A Inteligência Artificial está a transformar a forma como as empresas trabalham, tomam decisões e organizam os seus processos. Em Portugal, porém, a adoção destas tecnologias continua abaixo da média europeia. Segundo dados do Eurostat relativos a 2025, 11,7% das empresas portuguesas com dez ou mais trabalhadores utilizavam tecnologias de Inteligência Artificial, face a 20% na União Europeia. Apesar da evolução registada relativamente ao ano anterior, os números evidenciam o caminho que ainda falta percorrer na integração destas ferramentas no tecido empresarial.Para Jorge Lopes, Board Member da Rumos Formação, o desafio passa por transformar o potencial tecnológico em resultados concretos para o negócio. A adoção da IA exige visão estratégica, preparação das equipas e capacidade para repensar processos, em vez de se limitar à utilização de ferramentas destinadas a acelerar tarefas individuais.Com um percurso profissional na área das tecnologias de informação iniciado na IBM, em 1989, e formação académica no Instituto Superior Técnico, Jorge Lopes defende que a capacitação dos profissionais e o envolvimento das lideranças são determinantes para que as organizações consigam acompanhar a transformação tecnológica.Em que ponto está hoje a adoção de Inteligência Artificial pelas empresas portuguesas? Estamos perante uma utilização ainda experimental ou já existem organizações a integrar a IA de forma estrutural nos seus processos?Diria que existem diferentes estágios de maturidade na adoção da Inteligência Artificial pelas empresas portuguesas, relacionados com a dimensão e as características de cada negócio.Há empresas que recorrem à IA sobretudo para aumentar a produtividade individual, outras que já estão a rever processos e a integrar a tecnologia nas suas operações, e muitas para as quais este tema ainda não assume a mesma relevância, tendo em conta a natureza e a dimensão da sua atividade.O que mais distingue estas realidades é o envolvimento da liderança e a compreensão da importância da IA e do impacto que pode ter no negócio.Utilizar uma ferramenta para ganhar tempo numa tarefa é diferente de repensar um processo e integrar a IA para melhorar a eficiência, transformar a operação ou criar valor para o cliente. Esta segunda abordagem exige uma visão estratégica, capacidade de transformação e uma gestão da mudança que prepare as pessoas para novas formas de trabalhar.Em qualquer destes cenários, a formação é essencial para que os profissionais compreendam o potencial da tecnologia e saibam utilizá-la de forma adequada. O desafio passa, por isso, por adequar a adoção da IA à realidade de cada organização, criando condições para que a sua utilização evolua e se traduza em benefícios concretos para o negócio.Quais são, na sua experiência, os principais obstáculos que estão a impedir as empresas portuguesas de tirar maior partido da IA? Falta de conhecimento, investimento, estratégia, dados, competências ou resistência interna?Todos os fatores referidos são relevantes, mas considero que um dos principais desafios está em transformar o potencial tecnológico em capacidade real de execução.O acesso à IA, por si só, não garante resultados: é necessário perceber onde faz sentido aplicá-la, que problemas de negócio se pretende resolver e que condições têm de existir para gerar valor.Esta transformação tem de partir da liderança, que deve definir prioridades e orientar a integração da IA nos processos. Exige também que as organizações conheçam os seus processos, disponham de informação adequada e desenvolvam as competências necessárias para utilizar a tecnologia de forma eficaz.Há ainda uma dimensão humana que não deve ser desvalorizada. A resistência à mudança nem sempre resulta de uma rejeição da tecnologia; pode estar associada à falta de conhecimento ou à incerteza sobre o impacto da IA no trabalho. A formação e o envolvimento das equipas são, por isso, essenciais para criar confiança e preparar as pessoas para novas formas de trabalhar.O desafio está em articular estratégia, condições tecnológicas, transformação dos processos e desenvolvimento de competências, para que a adoção da IA se traduza em resultados concretos para o negócio.Existe uma diferença entre ter acesso a ferramentas de IA e saber integrá-las efetivamente no negócio? Onde é que as empresas estão a falhar mais nesse percurso?Existe uma diferença significativa entre utilizar ferramentas de IA para aumentar a produtividade individual e integrar a IA nos processos de negócio. No primeiro