Prometido pelo Banco Central como uma das próximas grandes evoluções do Pix, o “Pix em Garantia” era esperado pelo mercado para 2026. Agora, aparece apenas na agenda de longo prazo da autoridade monetária, prevista para 2027 em diante. Em meio à investigação aberta pelos Estados Unidos contra práticas comerciais brasileiras e às críticas ao Pix feitas por autoridades americanas, surgiu uma dúvida inevitável: o Brasil estaria desacelerando a agenda do Pix para evitar atritos com Washington?Na avaliação de especialistas ouvidos pelo InfoMoney, a resposta é não. Embora o sistema de pagamentos instantâneos tenha se tornado um dos símbolos da disputa política entre Brasil e Estados Unidos, executivos do setor de pagamentos afirmam que o adiamento do Pix em Garantia tem explicações mais concretas: a complexidade técnica do projeto, a necessidade de construir uma nova infraestrutura para crédito e recebíveis e a crescente prioridade dada à segurança do sistema financeiro.O Pix em Garantia permitirá que empresas utilizem recebíveis futuros gerados por operações Pix como garantia para obtenção de crédito, de forma semelhante ao que acontece hoje com recebíveis de cartão. A expectativa é reduzir o custo do crédito para empresas, especialmente pequenos e médios negócios. Para isso, porém, será necessário criar toda uma infraestrutura de registro, validação e controle desses recebíveis, o que ajuda a explicar por que o projeto vem avançando mais lentamente do que outras evoluções do ecossistema Pix.Leia mais Pix, desmatamento, etanol e corrupção: os argumentos dos EUA para impor novas tarifasEm junho de 2025, o Banco Central projetava que o Pix em Garantia entraria em operação em 2026. Já na apresentação mais recente do Fórum Pix, divulgada em março deste ano, o Pix em Garantia aparece apenas na agenda de 2027, ao lado de projetos como Pix Internacional e novas evoluções do Pix Automático. Enquanto isso, iniciativas como Split Tributário, Cobrança Híbrida, Conta-Salário, MED 2.0 e medidas de combate a fraudes ganharam prioridade na agenda regulatória.Para Ralf Germer, CEO e cofundador da PagBrasil, o adiamento não tem relação com a recente escalada das tensões comerciais entre Brasil e EUA e sim com as jornadas de pagamento sem redirecionamento, que consumiram uma parcela importante dos recursos disponíveis do BC. “São projetos super complexos. Para o usuário é super fácil, mas tudo o que tem por trás é muito complexo e demora para funcionar”.Em vez de uma agenda estática, o que aparece na frente da autoridade monetária é uma fila de prioridades: MED 2.0 – a atualização do nova versão do Mecanismo Especial de Devolução criado pelo Banco Central – prevenção a fraudes, Split Tributário, Cobrança Híbrida e regulamentação dos intermediários do Pix.Leia mais: Quanto valeria o Pix se fosse empresa? Exercício aponta valor trilionárioO peso crescente da segurançaOutro fator apontado pelo executivo é a crescente preocupação do mercado financeiro com fraudes e ataques cibernéticos. “E ainda por cima tivemos, no ano passado e nesse ano, um prbblema com hackers que invadiram os sistemas de bancos e sistemas que conectavam os bancos ao Banco Central. Então, o BC está ocupado com outras coisas.”Em julho de 2025, a C&M Software, uma empresa que conecta instituições financeiras aos sistemas do Banco Central, foi alvo de um ataque que permitiu acesso indevido a contas-reserva de instituições financeiras. Dias depois, investigações apontaram prejuízos potencialmente bilionários e o envolvimento de credenciais utilizadas de forma fraudulenta por criminosos.Nos meses seguintes, novos ataques voltaram a atingir empresas que fazem a conexão entre instituições financeiras e a infraestrutura do BC, levando o regulador a reforçar os mecanismos de supervisão e segurança do ecossistema. Segundo Germer, a ascensão da inteligência artificial também contribui para mudar as prioridades do setor. “Os riscos aumentam muito, porque hackers e fraudadores também usam IA”. A própria agenda do Fórum Pix evidencia essa preocupação, elencando como prioridades o desenvolvimento de indicadores de probabilidade de fraude baseados em machine learning, novas regras de classificação de fraudes, aperfeiçoamento do bloqueio cautelar e evolução do MED 2.0.Por que o Pix em Garantia é tão difícil de construir?Hoje, o Pix foi desenhado para liquidar uma transação instantaneamente. Já o Pix em Garantia exigiria algo diferente: criar recebíveis futuros que possam ser utilizados como garantia em operações de crédito.“O Pix foi construído para ser uma compensação imediata, o pagamento imediato. Para você poder fazer o Pix em Garantia, o primeiro passo é criar essa modalidade onde o Pix vai realmente gerar um compromisso futuro. Hoje já tem isso criado do lado dos cartões. Seria preciso criar isso do lado do Pix”, Rodrigo Rodrigues, COO e cofundador da Akua. Segundo Rodrigues, esse novo modelo exigiria mecanismos que permitam registrar os recebíveis, verificar sua titularidade e impedir que o mesmo ativo seja oferecido simultaneamente como garantia em operações diferentes. “Não envolve só os bancos e adquirentes, mas também registradoras, Núclea, Serc e a própria B3”, completa.O Brasil recuaria diante da pressão americana?Para Germer, essa hipótese não parece compatível nem com a trajetória do Pix nem com a postura histórica do país. “Eu não vejo nenhum indício que esse seja o caso. O Brasil, até hoje, nunca se curvou à pressão política dos Estados Unidos. E espero que não faça isso”. Interromper a evolução do Pix, na visão de Germer, seria um erro estratégico justamente quando sistemas de pagamentos instantâneos avançam em diversas partes do mundo – na América Latina, Europa e Ásia para defender que o movimento observado no Brasil está longe de ser isolado. Na visão do executivo, o Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento e passou a funcionar como infraestrutura financeira básica, sobre a qual empresas privadas podem construir novos produtos e serviços. “Uma empresa como a Mastercard ou a Visa pode se conectar ao Pix e usar. É uma infraestrutura financeira”, completou. O InfoMoney perguntou ao BC se a autoridade monetária promoveu alguma mudança na sua agenda em respostas à pressão externa norte-americana. O BC não havia respondido até o momento da publicação. O espaço segue aberto. O que está na agenda do Banco Central para o Pix?Em março de 2026, durante o Fórum Pix, o BC compartilhou as seguintes listas de prioridades:Prioridades para 2026Split TributárioCobrança HíbridaRegulamentação dos intermediários no PixConta-salário com Pix Automático e portabilidadeMED 2.0Autoatendimento do MEDIndicador de probabilidade de fraude com machine learningRegras para classificação de fraudesMensagens inapropriadas no campo “Descrição”Ajustes em Pix Saque e Pix TrocoAgenda de longo prazo (2027 em diante)Pix em GarantiaPix InternacionalEvoluções do Pix AutomáticoPix por aproximação com pagador offlineThe post Pix em Garantia ficou para depois. A culpa é do Tarifaço dos EUA? appeared first on InfoMoney.