Em 1968, Eddie Smith Jr. comprou uma pequena fabricante de barcos com sede em Greenville, na Carolina do Norte. Era uma aposta arriscada. A empresa, a Grady-White Boats, estava em apuros.Mas Smith virou o jogo. Hoje, a fabricante de barcos de pesca recreativa de alto padrão, projetados para águas costeiras, fatura centenas de milhões de dólares por ano. Ao longo do caminho, Smith manteve o controle total da empresa, sem jamais aceitar investidores externos ou abrir o capital na bolsa.Leia tambémConcorrente coreano desafia dominância de aplicativos Uber e Lyft em Nova YorkNovo aplicativo, chamado Throo, que ser uma alternativa ao modelo de comissões mais altas a que os motoristas estão acostumados ao trabalhar com empresas como Uber e LyftTrump quer alertas na porta de museu que, segundo ele, distorce a história dos EUAPresidente dos EUA afirmou que as placas no Museu Nacional de História Americana corrigiriam o que um contestado relatório da Casa Branca descreveu como “ativismo político extremo”Agora, aos 83 anos, Smith fez seu último grande movimento: renunciou a um potencial ganho de US$ 400 milhões e prometeu destinar todos os lucros futuros da Grady-White à caridade.“Deus realmente me abençoou ao me colocar em uma posição de poder doar a grande maioria do meu patrimônio”, disse ele em entrevista. “Não preciso de um iate de 60 metros nem de passar os invernos no Mediterrâneo. Sou muito feliz aqui no leste da Carolina do Norte.”Em um momento em que bilionários estão se afastando do Giving Pledge e startups de inteligência artificial estão criando milhares de novos milionários, a renúncia à riqueza por parte de Smith se destaca como um ato de rebeldia com princípios.Ele disse ter se inspirado em Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, que doou suas ações e criou uma organização sem fins lucrativos para distribuir os lucros da empresa de roupas para atividades ao ar livre em 2022.Nas últimas semanas, ele transferiu as ações com direito a voto da Grady-White — uma pequena parcela do total de ações da empresa — para uma entidade jurídica conhecida como purpose trust. O trust manterá essas ações em caráter permanente, garantindo que a Grady-White permaneça independente e jamais possa ser vendida — e que continue operando de acordo com os valores de Smith, incluindo a participação nos lucros.O restante das ações da empresa, sem direito a voto, está sendo transferido para uma organização sem fins lucrativos recém-criada do tipo 501(c)(4). Tanto o trust quanto a organização serão administrados por conselhos independentes, sem a participação de Smith. Ele permanecerá como CEO emérito e receberá um salário anual. Os funcionários souberam da notícia na semana passada, e a empresa planeja anunciá-la nos próximos dias.A Grady-White distribuirá dezenas de milhões em lucros anuais — aqueles não reinvestidos na empresa — para a organização sem fins lucrativos, que repassará os recursos a causas como conservação ambiental, saúde e educação.A maioria das empresas bem-sucedidas aceita investidores, é adquirida ou abre capital por meio de uma oferta pública inicial. O número de empresas que transferiram sua propriedade para purpose trusts é ínfimo — apenas 81. Mas esse número cresceu de sete em 2018, segundo a Purpose Owned, consultoria que ajudou a Grady-White a estruturar a transação, com 15 casos anunciados apenas neste ano.“Por décadas, ensinamos aos fundadores que eles têm apenas duas opções: vender a empresa ou deixar os investidores assumirem gradualmente o controle”, disse Eric Ries, empreendedor e autor que estuda formas alternativas de governança corporativa. “Essas transações mostram que um terceiro caminho é possível: uma empresa duradoura construída em torno de uma missão de longo prazo.”SucessãoSmith vive em uma propriedade de 1.400 hectares que anteriormente pertenceu a um general confederado. Ele administra a terra para a vida selvagem, incluindo águias-carecas, veados-de-cauda-branca, ursos-negros, perus e corujas. Também é dono de uma reserva natural de 1.200 hectares nas proximidades. Sua fundação familiar tem mais de US$ 350 milhões em ativos e já fez doações significativas a programas médicos e à Universidade da Carolina do Norte.Quando era criança, no interior da Carolina do Norte, a família era pobre — às vezes comendo Spam nas três refeições do dia. Seu pai tinha dificuldades como taxista, mas acabou criando um negócio de meias femininas por correspondência. A empresa prosperou.Smith começou a trabalhar com o pai aos 10 anos. E embora tenha sido o primeiro da família a se formar na faculdade, esperava continuar trabalhando com o pai.“Havia esses dias de carreiras, em que você ia entrevistar na Westinghouse ou na General Electric”, disse ele. “Eu nunca fiz isso, porque sabia que ia vender meias femininas por correspondência pelo resto da vida.”Esse plano mudou, porém, quando Smith, então com 26 anos, conheceu Don White, um dos fundadores da Grady-White. A empresa fabricava barcos de madeira em um armazém de tabaco em ruínas e dava prejuízo. White estava prestes a fechar as portas, mas Smith se ofereceu para comprar a empresa.“Eu tinha um desejo ardente — provavelmente doentio, de verdade — de provar para mim mesmo, não para ninguém mais, que eu era capaz de fazer algo por conta própria”, disse ele.Seu pai lhe emprestou algum dinheiro e, contrariando a recomendação do contador, Smith assumiu a Grady-White.Por vários anos, Smith disse ter trabalhado 100 horas semanais enquanto tentava salvar a empresa. Em meados dos anos 1970, as vendas começaram a crescer. A empresa é lucrativa há 50 anos.Até 2021, Smith esperava que seu filho, Chris, seu único herdeiro, assumisse o negócio. Mas Chris morreu há cinco anos em decorrência da esclerose lateral amiotrófica, a paralisante doença neurológica também conhecida como doença de Lou Gehrig. A esposa de Smith, Jo Allison, com quem foi casado por 57 anos, havia morrido um ano antes.“Era o plano de Deus”, disse ele. “Às vezes não entendemos. Estou ansioso para chegar ao céu e fazer algumas perguntas.”‘Esta empresa tem uma alma’Após a morte de sua esposa e de seu filho, Smith foi obrigado a repensar seu planejamento sucessório.Primeiro, contratou um banco de investimentos para explorar a venda da empresa. Propostas chegaram, incluindo várias em torno de US$ 400 milhões. Mas Smith não acreditava que nenhum dos potenciais compradores preservaria a cultura da empresa.A Grady-White oferece a seus 350 funcionários uma série de benefícios generosos, incluindo contribuições robustas para planos de aposentadoria, participação nos lucros, programas de educação financeira, atendimento médico no local de trabalho e um capelão corporativo. Preservar esses benefícios foi uma das principais razões pelas quais Smith decidiu transferir a empresa para um purpose trust.“Não tinha confiança de que um novo dono manteria esse tipo de cultura”, disse Smith. “Esta empresa tem uma alma, e eu não queria perder isso.”Após conhecer a história da Patagonia, Smith contratou Natalie Reitman-White, fundadora da Purpose Owned, para ajudá-lo a constituir o purpose trust.Smith também está abrindo mão de qualquer lucro proveniente de uma eventual venda da empresa, bem como de qualquer benefício fiscal pela doação de suas ações, e espera pagar uma conta tributária de vários milhões de dólares para estruturar o trust.“Não estou obtendo nenhum benefício, fiscal ou de qualquer outro tipo”, disse ele. “E estou doando a grande maioria do meu patrimônio.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Vender a empresa por US$ 400 milhões? Ele preferiu doá-la appeared first on InfoMoney.