caso, os profissionais podem recorrer à tecnologia para realizar tarefas mais rapidamente, como preparar documentos ou analisar informação. No segundo, é necessário olhar para a forma como a organização trabalha e identificar onde a IA pode efetivamente acrescentar valor.O ponto de partida deve ser o mapeamento dos processos, para perceber como as atividades são realizadas, onde existem ineficiências e que tarefas podem ser automatizadas ou aceleradas com recurso à IA. Esta abordagem permite começar pelos problemas e pelas oportunidades de melhoria, em vez de começar pela escolha da tecnologia.O sucesso desta integração depende também das competências das pessoas. É necessário que os profissionais saibam utilizar as ferramentas, mas também que compreendam o seu potencial, reconheçam as suas limitações e consigam identificar oportunidades de aplicação nas suas áreas de atividade. A formação assume, por isso, um papel essencial na adoção da IA.O desafio das empresas está em articular estas dimensões: desenvolver competências para utilizar a IA no trabalho diário e, ao mesmo tempo, criar capacidade para rever processos e integrar a tecnologia de forma estruturada. É essa passagem da produtividade individual para a transformação dos processos que permite gerar um impacto mais significativo no negócio.A IA está a eliminar tarefas ou a criar novas formas de trabalhar? Que competências passam a ganhar valor quando determinadas tarefas mais repetitivas são automatizadas?A Inteligência Artificial vai permitir acelerar e automatizar muitas tarefas, mas também criar novas formas de trabalhar. O impacto depende, em grande medida, da forma como as empresas adotam a tecnologia.Numa primeira dimensão, os profissionais utilizam a IA para realizar tarefas individuais mais rapidamente, como preparar correio eletrónico ou elaborar relatórios. Estes ganhos de produtividade podem libertar tempo para atividades que acrescentam valor. Numa equipa comercial, por exemplo, esse tempo pode ser dedicado a um maior acompanhamento e contacto com os clientes.Numa segunda dimensão, a IA é integrada nos processos de negócio, através do seu redesenho e da introdução de automatizações ou da utilização da tecnologia nos fluxos de informação. Neste caso, os ganhos não se limitam à produtividade individual: podem traduzir-se em processos mais eficientes, melhores operações e maior valor para o negócio e para o cliente.Esta transformação exige também uma evolução das competências.A capacidade de utilizar ferramentas de IA torna-se cada vez mais importante, mas o conhecimento técnico e a experiência em cada área continuam a ser fundamentais.Quanto maior for a capacidade da tecnologia para produzir informação e propor soluções, mais importante será saber interpretar e validar os resultados, identificar erros e tomar decisões fundamentadas.O caminho passa, por isso, por combinar competências técnicas com competências de utilização da IA. É essa combinação que permite aproveitar o potencial da tecnologia, tanto na realização de tarefas individuais como na transformação dos processos e na criação de valor para o negócio.Temos falado muito da necessidade de requalificar profissionais, mas estão as empresas portuguesas realmente a investir nessa preparação? O que deveria mudar na forma como as organizações encaram a formação?Temos assistido a um interesse crescente das empresas pelo desenvolvimento de competências em IA. No entanto, parece-me que ainda existe alguma distância entre reconhecer a importância da capacitação e integrá-la numa estratégia continuada de desenvolvimento das equipas.Um dos principais desafios é deixar de olhar para a formação como uma resposta pontual à introdução de uma nova ferramenta. A tecnologia está a evoluir a uma velocidade que torna rapidamente insuficiente o conhecimento adquirido num determinado momento. As organizações precisam de criar condições para uma aprendizagem mais contínua e próxima das necessidades reais do negócio.Isso implica também reconhecer que nem todos os profissionais precisam do mesmo nível de conhecimento. Uma coisa é desenvolver competências fundamentais de utilização responsável da IA, que devem ser transversais à organização. Outra é preparar profissionais para integrar soluções de IA nos processos, desenvolver aplicações ou assumir responsabilidades de governação tecnológica.Na Rumos, temos procurado responder a estas diferentes necessidades através de percursos de formação ajustados aos perfis e objetivos dos profissionais e