Tanta falcatrua, tantas mentiras, em sucessivos governos fluminenses, que se custa a acreditar que a intenção de qualquer providência, lá no fundo, bem lá no fundo, seja boa. Semana passada, o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, aliado de Eduardo Paes, “limpou” os calçadões da zona sul da existência dos camelôs. Anunciou a operação “Tolerância zero”, como quem anuncia o fim da sujeira, da desordem, da insegurança, dos malfeitos.Conversa mole. No final da tarde da terça, 21, moradores, turistas, transeuntes de Copacabana viveram horas de pânico, ao serem atacados por dezenas de moleques, marginais, meninos e meninas, em correria pela principal avenida comercial do bairro: Nossa Senhora de Copacabana. Avançaram sobre ônibus, sobre carros, sobre pessoas. Arrastão, conhecido dos cariocas.Vi de perto. As lojas trancaram a portas, depois de abrigarem pessoas à procura de socorro. Uns dois ou três carros de polícia não davam nem pro começo da desordem. Os meliantes se multiplicavam, numa violência assustadora. Muitos invadiram os ônibus e outros tantos foram barrados aos pontapés.A cena foi mesmo dantesca. Cruel. Deu medo. Deu pena. Deu vontade de chorar. “Tolerância zero” pra quem? De quem? O Rio de Janeiro cheio de turistas, e cheio de problemas. E não são os camelôs. Atenção: o arrastão nada tem a ver com eles. Há semanas, centenas desses trabalhadores fazem protestos contra a decisão arbitrária da prefeitura.Sim, é preciso organizar a bagunça nos calçadões. Para isso, os trabalhadores são cadastrados pelos órgãos competentes. São mais de mil pontos de venda irregulares entre o Leme e o Leblon. Expulsá-los de nada adianta. Saem de Copa e se instalam nos oito quilômetros de orla da Zona Sul, do Leme ao Leblon. A operação de Cavaliere não foi a primeira. Outras tentativas foram em vão. Faltou inteligência à administração da prefeitura e ao governo do Estado, “tentar” combater a violência e o tráfico de drogas limitando os camelôs não dá resultado.O Rio de Janeiro padece da violência à luz do dia, do vandalismo, roubos, assaltos. Sofre com os conflitos armados entre facções rivais ou operações policiais que põem em risco a população menos protegida, e é justamente nessas comunidades onde não há água tratada e o esgoto corre a céu aberto. Falta muito ao Rio para voltar a ser maravilhoso. Falta um ser bem intencionado, que não arrombe seus cofres, para pensar a cidade. Sei lá como. Os problemas são conhecidos. Até hoje, falta governo. Falta seriedade. Falta compromisso com o povo do Rio de Janeiro e nossos milhares de turistas. Só não falta dinheiro. Entre janeiro e junho deste ano, 1,3 milhão de turistas desembarcaram no Rio, movimentando R$ 17 bilhões. Não é pouco, se fossem mesmo para os cofres públicos e não para bolsos e mãos gulosas, como costumam ser os dos administradores da linda e mais famosa cidade brasileira.