Mal se fecharam as urnas do segundo turno da eleição presidencial, que conferiu um quarto mandato ao atual presidente da República, começaram os movimentos do governo Lula 4 em direção ao único “ajuste fiscal” conhecido pela atual gestão: o aumento exponencial da tributação sobre quem produz riquezas.E, como o agronegócio está na linha de frente da produção de riquezas no país, com uma nova supersafra de grãos estimada em cerca de 367 milhões de toneladas na temporada 2026/27, conforme a última projeção oficial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), precisamos tratar desse assunto neste espaço dedicado ao mercado e ao agronegócio, até por dever de ofício.Como sempre ficou claro desde Lula 3, o aumento da tributação sobre quem produz, incluindo aqueles que trabalham no campo, parece ser a principal alternativa do governo federal para financiar sua sanha de gastos públicos. Para conquistar a reeleição, esses gastos teriam alcançado estrondosos R$ 405 bilhões, segundo números divulgados pela imprensa brasileira com base em ferramentas próprias de acompanhamento.CBS, IRRF, IOF, IBS e IS: a conta no colo de quem produz e consome do agronegócioAs siglas abundam. As novas cobranças e os aumentos de tributos também.Só a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), que substituirá, em tese, as atuais contribuições ao PIS e à Cofins, já representa um ponto de atenção. Embora tenha previsão de alíquotas reduzidas e de não incidência em determinadas operações de produtores rurais pessoas físicas, por exemplo, a alíquota de referência de 11,3% (onze inteiros e três décimos por cento) sobre as operações com bens e serviços foi aprovada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).Esse percentual, além de representar uma nova incidência para pessoas físicas — entre elas, produtores rurais que atuam como pessoas físicas e que atualmente sequer são contribuintes do PIS e da Cofins —, poderá elevar, na prática, a percepção de carga tributária sobre os produtores rurais e os demais integrantes da cadeia do agronegócio.Em relação aos contribuintes pessoas jurídicas, como agroindústrias e outros integrantes da cadeia do agronegócio, a mudança representa um aumento nominal que pode variar de 2,05% a 7,65%, a depender do regime de apuração tributária de cada empresa.E ainda nem sabemos qual será a alíquota do IS (Imposto Seletivo), popularmente conhecido como “Imposto do Pecado”. O mesmo órgão, antecipando-se às discussões, já trabalha com parâmetros para viabilizar a cobrança a partir de 2027.A isso se soma o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), cuja alíquota, segundo estimativas relacionadas ao Comitê Gestor do IBS (CGIBS), poderá acrescentar outros 18,7% aos 11,3% da CBS. Se confirmados esses parâmetros, teríamos uma carga nominal combinada superior a 30% sobre as operações, com reflexos que, naturalmente, poderão chegar a quem produz e, claro, a quem consome os produtos do campo: alimentos, vestuário, energia e seus demais subprodutos.Aumento da carga tributária e enxugamento da liquidez nos financiamentos ao agronegócioE a “sopa de letrinhas” continua. Segundo declarações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, divulgadas pela imprensa, o governo estuda a possibilidade de taxar, por meio do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), os financiamentos agropecuários, incluindo o crédito rural e as emissões de títulos do agronegócio, cujo volume gira em torno de R$ 1,4 trilhão, como mencionamos em colunas anteriores.É claro que, na prática, além de enxugar a oferta de crédito ao produtor rural em um momento de escassez e baixa liquidez, por diversas razões que sempre abordamos por aqui — como taxas de juros estruturalmente elevadas, riscos climáticos e de crédito e fatores políticos nacionais e internacionais —, a eficácia arrecadatória da medida tende a ser baixa.Seria algo semelhante ao que ocorreu com a tributação das altas rendas, no final de 2025, cuja arrecadação efetiva teria frustrado os planos iniciais do governo, alcançando cerca de 10% do valor originalmente previsto pelo então ministro Fernando Haddad para cobrir o déficit nas contas públicas.Ajuste fiscal às avessasE nem dá para cobrar um compromisso com o “ajuste fiscal” do presidente reeleito, porque ele nunca se comprometeu, de fato, com um ajuste das contas públicas. Como tratamos na última coluna, esse seria um dos grandes desafios caso o governo fosse reeleito. Agora, o cenário se materializou. Afinal, o presidente nunca demonstrou ser adepto de uma gestão rigorosa das contas públicas.Gastar é mais fácil, claro. Só que a conta será repartida pela sociedade como um todo e, em especial, pelo agronegócio, que terá de se reinventar para acomodar os custos dessa “sopa de letrinhas” nas margens dos produtores e das empresas da cadeia agroindustrial, já comprimidas por uma dinâmica de preços formados de trás para a frente: os preços são definidos pelas bolsas e pelo mercado, enquanto os custos são computados e arcados por quem produz.Esse cenário contribuirá decisivamente para uma piora das condições de quem produz, exporta, vende insumos, concede crédito e gera empregos, riqueza e renda em um setor responsável por cerca de um terço do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.E, mesmo diante de tudo isso, empreendedores e trabalhadores seguem levantando cedo, trabalhando, plantando e assumindo riscos para colher mais uma safra recorde.Que o agronegócio continue assim. Governos passam, mas nossos produtores certamente continuarão a produzir com qualidade, competência e muito, mas muito esforço e resiliência, para atender à demanda mundial por alimentos, energia limpa, fibras sustentáveis e pela descarbonização da economia.