Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para o seu quarto mandato presidencial, mas, à diferença dos mandatos anteriores, vai governar o maior país da América do Sul cercado por governos de direita aliados de Donald Trump. “As tensões com os Estados Unidos devem voltar”, avalia Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM-SP.O cerco se formou em menos de três anos. Nomes como Javier Milei (Argentina), Abelardo De la Espriella (Colômbia), Keiko Fujimori (Peru), Rodrigo Paz (Bolívia) e José Antonio Kast (Chile) chegaram ao poder recentemente, e decidiram, cada qual em seu respectivo país, pela adesão ao Escudo das Américas, a coalizão de segurança dos EUA.Rudzit afirma que o isolamento brasileiro começou antes da onda de direita na América Latina. Parte desse fenômeno se explica pelo ambiente geopolítico mais hostil à plataforma de Lula, e uma outra tem a ver com as ações do próprio governo brasileiro. Leia tambémNew York Times critica interferência de Trump no BrasilEm editorial publicado no dia do segundo turno, jornal americano cita tarifas e sanções contra autoridades brasileiras e afirma que pressões externas prejudicam a democracia e os interesses dos EUALula supera 64 milhões de votos e bate recorde histórico em eleição presidencialReeleito neste domingo (25), petista supera a própria marca de 2022, quando recebeu 60,3 milhões de votos no segundo turno contra Jair Bolsonaro“No início do terceiro governo Lula, ele conseguiu reunir todos os presidentes sul-americanos em Brasília. Convidou [Nicolás] Maduro [presidente da Venezuela, preso nos EUA], recebeu Maduro antes de todo mundo e tentou reintroduzir Maduro como um ator legítimo. A reação foi péssima, inclusive governos de esquerda. De lá para cá, a liderança brasileira na região veio diminuindo, mesmo com o presidente de esquerda ainda no poder”, avalia o internacionalista. Uma das iniciativas frustradas ao longo dos últimos anos, e que seria um incentivo para a integração sul-americana, tem a ver com a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que enfrenta um crônico processo de esvaziamento. A aposta em TrumpO governo Lula tem apostado em um contato direto entre presidentes. Entre tensões e incertezas, o petista até conseguiu amenizar as dificuldades com o Washington e, a certa altura de 2025, Trump chegou a dizer que teria tido uma “química” com o presidente brasileiro. Foi um raro momento de desafogo, muito embora, internamente, Washington dobrasse a aposta em tarifas a produtos brasileiros, enquanto Brasília encampava o discurso de defesa da soberania nacional. Para Gunther Rudzit, um dos problemas centrais que Lula deverá enfrentar no próximo mandato se refere não apenas às dificuldades habituais em relações diplomáticas e comerciais, mas ao fato de que a própria lógica de equilíbrio das relações entre países está em xeque no atual momento histórico. Se, do ponto de vista racional, o Brasil não superavitário em relação aos EUA (e, por isso, o argumento basilar de Washington para aplicar tarifas cairia por terra), esse mesmo ângulo racional não mais prevalece, em um momento de decaída do multilateralismo.“É injusto dentro da lógica do mundo da globalização. Nós não estamos mais nessa realidade. O mundo passou por uma ruptura. Não existe mais separação entre economia e segurança nacional”, afirma o professor.Argentina: rusgas ou parcerias?A relação com a Argentina foi a que mais se desgastou. O pontapé inicial da deterioração da relação partiu de Buenos Aires, quando Milei, ainda candidato, não hesitava em acusar o mandatário de corrupção. Mais recentemente, em visita a São Paulo para apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), o argentino dispensou a ritualidade presidencial e chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”.O Itamaraty chegou a chamar o embaixador em Buenos Aires para consultas e, por meio de nota, deixou claro que “não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, faça agressões e ofensas ao chefe de Estado”. O episódio, para Rudzit, foi “o exemplo máximo dessa crise política e diplomática”.Há, porém, um imperativo prático: as relações comerciais entre as duas maiores economias da América do Sul são consolidadas o suficiente para resistir a tamanha hostilidade. “As economias já estão tão integradas que elas acabam já sobrevivendo a essas tensões diplomáticas”. Lula deverá seguir apostando na integração entre os países do Mercosul, apesar do grupo ser o terreno em que o distanciamento tem maior efeito prático. Para Rudzit, o futuro imediato do bloco não passará nem por uma ruptura nem pelo avanço da integração. Politicamente, porém, a vitória de Lula mostra o outro lado de um movimento aparentemente hegemônico na América Latina. Enquanto o petista venceu Flávio Bolsonaro, a maior parte dos presidentes latinos da direita radicalizada enfrentam, neste momento histórico, índices de aprovação mínimos em seus respectivos países.The post Como fica a América Latina com a reeleição de Lula no Brasil appeared first on InfoMoney.