Um tribunal de apelação da Coreia do Sul se prepara para decidir nesta sexta-feira como será dividida a fortuna de cerca de US$ 5 bilhões de Chey Tae-won, presidente do grupo SK e acionista controlador da fabricante de chips SK Hynix.A ação opõe o executivo à ex-esposa Roh Soh-yeong, de 65 anos. Ela busca uma parcela maior do patrimônio após a disparada das ações da SK Hynix, uma das empresas mais beneficiadas pela corrida global da inteligência artificial.Conhecido no país asiático como o “divórcio do século”, o processo reúne poder político, riqueza empresarial e uma separação marcada por acusações de infidelidade.Roh recorreu de uma sentença que lhe concedia cerca de US$ 50 milhões, valor que, segundo ela, não reflete sua contribuição ao casamento de 27 anos.Agora, defende que a divisão dos bens considere a valorização recente dos ativos do grupo. A revisão pode elevar a compensação para até US$ 1 bilhão, segundo advogados especializados citados pela imprensa sul-coreana.O empresário sustenta que o avanço recente da SK Hynix ocorreu sem participação da ex-mulher. Por isso, argumenta que o cálculo deve usar uma avaliação anterior ao rali das ações da companhia.Boom da IA ampliou patrimônioO julgamento ocorre em um momento de forte expansão para os negócios de Chey.Desde o início de 2025, os papéis da SK Hynix avançaram cerca de dez vezes. O movimento mais que dobrou a fortuna do executivo.A empresa se tornou uma das principais fornecedoras de chips de memória usados nos sistemas de inteligência artificial da Nvidia. Em maio, seu valor de mercado superou US$ 1 trilhão e consolidou a companhia entre as maiores vencedoras da onda de investimentos em IA.O momento ficou evidente em um encontro recente entre Chey e o CEO da Nvidia, Jensen Huang, em Seul. A reunião ganhou destaque na imprensa local e simbolizou a fase vivida pelo setor de semicondutores.União entre famílias poderosasChey e Roh se casaram em 1988, em uma cerimônia que os jornais sul-coreanos classificaram como o “casamento do século”.Ela é filha de Roh Tae-woo, presidente da Coreia do Sul entre 1988 e 1993. Ele é neto do fundador do conglomerado SK, um dos maiores grupos empresariais do país.A crise veio a público em 2015, quando Chey divulgou uma carta aberta na qual revelou manter um relacionamento com outra mulher e ter uma filha fora do casamento. Na ocasião, afirmou que não via possibilidade de salvar a união.Roh resistiu ao divórcio no início. Depois, aceitou a separação e passou a contestar na Justiça a divisão da fortuna.Debate sobre a origem da riquezaParte do embate gira em torno da formação do patrimônio da família SK.Os advogados de Roh apresentaram documentos que apontariam para transferências de recursos ligados ao ex-presidente Roh Tae-woo em favor do conglomerado décadas atrás. Segundo a acusação, o dinheiro ajudou a impulsionar a expansão dos negócios do grupo. A defesa nega qualquer irregularidade.Em 2024, um tribunal de apelação concluiu que Roh tinha direito a 35% dos bens do ex-marido. A decisão acabou contestada pelas duas partes. O Supremo Tribunal da Coreia do Sul confirmou o divórcio, mas deixou a definição financeira para instâncias inferiores.Além da disputa patrimonial, a Justiça já determinou o pagamento de cerca de US$ 1,4 milhão à ex-esposa por danos emocionais.Histórico de condenaçõesA trajetória de Chey também inclui problemas judiciais.Em 2003, ele foi condenado por fraude contábil e negociações ilegais.Dez anos depois, voltou à prisão após ser considerado culpado pelo desvio de cerca de US$ 42 milhões em recursos corporativos usados em investimentos pessoais.Nos dois casos, recebeu perdões presidenciais.À espera da nova decisão, o empresário segue à frente de um dos maiores grupos da Ásia.O veredito desta sexta-feira pode não apenas redefinir a divisão da fortuna, mas também afetar sua participação acionária e seu controle sobre o conglomerado SK.*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.