O direito à cidade passa pela possibilidade de brincar, pedalar, circular com segurança e viver em espaços públicos mais verdes, inclusivos e resilientes.Uma criança que aprende a andar de bicicleta conquista mais do que equilíbrio: descobre autonomia, explora o território e cria novas formas de se relacionar com a cidade. Mas todas as crianças têm espaço para pedalar, brincar e circular com segurança?No Dia Mundial das Cidades, celebrado em 31 de outubro, essa pergunta nos convida a refletir sobre quem pode ocupar as ruas e usufruir dos espaços urbanos. O conceito de direito à cidade, desenvolvido pelo filósofo e sociólogo Henri Lefebvre e aprofundado por pesquisadores como David Harvey, vai além do acesso à infraestrutura: envolve o direito de participar da construção da cidade e de transformar os espaços coletivos. Na prática, significa que a cidade deve ser feita para quem vive nela, e não apenas para os carros ou para os interesses econômicos.Crianças brincando em fonte de água durante o Festival Bike Arte Brasil, em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Foto: Sauá Filmes Leia também: 1.Crianças começam a se desconectar das telas por conta própria 2.Entre telas e ruas: que educação oferecemos às crianças? Essa discussão é especialmente importante para moradores das periferias, pessoas negras e pessoas com deficiência, que enfrentam barreiras como calçadas precárias, trânsito perigoso, falta de áreas verdes e longas distâncias até serviços e oportunidades. Poder caminhar e pedalar com segurança também é uma questão de justiça social: o lugar onde uma pessoa vive não deveria determinar seu acesso à mobilidade, ao lazer e à qualidade de vida.Iniciativas como Rodinha Zero, do Instituto Aromeiazero, fazem a diferença. Ao levar bicicletas, metodologia e atividades de aprendizagem para escolas, o projeto cria oportunidades para que crianças aprendam a pedalar e desenvolvam autonomia. Desde 2011, mais de 6.500 crianças já pedalaram com o instituto. Mas garantir o direito à bicicleta desde a infância também exige cidades com ruas seguras, espaços para brincar e infraestrutura que acolha quem caminha e pedala.Ocupar os espaços públicos é outra forma de reivindicar esse direito. O Bike Arte Brasil, também realizado pelo Aromeiazero, conecta bicicleta, arte e cultura em atividades que transformam as ruas em lugares de encontro, expressão e participação. Continuar promovendo eventos como esse é fundamental para fortalecer vínculos comunitários, valorizar os territórios e mostrar que o espaço urbano pode ser muito mais do que um lugar de passagem: pode ser um lugar de convivência e construção coletiva.Festival Bike Arte Brasil, em Recife. Foto: Ekvis EdsonEssa transformação precisa caminhar junto com uma agenda ambiental. Cidades com mais árvores, parques, áreas permeáveis e menos dependência dos carros podem oferecer ar mais limpo, amenizar o calor e se preparar melhor para eventos climáticos extremos. Incentivar a mobilidade ativa e ampliar as áreas verdes, com investimentos que também alcancem as periferias, é parte da construção de cidades mais respiráveis, saudáveis e resilientes.Acreditamos que a bicicleta é uma ferramenta de transformação social e ambiental. Defender seu uso é defender o direito de todas as pessoas de circular, brincar, trabalhar e participar da vida urbana com autonomia. Neste Dia Mundial das Cidades, seguir pedalando, caminhando, promovendo eventos e ocupando as ruas é também afirmar que uma cidade melhor é aquela que pertence a quem vive nela — e que oferece a todos o direito de participar de sua transformação.Artigo enviado por Murilo Casagrande, diretor do Instituto AromeiazeroColunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.The post De quem é a cidade? Ocupar as ruas é também transformá-las appeared first on CicloVivo.