O novo tarifaço e o que está em jogo nas ordens brasileira e mundial

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Impecável a nota da Secretaria de Comunicação Social do governo do Brasil sobre a nova tarifa, desta vez de 12,5%, imposta pelos Estados Unidos, punindo agora 59 países, inclusive o nosso, e a União Europeia por importar produtos de países que supostamente exploram o trabalho indigno. Trata-se de uma indecência em si. De mais uma.A esta altura, não é possível que vocês já não saibam que o país que lidera as importações sobre as quais pesam algumas suspeitas nessa área são os EUA — o que não é, do ponto de vista puramente matemático, surpreendente, dado o tamanho de sua economia. Ocorre que sua liderança nesse quesito vai muito além de sua participação no PIB mundial.Também nesse caso, o protecionismo anticapitalista — e eu poderia até achar o adjetivo simpático em outro contexto… — de Donald Trump veste a fantasia do interesse público e humanista (desmatamento, liberdade de expressão…) — para fazer a vontade dos “lobbies” aos quais ele serve e de um entendimento perturbado sobre o modo como pretende enfrentar o gigante chinês. Xi Jinping deve rir de orelha a orelha — à moda chinesa, claro!Sabem como é… Por ali, a noção de tempo é muito particular. Talvez vocês conheçam uma “fake news” que Harry Kissinger ajudou a espalhar, mas que é apenas uma verdade que se esqueceu de acontecer.A VERSÃO: na visita histórica de Richard Nixon à China, em 1972, em companhia do próprio Kissinger, este perguntou a Zhou-Enlai, então primeiro-ministro, como aquele país via a Revolução Francesa, de 1789. Resposta: “Ainda é cedo para dizer”. O então secretário de Estado manteve a lenda no livro “Sobre a China”, lançado em 2011.O FATO: Chas Freeman, o interprete norte-americano, revelou depois que Zhou-Enlai havia entendido que a pergunta se referia à revolta de 1968 dos estudantes franceses — que estava, diga-se, coalhada de maoístas. Ficou famosa uma foto de Sartre distribuindo um dos jornais dos discípulos de Mao Tsé-Tung em 1970.Logo, aquele evento não serviu como emblema da paciência dos chineses, mas resta evidente que pacientes são. E o Império do Meio assiste, com estoicismo (ou confucionismo…) chinês, à contribuição certamente inestimável que Trump dá a todos os equívocos. Não parece cedo demais para asseverar que os norte-americanos já perderam essa guerra.E poderíamos estar todos aqui a lamentar, afinal de contas, o que se perderá no que respeita à democracia, aos direitos humanos, aos valores individuais. Mas quê… A verdade é que há hoje mais liberdade de crítica nas universidades chinesas do que nas americanas. É mais fácil, obviamente, morrer nos domínios de Tio Sam por ser a pessoa quem é — OU QUEM NÃO É — do que naqueles que já pertenceram a Mao-Tse Tung e há muito não pertencem mais.O governo brasileiro deixou claro, com todos os dados, o seu alinhamento com o combate ao trabalho indigno dentro e fora do país. Aliados e militantes da extrema direita por aqui, diga-se, são amigões de exploradores da mão de obra precarizada e votam adivinhem em quem…A esta altura, até Paulo Skaf, da Fiesp, deve saber que o governo fez o que estava a seu alcance para impedir os tarifaços. Mas isso não tem a ver com o Brasil — a não ser pela pena de um delinquente como Marco Rubio. Tem a ver, isto sim, com o modo como Trump ignora o mundo contemporâneo.E, por óbvio, deve-se destacar que, em nenhum outro país, Trump encontrou um grupo de extremistas dedicados ao banditismo político que lhe servisse de esbirro. Sim, ele o achou aqui. E já começou a paga antecipada, dando o “green card” a Eduardo Bolsonaro. O resto vem depois se Flávio vencer e cumprir a promessa de entregar ao presidente norte-americano as terras raras, o Pix e a honra dos brasileiros. Não teria como doar a própria, por certo.Reciprocidade, pura e simplesmente, não é uma boa ideia. Mas talvez devamos começar a pensar um tanto além da caixinha. Mas isso fica para depois.Sartre distribui o jornal maoísta “La Cause du Peuple” em Paris, em 1970. Nixon em jantar com o então primeiro-ministro da China, Zhou-Enlai, em 1972, e o caso da única “fake news” verdadeira da história. Trump, o derrotado, encontra-se em Pequim com Xi Jinping, que olha para o nada e… PARA TUDO. E o dragão vencendo a águia…