das organizações, procurando que o desenvolvimento de competências se traduza em resultados concretos para o negócio e num impacto positivo para o cliente.A formação deve deixar de ser vista apenas como um custo associado à adoção tecnológica e passar a ser encarada como um investimento na capacidade de adaptação e competitividade da empresa. Esse investimento deve contribuir para melhorar a forma como a organização trabalha, gerar valor para o negócio e produzir um impacto que possa ser medido. É essa mudança de perspetiva que considero essencial.Quais são os erros mais comuns que uma empresa pode cometer quando decide adotar IA? Há o risco de implementar tecnologia apenas porque «é preciso ter IA», sem existir uma verdadeira necessidade de negócio?Esse risco existe e é particularmente relevante num contexto em que a IA gera tanta expectativa. A pressão para acompanhar a evolução tecnológica pode levar algumas organizações a avançar com iniciativas sem terem identificado claramente o problema que pretendem resolver.O primeiro erro é começar pela tecnologia em vez de começar pela necessidade do negócio.Antes de decidir onde introduzir IA, é necessário conhecer os processos e identificar as oportunidades de melhoria. Só depois faz sentido avaliar de que forma a IA pode contribuir para automatizar tarefas, acelerar operações ou melhorar os resultados.Outro erro é assumir que os resultados surgem automaticamente com a disponibilização das ferramentas. Uma solução pode ser tecnologicamente avançada e, ainda assim, produzir pouco valor se não estiver integrada nos processos ou se os profissionais não souberem utilizá-la adequadamente.É também fundamental que a adoção da IA seja orientada pela liderança, com objetivos claros e alinhados com a estratégia do negócio. O propósito não deve ser simplesmente utilizar mais tecnologia, mas melhorar o desempenho da organização e gerar valor para o cliente. Isso exige igualmente que não sejam desvalorizadas as condições necessárias para uma utilização segura e responsável da IA, desde a qualidade da informação utilizada até à definição de mecanismos de controlo e supervisão.Por isso, considero que uma adoção bem-sucedida deve começar por objetivos concretos, assentar num conhecimento rigoroso dos processos, avançar com casos de utilização cujos resultados possam ser avaliados e envolver as equipas desde o início. A tecnologia pode acelerar processos, mas não substitui a necessidade de compreender o negócio, definir uma direção estratégica e preparar as pessoas para trabalhar de forma diferente.Que papel devem assumir as lideranças neste processo? É suficiente disponibilizar ferramentas aos trabalhadores ou os líderes terão de repensar processos, funções e modelos de organização do trabalho?As lideranças têm um papel decisivo, porque a adoção da IA não pode ser tratada apenas como um projeto tecnológico. Estamos a falar de uma transformação que pode alterar processos, funções e formas de colaboração dentro das organizações. O ponto de partida deve ser sempre o objetivo de negócio e a forma como a utilização da IA pode contribuir para melhorar os resultados e gerar mais valor para o cliente.Disponibilizar ferramentas é apenas uma parte do processo.Os líderes precisam de compreender o potencial da IA e as suas limitações e, sobretudo, garantir que existem condições para a sua utilização de forma responsável e eficaz, alinhada com os objetivos da organização.Isto implica envolver as equipas, criar espaço para experimentar e aprender, definir orientações claras e acompanhar os resultados. Mas implica também que as próprias lideranças desenvolvam competências nesta área. É difícil tomar decisões estratégicas sobre uma tecnologia quando não se compreendem minimamente as suas capacidades, limitações e implicações para o negócio.Há ainda uma responsabilidade importante na forma como se gere a mudança. Se os profissionais associarem a IA exclusivamente à possibilidade de substituição dos seus postos de trabalho, dificilmente teremos um ambiente favorável à inovação. As lideranças devem conseguir explicar os objetivos da transformação e demonstrar de que forma o desenvolvimento de novas competências pode criar oportunidades de evolução profissional.No fundo, liderar a transformação com IA não é apenas decidir que tecnologia utilizar. É definir o que se pretende alcançar, preparar a organização para transformar os seus processos e as suas formas de trabalhar e garantir que essa transformação produz resultados concretos para