Um estudo conduzido pela Unifesp e pelo Instituto de Psicologia da USP desmistificou a ideia de que a dependência química em populações vulneráveis decorre da “falta de Deus”. Publicada na revista científica Nursing & Health Sciences, a pesquisa investigou a relação entre espiritualidade e o transtorno por uso de substâncias (TSU) por meio de entrevistas com 40 pessoas em situação de rua no Brasil e em Portugal.Os resultados revelaram que a religiosidade permaneceu viva durante o período de consumo e, frequentemente, se intensificou como uma ferramenta de amparo e sobrevivência. A investigação identificou que muitos entrevistados desenvolvem o que a psicóloga Camila Chagas denomina de “proteção subjetiva”: a crença profunda de que uma divindade os protege ativamente contra overdoses ou infecções. Leia Mais Vídeo: adolescente de 14 anos é agredido por PM em Santa Catarina Shamonda: o que se sabe sobre vírus que infectou homem na França Pesquisa da FMUSP encontra fentanil em 32% dos usuários de drogas de São Paulo Embora traga alívio emocional, essa percepção pode se tornar um fator de risco quando leva à negligência de cuidados básicos de saúde. Além disso, a maioria relatou desconforto e sensação de rejeição em igrejas e cultos tradicionais devido ao estigma associado às drogas e à condição de rua.Pluralidade religiosa e o contraste entre as políticas de drogas do Brasil e de PortugalA escolha dos dois países levou em consideração suas raízes religiosas e modelos opostos de políticas públicas na área de drogas. Enquanto Portugal é predominantemente católico (81%), o Brasil apresenta maior pluralidade, com 50% de católicos e um crescimento expressivo de cristãos evangélicos (31%).No campo regulatório, Portugal ocupa o 3º lugar no Índice Global de Políticas sobre Drogas por descriminalizar o consumo e investir em estratégias de redução de danos. Em contrapartida, o Brasil figura em 30º lugar, mantendo a criminalização e apostando em comunidades terapêuticas focadas na abstinência total, método criticado pela pesquisadora devido à ineficácia científica comprovada, além dos riscos à saúde física e mental e das altas taxas de recaída.Brasil versus Portugal: como a religião e os modelos de tratamento impactam a recuperaçãoO estudo comparou as realidades dos dois países e revelou dinâmicas distintas: no Brasil, a maioria dos entrevistados era evangélica (40%) e passava por comunidades terapêuticas focadas na abstinência total, acumulando sentimentos de culpa e falha pessoal diante de recaídas.Em Portugal, prevaleceram católicos (50%) e pessoas sem religião (40%), inseridos em modelos de redução de danos e com postura mais crítica em relação às instituições. A análise genealógica dos participantes mostrou ainda que o consumo severo está enraizado em históricos familiares de traumas e violência desde a infância.Igrejas sem paredes e políticas públicas: caminhos para o acolhimento sem dogmasComo alternativa ao afastamento dos templos convencionais, a pesquisa destaca iniciativas internacionais como as “igrejas sem paredes”, estruturas montadas ao ar livre no México e nos EUA que realizam cultos sem julgamentos morais.Ao comprovar que a espiritualidade já integra o cotidiano dessa população, o estudo conclui que a assistência social e a saúde pública não precisam impor visões dogmáticas, mas sim desmantelar preconceitos para oferecer redes de apoio humanizadas.