Receber um pagamento está a tornar-se mais caro para muitos negócios. Num inquérito da Boston Consulting Group (BCG) a quase 500 grandes comerciantes de sete países, 79% afirmam que os custos associados aos pagamentos aumentaram nos últimos cinco anos. Menos de um em cada dez conseguiu reduzi-los e 44% já mudaram de prestador ou acrescentaram outro.Os dados integram o Global Payments Report 2026: The Burden of Proof, a 24.ª edição da análise anual da consultora ao setor. O diagnóstico aponta para uma atividade que continua a crescer, mas onde a eficiência dos pagamentos, a capacidade de demonstrar valor e o controlo dos custos ganham peso nas decisões das empresas.Leia também: Portugueses vivem cada vez mais online: jovens já passam mais de três horas por dia nas redes sociais Setor dos pagamentos deverá crescer 5% ao ano até 2030As receitas mundiais do setor deverão passar de quase dois biliões de dólares em 2025 para cerca de 2,6 biliões em 2030. A previsão corresponde a um crescimento anual de aproximadamente 5%, abaixo dos 7% registados nos seis anos anteriores.Na Europa, as receitas deverão subir de 315 mil milhões para cerca de 408 mil milhões de dólares, com um ritmo de crescimento semelhante. O Médio Oriente e África, com 8%, e a América Latina, com 7%, deverão avançar mais depressa.Nos mercados maduros, a substituição do numerário por pagamentos digitais tem menos margem para continuar a impulsionar o negócio. A concorrência e a regulação pressionam as margens, enquanto as receitas de juros e de comissões de contas e cartões perdem o impulso das taxas de juro elevadas.«O setor continua a crescer, mas o crescimento do setor, por si só, deixou de ser suficiente. Os investidores querem saber que receitas são difíceis de substituir e que empresas conseguem crescer mais depressa do que os seus custos», afirma Pedro Pereira, Managing Director & Senior Partner da BCG Lisboa. Custos operacionais crescem mais depressa do que as receitasA pressão também se sente dentro das empresas que prestam serviços de pagamento. Nos últimos três anos, os custos operacionais cresceram 9% ao ano, face a um aumento de 7% das receitas. Salários, despesas com serviços de cloud e sistemas tecnológicos fragmentados estão entre os fatores que encarecem a operação.A avaliação dos investidores reflete essa exigência. Segundo a BCG, muitas empresas de pagamentos negoceiam cerca de 25% abaixo da sua avaliação média dos últimos dez anos e quase 50% abaixo do máximo anterior.Do lado dos clientes, a gestão está a tornar-se mais profissionalizada: 89% dos grandes comerciantes inquiridos têm equipas dedicadas aos pagamentos e cerca de metade avalia anualmente o desempenho do seu adquirente — a entidade que processa os pagamentos que recebem. O preço é o principal motivo para ponderarem uma mudança. «Quem não mostrar valor para além da tabela de preços perderá a relação com o cliente. Os pagamentos entraram na era da prova», sublinha Pedro Pereira. Compras feitas por IA podem mudar a escolha do prestadorA inteligência artificial acrescenta novas exigências. Quando um agente de IA compra em nome de um consumidor, é necessário verificar se é legítimo, se existe autorização para a transação e quem assume a responsabilidade caso algo corra mal.No inquérito da BCG, 73% dos comerciantes dizem que mudariam de adquirente para obter melhor apoio nas compras realizadas por agentes de IA. Os adquirentes e outros prestadores de pagamento surgem como a segunda opção preferida para apoiar esta transformação, depois das grandes tecnológicas.O investimento em IA pode, assim, alterar a concorrência para além da redução de custos: a capacidade de garantir confiança nas transações passa a ser um argumento comercial. Bancos disputam a relação com o clienteNa banca, uma das aplicações mais imediatas da IA é a automatização de tarefas que ainda exigem intervenção humana. No financiamento ao comércio internacional, o processamento totalmente automático abrange entre 30% e 70% das operações, devido à necessidade de analisar documentos caso a caso. Segundo a BCG, os bancos que avançaram primeiro já utilizam IA na análise documental com precisão superior a 85%.A mudança também chega à gestão de tesouraria. Fornecedores de software e fintechs estão a integrar IA na previsão de liquidez, na gestão de risco e na execução de pagamentos a fornecedores.Para os bancos, o desafio passa por preservar a relação com o cliente num contexto em que outras plataformas podem assumir uma parte crescente das decisões e operações financeiras. Segundo o estudo, quem controlar essa coordenação estará melhor posicionado para captar o trabalho de maior valor. MB WAY integra resposta europeia nos pagamentosA transformação tem ainda uma dimensão geopolítica. Segundo o relatório, em junho de 2026, 137 países dispunham de pagamentos instantâneos a funcionar 24 horas por dia. Os governos encaram cada vez mais estas infraestruturas como uma questão de soberania económica.Portugal participa nesta mudança através da ligação do MB WAY a outras soluções europeias. A SIBS, juntamente com Bancomat, Bizum, Vipps MobilePay e EPI, assinou um memorando para interligar sistemas de pagamentos, com cobertura inicial de 13 países europeus.O plano prevê uma implementação faseada: transferências entre particulares em 2026, seguidas de pagamentos no comércio eletrónico e em pontos de venda em 2027. O objetivo é permitir que os consumidores continuem a utilizar as suas soluções habituais, com maior alcance além-fronteiras.O conteúdo Pagamentos mais caros: 79% dos grandes comerciantes reportam aumento de custos aparece primeiro em Revista Líder.