“Um olho no cliente e outro no caixa”: a receita de Bartunek para enfrentar crises

Wait 5 sec.

Em um país onde os juros elevados encarecem o crédito e a falta de capital de giro pode comprometer até negócios lucrativos, o segredo para uma empresa sobreviver às crises e continuar crescendo está em uma combinação aparentemente simples: cuidar do cliente sem perder o controle das finanças. A recomendação é de Florian Bartunek, fundador da Constellation Asset Management, que resumiu em uma frase a principal lição de seus mais de 30 anos no mercado financeiro: “Um olho no cliente e outro no caixa”.Conhecido como o “Warren Buffett brasileiro”, Bartunek participou neste sábado (31) do G4 Valley, realizado no São Paulo Expo, na capital paulista. Em conversa com o empresário Tallis Gomes, ele defendeu que a longevidade de um negócio depende menos da velocidade de expansão e mais da capacidade de atravessar períodos difíceis sem comprometer sua estrutura financeira.Leia Mais: Como a fidelização ajudou a Growth a chegar a R$ 2 bi de faturamentoA orientação é especialmente importante para pequenas e médias empresas, que enfrentam maiores dificuldades de acesso ao crédito e, muitas vezes, operam com margens apertadas. Para Bartunek, a ansiedade de crescer rapidamente pode se transformar em uma armadilha. “Tem gente muito aflita querendo ficar rico muito rápido. Mas quando você fica aflito para ficar rico muito rápido, corre mais risco de ficar pobre muito rápido”, afirmou.Na avaliação do investidor, os empresários mais bem-sucedidos são aqueles que conseguem manter seus negócios por décadas, reinvestindo os resultados e aproveitando o efeito do crescimento acumulado ao longo do tempo. O problema é que muitos empreendedores acabam sacrificando a saúde financeira da companhia para atingir metas de expansão em prazos excessivamente curtos.A recomendação é ajustar o ritmo de crescimento à disponibilidade de recursos. “Vou crescer de acordo com a minha capacidade de caixa”, aconselhou. Segundo ele, é preferível levar mais tempo para alcançar uma meta do que comprometer a sobrevivência da empresa tentando antecipar resultados.Isso não significa abandonar oportunidades, especialmente em períodos de crise. Ao contrário, Bartunek considera que momentos de turbulência podem abrir espaço para empresas mais eficientes conquistarem mercado. “Uma empresa ruim quebra, uma empresa boa sobrevive, uma empresa espetacular cresce ainda mais”, afirmou.Inteligência artificialSe a prudência financeira é indispensável, isso não significa que os empresários devam interromper investimentos em inovação. Bartunek defendeu que a inteligência artificial representa uma oportunidade para melhorar a produtividade e reduzir custos, inclusive nas pequenas empresas.Questionado por Gomes se recomendaria assumir riscos para implantar IA em um cenário de juros altos e incerteza econômica, o gestor respondeu que o empreendedor precisa experimentar a tecnologia, mas de maneira gradual e direcionada. “Pega as melhores pessoas da sua empresa. Pega dois ou três problemas para resolver, corre risco e faz”, recomendou.Para Bartunek, uma das maiores transformações provocadas pela inteligência artificial é a democratização do acesso a ferramentas que antes estavam restritas a grandes companhias. “Se no passado a implantação de sistemas sofisticados exigia investimentos milionários, hoje empresas de diferentes portes conseguem utilizar tecnologias avançadas”.O gestor citou como exemplo atividades que consumiam dez horas de trabalho e agora podem ser executadas em duas. A redução do tempo necessário para determinadas tarefas permite que as empresas aumentem sua capacidade operacional sem elevar os custos na mesma proporção.Mas ele fez uma ressalva de que a tecnologia não elimina a necessidade de julgamento humano. “Em um processo seletivo com 40 mil currículos, por exemplo, a inteligência artificial pode realizar a triagem inicial, enquanto a avaliação dos candidatos finalistas continua sob responsabilidade das pessoas”.Outro obstáculo, segundo Bartunek, está menos na compreensão do potencial da IA e mais na capacidade de colocá-la efetivamente em funcionamento. Para ele, palestras de grandes especialistas podem inspirar os empresários, mas o que realmente faz diferença é ter alguém capaz de ensinar a utilizar as ferramentas no cotidiano, desde a organização de arquivos até a elaboração de comandos e a integração dos sistemas aos processos da empresa.A mensagem é que o investimento em inteligência artificial não deve ser guiado apenas pelo entusiasmo com a tecnologia, mas pela identificação de problemas concretos que ela possa resolver.Cultura empresarialOutro fator decisivo para a longevidade de uma empresa, segundo Bartunek, é a construção de uma cultura organizacional forte, capaz de sobreviver à ausência do fundador. O gestor propôs um teste simples para avaliar se essa cultura realmente existe: observar como os funcionários se comportam quando o empresário não está presente. “É o teste de uma boa cultura, porque é importante saber o que acontece na empresa quando você não está lá”, afirmou.Se os colaboradores só demonstram comprometimento quando estão sendo supervisionados, a companhia ainda depende excessivamente da figura do dono. Por