Durante boa parte da última década, a ascensão das direitas no mundo foi sintetizada pela pergunta que dá título ao livro do historiador argentino Pablo Stefanoni: A rebeldia se tornou de direita? O argumento central era que a esquerda passou a ser identificada como defensora da democracia e das instituições, enquanto a direita apropriou-se da linguagem da contestação e do enfrentamento ao sistema.No Brasil, essa inversão foi representada pelo bolsonarismo. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito como o candidato “contra tudo isso que está aí”. Embora acumulasse quase três décadas como deputado federal estéril, conseguiu construir uma narrativa de outsider, impulsionada pela crise de representação no país e pelo antipetismo.Oito anos depois, entretanto, o cenário político mudou A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência sugere um processo comum a muitos movimentos políticos: o de deixar de desafiar a ordem – ainda que só no discurso – para disputar sua administração. A rebeldia cedeu espaço à conservação, sobretudo, para manter o controle sobre os votos conservadores. Contra o sistema, só sobraram os ataques ao STF, mas com motivações restritas aos processos judiciais da ex-primeira-família.Ao emular a postura do pai, Flávio Bolsonaro repete o passado. É uma fotografia amarelada. Diversas democracias convivem com famílias politicamente influentes. O capital político pode ser transmitido entre gerações, convertendo prestígio em vantagem eleitoral. Mas fica exposto que, aquilo que nasceu com o discurso de ruptura hoje apenas reproduz mecanismos tradicionais de poder.O bolsonarismo se despede da rebeldia e de outras bandeiras. Desde sua origem, apresentou forte discurso nacionalista. No entanto, o tarifaço deixou a família enrolada na bandeira dos EUA e abraçada a Trump, colada à imagem de traidores do país. Com o escândalo Master, o tema de anticorrupção exala hipocrisia e requenta a velha máxima: “E o PT hein?”As redes sociais potencializaram e transformaram a direita. Foi aprimorado o ecossistema de produção de conteúdo, monetização de audiência, financiamento político e mobilização permanente. A indignação, unida a uma ilusão nostálgica e um desejo de ordem, deixaram de ser apenas sentimentos políticos e integraram um modelo de negócios baseado na economia da atenção. Entretanto, na defensiva com tantos escândalos e perdendo em alguns temas a batalha das redes para a esquerda, o bolsonarismo vê esvair um ativo eleitoral precioso.Sem a figura centralizadora de Jair Bolsonaro, o movimento dissipou-se em Zema, Caiado, Michelle, Renan Santos e muitos outros. Passou a disputar a continuidade de seu legado, a sucessão familiar, as posições centrais de poder. Trocou a rebeldia pelo canibalismo.