Há uma nova mesa de trabalho. Tem café e menu do dia

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Muito antes de o trabalho remoto se tornar uma realidade, o sociólogo norte-americano Ray Oldenburg defendia que as cidades precisavam de espaços intermédios entre a casa e o emprego. Chamou-lhes ‘third places’, ou terceiros lugares: cafés, livrarias, praças, bares ou restaurantes onde as pessoas pudessem conviver, trocar ideias e fortalecer laços sociais. A teoria ficou conhecida através do livro The Great Good Place, publicado em 1989.Mais de três décadas depois, acontece um fenómeno curioso. Esses terceiros lugares deixaram de servir apenas para socializar e passaram também a ser locais de trabalho. O café onde antes se fazia uma pausa transformou-se num escritório improvisado; o restaurante onde se almoçava converteu-se numa sala de reuniões; o lobby de um hotel tornou-se um espaço para responder a e-mails entre viagens.Esta evolução acompanha a transformação do próprio trabalho. Segundo o Microsoft Work Trend Index, os profissionais distribuem hoje a sua atividade por uma variedade crescente de espaços, procurando ambientes que melhor respondam às tarefas que têm em mãos. Já não existe um único local para trabalhar. Existem vários, escolhidos em função da concentração necessária, da criatividade exigida ou da necessidade de interação.Trabalhar entre o ruído das chávenasÀ primeira vista, pode parecer contraditório escolher um restaurante ou um café para trabalhar. Afinal, há conversas, música ambiente, empregados em movimento e máquinas de café permanentemente em funcionamento. Ainda assim, há ciência que ajuda a explicar esta preferência.Um estudo publicado no Journal of Consumer Research, intitulado ‘Is Noise Always Bad? Exploring the Effects of Ambient Noise on Creative Cognition,  concluiu que um nível moderado de ruído ambiente semelhante ao encontrado num café pode estimular a criatividade. Em vez de funcionar como distração, esse ruído cria uma ligeira distância cognitiva que favorece o pensamento abstrato e a geração de novas ideias.Ao mesmo tempo, mudar de ambiente ajuda a combater a fadiga mental. Permanecer horas consecutivas no mesmo espaço reduz a capacidade de concentração, enquanto alternar entre diferentes contextos pode melhorar o foco e a motivação. É por isso que muitos profissionais reservam o escritório para reuniões, a casa para tarefas individuais e um café para momentos de escrita, leitura ou planeamento.Também as empresas começam a reconhecer esta realidade. Os estudos do Gensler Research Institute mostram que os trabalhadores procuram diferentes ambientes ao longo do dia e valorizam cada vez mais a possibilidade de escolher onde desempenham determinadas tarefas. A flexibilidade deixou significa poder trabalhar em qualquer lugar que favoreça a produtividade.Um novo negócio para a restauraçãoEsta transformação não passa despercebida ao setor da restauração. Em muitas cidades multiplicam-se os estabelecimentos que investem em Wi-Fi rápido, tomadas elétricas junto às mesas, zonas mais silenciosas ou menus pensados para quem permanece várias horas no espaço. Alguns hotéis promovem mesmo os seus lobbies como alternativas aos espaços de coworking, enquanto cadeias internacionais adaptam o design das lojas para acolher clientes que ali passam uma manhã inteira.A tendência representa uma oportunidade económica.  Ao mesmo tempo, esta realidade obriga os empresários a encontrar um equilíbrio delicado entre quem procura um local para trabalhar durante horas e quem pretende apenas almoçar tranquilamente. A gestão do espaço, da rotatividade das mesas e da experiência dos diferentes clientes tornou-se um desafio que dificilmente existia há poucos anos.Lisboa já tem escritórios sem receçãoA tendência já é visível em Portugal, sobretudo nas zonas onde o trabalho híbrido se tornou regra. Em Lisboa, espaços como o Copenhagen Coffee Lab, o The Folks, o Dear Breakfast, o Hello, Kristof, o SO Coffee Roasters ou até alguns hotéis no Parque das Nações e na Avenida da Liberdade recebem diariamente profissionais que ali passam horas entre reuniões, chamadas e trabalho individual. Em muitos casos, basta olhar em redor para perceber que as chávenas de café dividem espaço com computadores portáteis, auscultadores e carregadores espalhados pelas mesas.Paradoxalmente, quanto mais a tecnologia tornou possível trabalhar a partir de qualquer lugar, maior se tornou a procura por espaços onde existe movimento, vida e presença humana. Depois de anos em que o teletrabalho parecia condenar os profissionais ao isolamento doméstico, muitos descobriram que a produtividade nem sempre depende do silêncio absoluto, mas antes da sensação de fazer parte de um ambiente vivo.À medida que o trabalho se tornou mais flexível, também a cidade mudou de função. Cafés, restaurantes, hotéis e bibliotecas deixaram de ser apenas lugares de passagem. São, cada vez mais, lugares onde se trabalha.O conteúdo Há uma nova mesa de trabalho. Tem café e menu do dia aparece primeiro em Revista Líder.