o negócio e valor para o cliente.Que competências humanas poderão tornar-se mais valiosas num mercado de trabalho cada vez mais automatizado? O que está efetivamente a ganhar peso?O pensamento crítico, a capacidade de resolver problemas, a criatividade, a capacidade de decisão, a comunicação e a inteligência relacional assumem particular relevância, embora de formas diferentes.O pensamento crítico é essencial para avaliar a qualidade e a fiabilidade da informação produzida pela IA. A capacidade de resolver problemas e tomar decisões permite compreender o contexto, ponderar alternativas e avaliar as consequências das soluções propostas. A criatividade e a capacidade de adaptação ajudam a explorar novas abordagens e a responder à transformação contínua da forma como trabalhamos. Já a comunicação e a inteligência relacional são fundamentais para colaborar, compreender necessidades e construir relações de confiança.No entanto, não devemos olhar para estas competências de forma isolada das competências técnicas e tecnológicas. O conhecimento de uma determinada área continua a ser fundamental para interpretar a informação, avaliar os resultados produzidos pela IA e perceber se são adequados a cada situação.O objetivo não deve ser apenas desenvolver competências humanas ou ensinar a utilizar ferramentas de IA, mas combinar estas duas dimensões. É essa combinação de conhecimento técnico, competências humanas e capacidade de utilizar IA que permitirá aos profissionais tirar melhor partido da tecnologia e acrescentar mais valor ao seu trabalho.Olhando para os próximos três a cinco anos, que transformação acredita que a IA poderá provocar nas empresas portuguesas que hoje ainda estamos a subestimar? E que preparação deveria começar já?Acredito que estamos a subestimar o impacto que a Inteligência Artificial poderá ter nas empresas quando passar de uma ferramenta para aumentar a produtividade individual a uma tecnologia integrada nos processos de negócio. Hoje, grande parte da atenção está concentrada na utilização de IA para realizar tarefas mais rapidamente. Nos próximos três a cinco anos, o desafio estará cada vez mais na forma como as organizações vão redesenhar os seus processos e integrar a IA nas suas operações.Esta transformação poderá alterar rapidamente muitas funções. À medida que os sistemas de IA consigam executar sequências de tarefas e apoiar decisões com um grau crescente de autonomia, algumas atividades deixarão de exigir a mesma intervenção humana, enquanto outras serão realizadas de forma diferente. Isso poderá libertar tempo para atividades de maior valor, que exigem criatividade, pensamento crítico, resolução de problemas e uma maior proximidade com os clientes. O potencial não está apenas em fazer o mesmo trabalho mais depressa, mas em melhorar a forma como as organizações trabalham, reforçar a relação com os clientes e gerar mais valor para o negócio.Para acompanhar esta evolução, a preparação das pessoas é fundamental. A formação em IA será importante, tanto para os profissionais que desenvolvem e integram estas soluções como para aqueles que as utilizam no seu trabalho diário. Mas a preparação não se limita à tecnologia: exige também o desenvolvimento contínuo de competências técnicas e humanas. As organizações precisam de promover uma cultura de aprendizagem ao longo da vida, transversal a todas as áreas e níveis de responsabilidade.Esta preparação exige também um compromisso claro da liderança. É necessário compreender o impacto que a IA pode ter no negócio, definir uma visão para a transformação e assegurar a sua concretização. Isso implica governar o processo de adoção, preparar os dados e os processos, desenvolver as competências necessárias e gerir a mudança, envolvendo as pessoas na construção de novas formas de trabalhar.Na Rumos, acreditamos que a formação e a aprendizagem contínua são essenciais para acompanhar a evolução tecnológica e manter a competitividade das organizações. Investir nas pessoas é uma condição para que as empresas consigam transformar o potencial da IA em resultados concretos.Daqui a três a cinco anos, a diferença entre as empresas poderá não estar tanto nas ferramentas de IA a que têm acesso, mas na capacidade de as integrar nos seus processos, preparar as suas pessoas e utilizá-las para gerar mais valor para o negócio e para os clientes.O conteúdo «É difícil tomar decisões estratégicas sobre uma tecnologia que não se compreende», alerta Jorge Lopes, da Rumos Formação aparece primeiro em Revista Líder.