A escalada dos gastos do governo federal deverá passar por uma revisão “no amor ou na porrada”, na avaliação de Walter Maciel, CEO da AZ Quest. A análise foi feita durante um painel sobre o futuro dos mercados, na Expert XP 2026, nesta quinta-feira (23).Além do debate sobre o desequilíbrio das contas públicas, Maciel, Daniel Dupont, gestor da Kapitalo, e Bruno Marques, gestor de fundos multimercado da XP Asset Management, também analisaram como o cenário internacional, marcado por gastos fiscais elevados nos Estados Unidos e pela desaceleração da China, impõe desafios às taxas de juros e ao controle da inflação. A mediação foi de Felipe Manfredini, responsável por parcerias com fundos de investimento na XP.Leia também“Prefiro ganhar IPCA + 15% em ações ao Tesouro IPCA+”, diz Magalhães, da GuepardoPara gestores, Bolsa está descontada e “muita ação precisa dobrar para ficar barata”O Brasil tem solução?Manfredini chamou a atenção para os dados econômicos locais, que mostram o Produto Interno Bruto (PIB) em crescimento e a balança comercial positiva, mas também um alto nível de endividamento e uma inadimplência preocupante.Para Marques, isso mostra que o crescimento do país ocorre “não porque as coisas estão boas”, mas porque foram adotadas medidas para sustentar a economia que cobrarão um preço alto. Ele destaca que a relação entre a dívida e o PIB subiu quase 10% nos últimos três anos e que o governo anunciou R$ 200 bilhões em pacotes de medidas fiscais e parafiscais para sustentar o consumo — o que ajuda a explicar o crescimento, a inflação elevada e os juros restritivos.“Seria necessário um ajuste de 3,5% a 4,5% para a dívida se estabilizar”, avalia.Para Maciel, a saída seria fazer o ajuste das contas. “Solução tem, e a solução é fácil. O que não é fácil é botar a pessoa lá para fazer as coisas que têm que ser feitas”, afirma.Ele destacou que o país tem a maior carga tributária da história, o maior endividamento das famílias, que chega a 38% da renda, e vem quebrando recordes no número de recuperações judiciais.“Basicamente, a solução do Brasil passa por um ajuste de 4% do PIB. Se você pensar que hoje nós temos renúncias fiscais que chegam a 7% do PIB, não são medidas tão difíceis de fazer. Se for eleito um candidato que faça o fiscal, vai ter um efeito muito parecido com o Plano Real. Em um ano, vai colher resultados, porque você pode ter juros neutros de 4% a 4,5%. Você teria um real valorizado e os investimentos vindo”, afirma.“Então, ou você vai ter um ajuste fiscal no amor ou vai ter um ajuste fiscal na porrada”, diz Maciel.Ele citou que os gastos do governo Lula, no primeiro mandato, ficaram em torno de 7% do PIB. No governo seguinte, passaram a 10% e, nesta terceira gestão, já se aproximam novamente desse patamar. “No próximo [governo], ele vai gastar quanto?”, questiona.Maciel avalia que, caso os gastos continuem se elevando, há o risco de o país passar por uma crise — e cita até a possibilidade de impeachment. “O que eu acho quase impossível é passar mais quatro anos expandindo o gasto público sem ter uma crise que leve a um impeachment ou algo assim”, diz.Cenário internacional mais adversoA crise fiscal brasileira deve se somar a um cenário internacional mais adverso do que em anos anteriores.Marques apontou que, desde a pandemia, os países desenvolvidos vêm se assemelhando aos emergentes porque mantiveram fortes estímulos fiscais, o que elevou o endividamento e o consumo. Além disso, os investimentos massivos em inteligência artificial (IA) mudaram o perfil das empresas de tecnologia, que passaram de grandes poupadoras a grandes tomadoras de capital.“As empresas de tecnologia tinham um lucro brutal e esse lucro voltava para a economia. Hoje, com esse investimento em data centers, você [empresa de tecnologia] passa a ser o maior tomador de poupança do mundo. Então, não só os governos estão precisando tomar muita dívida para se financiar, como agora as empresas também estão fazendo isso”, diz.Marques afirma que as pressões inflacionárias internacionais vão atingir mais os países com política fiscal mais vulnerável. “A gente vê as curvas de juros no mundo inteiro para cima, e isso vai acabar prejudicando e atrapalhando ainda mais países que estão fiscalmente piores”, afirma.Nesse cenário, a gestora está tomada em juros, principalmente nos Estados Unidos e no México, e comprada em dólar contra moedas de países que devem sofrer mais nesse ambiente — como o euro e o real, por exemplo.Desaceleração da ChinaAinda no contexto internacional, Maciel destaca a desaceleração da China, que deve entrar no radar do mercado devido aos impactos econômicos e geopolíticos.Ele aponta que o endividamento chinês atinge 350% do PIB e que o crescimento real é estimado em apenas 2% a 2,5%, em contraste com os 5% oficiais. Para Maciel, há sinais críticos de enfraquecimento da economia chinesa, como os 30 meses consecutivos de deflação industrial, a queda acentuada no consumo de veículos e a questão demográfica ligada ao envelhecimento da população. Soma-se a isso a falta de cobertura social, o que leva a população a poupar até 65% da renda.Na visão de Maciel, esse cenário de fragilidade interna é agravado pela pressão geopolítica dos Estados Unidos, que estão “apertando o garrote” por meio de tarifas e restrições, o que deve culminar em uma crise financeira e fiscal.The post Expert XP: Ajuste fiscal será “no amor ou na porrada”, diz Walter Maciel appeared first on InfoMoney.