O Brasil atravessa um período de transição política marcado pela ausência de novas lideranças capazes de substituir as forças que dominaram o cenário nacional nos últimos anos, segundo o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Em participação no programa WW Especial, da CNN Brasil, ele afirmou que o momento atual deve ser analisado também a partir das transformações sociais em curso, antes mesmo da disputa política.Ao comentar o conceito de “interregno”, associado ao pensamento do filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937) e utilizado pelo cientista político Sérgio Abranches para interpretar mudanças sociais, Melo afirmou que o país vive uma fase em que antigas estruturas perdem força enquanto novas ainda não se consolidaram.“Há alguns anos, Sérgio Abranches tomou emprestado um termo de Gramsci para definir esse momento: o de que estaríamos vivendo um interregno, uma sociedade em transformação, em que ‘a sociedade onde nós nascemos está se desmanchando e uma nova sociedade está se colocando’”, afirmou Melo.Segundo Melo, esse processo não ocorre de maneira imediata. “O velho está agonizando, mas o novo ainda não nasceu ou não despertou toda a sua potencialidade”, disse, ao explicar que períodos de transição costumam ser acompanhados por incertezas e pela permanência temporária de lideranças e grupos ligados ao ciclo anterior.“Setores sociais remanescentes do passado estão colocados e não conseguem ser substituídos imediatamente. Há um tempo, há um interregno, há um vazio. Lideranças novas não surgem”, acrescentou.Para o cientista político, esse fenômeno não é exclusivo do Brasil e já ocorreu em diferentes momentos da história, com períodos de instabilidade até a formação de novas forças políticas. Leia Mais Arko Advice: Perdão de Michelle ajuda Flávio, mas falta apoio político Datafolha: Lula tem 48% das intenções de voto no 2º turno; Flávio, 43% Waack: Flávio acumula crises criadas por sua própria campanha Melo avaliou que a eleição de 2026 pode representar um marco para o encerramento desse ciclo, com a possibilidade de uma reorganização política a partir da próxima década.“Talvez essa eleição de 2026 encerre esse processo em 2030. Nós viveremos provavelmente o pós-Lula, nós viveremos o pós-Jair Bolsonaro, e talvez outras figuras possam se colocar para a próxima eleição”, declarou.Na avaliação do professor do Insper, o cenário atual ainda é dominado por duas forças de rejeição: o antipetismo e o antibolsonarismo. Para ele, esses movimentos representam as principais bases de disputa política no país neste momento.“Um [a esquerda] faz uma crítica muito forte ao mundo, à realidade que nós vivemos pela direita, outro [a direita] faz uma crítica forte pela esquerda e despertam os seus contrários”, comentou.Carlos Melo ressaltou que a força relativa de cada uma dessas correntes pode variar conforme a conjuntura política. “Qual é a mais forte entre elas vai depender muito do escândalo da semana, vai depender muito do momento, mas são essas duas forças”, destacou.Para o cientista político, novas lideranças ainda não conseguiram ocupar esse espaço deixado pela transição. “Outras ainda não se colocaram, mas é uma questão de tempo, talvez muito tempo para que possam se colocar”, concluiu.WW EspecialApresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.Conheça o Clube de Membros da CNN Brasil no YouTube. Ao se cadastrar, você garante acesso antecipado à íntegra da edição já às sextas-feiras, além de cortes exclusivos e conteúdos de bastidores do programa.AO VIVO: WW ESPECIAL - POR QUE O BRASIL SEGUE REFÉM DE LULA E BOLSONARO? - 26/07/2026 *Publicado por Jorge Fernando Rodrigues