outro lado, quando os valores e os padrões de comportamento permanecem mesmo sem sua presença, a empresa desenvolveu uma estrutura mais sólida.Bartunek frisa que a cultura empresarial não se constrói apenas por meio de discursos ou regras escritas. Ela nasce principalmente do exemplo dado pelos líderes. “Um empresário que conheço disse que passou a frequentar o escritório usando determinada marca de tênis e, pouco tempo depois, percebeu que vários funcionários haviam adotado o mesmo hábito. O episódio, aparentemente banal, mostra como o comportamento do empreendedor influencia as pessoas ao redor”, contou.Gestão de talentosNa gestão de pessoas, Bartunek defendeu uma combinação de meritocracia, generosidade e exigência. Para ele, empresas que remuneram profissionais de alto desempenho da mesma maneira que aqueles que entregam resultados inferiores correm o risco de perder seus melhores talentos. “Se eu pagar os melhores igual eu pago os piores, os melhores vão embora”, afirmou.O investidor também alertou para o risco de manter profissionais que apresentam bons resultados, mas prejudicam o ambiente de trabalho. Na sua avaliação, o desempenho individual não compensa necessariamente os danos provocados por comportamentos que contaminam a equipe. Por isso, considera essencial que os empresários saibam reconhecer talentos, compartilhar decisões e remunerar adequadamente quem contribui para o crescimento do negócio.“O tenista Roger Federer, embora dispute um esporte individual, como atleta ele depende de uma equipe de profissionais para alcançar resultados”, disse. O mesmo princípio, segundo Bartunek, vale para o mundo empresarial, porque nenhum empreendedor constrói uma companhia de sucesso sozinho.Ele também destacou a importância da preparação. “A preparação ganha do talento todo dia”, afirmou, ao defender que empresários e executivos precisam estudar continuamente para tomar decisões melhores.Economia Bartunek recorreu à própria experiência para relativizar o pessimismo em relação ao atual ambiente econômico brasileiro. O gestor lembrou que iniciou sua carreira em 1989 e atravessou episódios como o confisco da poupança durante o Plano Collor, fortes desvalorizações cambiais e a pandemia de Covid-19. “A economia brasileira já enfrentou situações extremamente adversas e, apesar das dificuldades, empresas conseguiram sobreviver e prosperar. Aprendi que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”, afirmou.Para ele, o excesso de preocupação com notícias negativas e discussões nas redes sociais pode paralisar os empresários justamente quando precisam agir. Em vez de concentrar esforços em tentar prever todos os desdobramentos políticos e econômicos, Bartunek recomenda voltar a atenção para aquilo que está sob o controle do empreendedor, como melhorar produtos, atender clientes, aumentar a eficiência e preservar a saúde financeira da companhia.A orientação é particularmente importante para o varejo, setor que ele considera um dos mais difíceis da economia brasileira. Filho de um comerciante, Bartunek contou que cresceu acompanhando as dificuldades enfrentadas pelo pai, que frequentemente precisava trabalhar nos fins de semana. A experiência o levou a reconhecer o esforço exigido dos empresários que operam com margens reduzidas e precisam equilibrar estoques, despesas, vendas e capital de giro.Nesses casos, sua recomendação é ainda mais conservadora. “Seja mais conservador, vá mais devagar, de acordo com a capacidade financeira. Mantenha proximidade com o consumidor e evite decisões precipitadas. Mas não desista”, aconselhou.Além das decisões financeiras e operacionais, Bartunek destacou que a postura do empresário influencia diretamente a disposição de sua equipe para enfrentar momentos difíceis. Segundo ele, funcionários observam não apenas as decisões tomadas pelos líderes, mas também a maneira como reagem diante de problemas.“Um empreendedor que demonstra desânimo constante pode acabar transmitindo insegurança à organização. Por isso, é fundamental que os líderes mantenham a capacidade de motivar as pessoas, mesmo quando precisam tomar decisões difíceis”, afirma. A lição, segundo ele, é de que momentos de instabilidade também podem representar oportunidades para conquistar confiança e construir relacionamentos duradouros. Bartunek reconheceu que o medo faz parte da sua própria trajetória. Apesar de administrar recursos de grandes investidores, afirmou que o receio de perder dinheiro sempre influenciou suas decisões. Para ele, esse sentimento pode funcionar como um mecanismo de prudência, desde que não impeça o empresário de agir.Ao encerrar sua participação, deixou uma mensagem aos empreendedores que enfrentam dificuldades para manter seus negócios, para não permitir que o pessimismo paralise a empresa e concentrar esforços naquilo que pode ser melhorado. “Pense: o que eu posso fazer de bom para o meu cliente?”, recomendou. Para Bartunek, essa pergunta, acompanhada de disciplina financeira, investimento em tecnologia, valorização das pessoas e persistência, é o que diferencia as empresas que apenas sobrevivem daquelas que conseguem sair mais fortes das crises.The post “Um olho no cliente e outro no caixa”: a receita de Bartunek para enfrentar crises appeared first on InfoMoney.