica mais cara. Consequentemente, o preço de todas as proteínas (carne bovina, suína, frango, ovos e leite) além dos derivados de soja (complexo soja que vai em quase todos os produtos) disparam para o consumidor final”, destaca o economista.