Quando o discurso de guerra de Winston Churchill deu lugar à frenética “Aces High” no início do bis, o Iron Maiden voltava ao palco do Nubank Parque após um curto intervalo. O público, que esgotou os ingressos para aquele domingo (25) e havia se esgoelado a noite inteira, encontrou forças para encobrir a ainda potente voz de Bruce Dickinson no refrão. Nada fora do comum.A apresentação, no entanto, já beirava as duas horas de duração, e foi a mais longa do grupo inglês em suas quinze visitas ao Brasil. A celebração de 50 anos de carreira também veio com novidades. O baterista estreante Simon Dawson e o conceito de palco modernizado, porém, foram meros coadjuvantes diante de um repertório especial que realizou sonhos de fãs brasileiros.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosAlter Bridge supera falta de afinidade com show competenteA abertura da noite ficou a cargo dos americanos do Alter Bridge. Seguindo uma tendência cada vez mais comum nos shows de estádio em São Paulo, a escolha da banda de suporte pareceu responder mais à capacidade de atrair público do que a qualquer afinidade musical com a atração principal.A bagagem de mais de vinte anos de carreira do quarteto formado por três instrumentistas do megaplatinado Creed e o vocalista da carreira solo do lendário Slash, porém, foi suficiente para navegar de forma tranquila ao longo de cinquenta minutos na rebatizada arena da zona oeste paulistana.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosO público majoritariamente se dividiu entre checar apreensivo, no celular, o resultado da apuração da eleição presidencial e buscar no álcool o relaxamento para esperar pelo Iron Maiden. Músicas versáteis como “Cry of Achilles” e “Fortress”, do álbum homônimo de 2013, porém, foram aos poucos chamando a atenção com as alternâncias de solos entre Mark Tremonti e o também vocalista Myles Kennedy.Além de conduzir a apresentação de forma sóbria tanto na comunicação quanto nos arroubos mais histriônicos, o cantor mostrou estar com a voz em dia, principalmente na épica “Blackbird”. Antes da pesada “Silver Tongue”, Kennedy agradeceu ao Iron Maiden e revelou a ansiedade do baixista Brian Marshall com a oportunidade.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosQuando o baterista Scott Phillips deu início a “Metalingus”, do disco de estreia, a pista, ainda longe de encher, já estava conquistada. O público chegou a cantar sozinho o refrão de “Isolation”, que encerrou uma apresentação competente e sem grandes recursos cênicos, restritos ao logo da banda ao fundo e a um jogo de luzes pouco chamativo.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosSetlist — Alter Bridge:Silent DivideAddicted to PainCry of AchillesFortressSilver TongueMetalingusBlackbirdIsolationUm novo baterista, o mesmo velho MaidenJá são tantas vindas do Iron Maiden que é difícil acreditar que a passagem da turnê “Run for Your Lives” em 2026 apresentou situações inéditas para o público brasileiro. A mais óbvia foi Simon Dawson como substituto de Nicko McBrain. O parceiro de seção rítmica de Steve Harris no British Lion trouxe muita solidez e pouco brilho ao Iron Maiden.Em um repertório focado no material oitentista do grupo, a vitalidade do período não encontrou respaldo no bumbo do novo membro. Com viradas lentas que por vezes soavam truncadas, Dawson não trazia a fluência única do falecido Clive Burr, muito menos os acentos jazzísticos do aposentado McBrain.A força do material apresentado fez da atuação opaca do baterista algo irrelevante. A promessa de um repertório baseado nos trabalhos lançados até “Fear of the Dark” (1992) foi cumprida. Mas o Nubank Parque viu um set que só não foi exclusivamente oitentista pela faixa-título do álbum de 1992, tocada no bis com a recepção catártica esperada.Dez minutos antes das 20h50, hora prevista para o Iron Maiden subir ao palco, “Doctor Doctor”, clássico do UFO, explodiu no PA do estádio, diante de um público empolgado que já havia enchido a pista.O passado ganha vida no telãoQuando “The Ides of March”, clássica introdução do álbum “Killers” (1981), substituiu “Doctor Doctor” no sistema de som, outra novidade deu as caras. Os tradicionais cenários com ilustrações em panos ao fundo do palco foram substituídos por um telão. Recebida com coros e gritos, ela foi acompanhada de uma animação que percorria uma Londres soturna, até encontrar a caveira estilizada na capa do disco de 1981.“Murders in the Rue Morgue” abriu a noite com sua introdução lenta pré-gravada. Quando Dawson repicou a caixa e as luzes do palco se acenderam, os músicos já estavam a postos para o ataque na veloz canção do segundo disco. “Wrathchild”, na sequência, até pulsava de forma estranha com o novo baterista, mas isso não impediu ninguém de sair pulando ao seu ritmo irresistível. O grito hercúleo de Bruce Dickinson no meio do solo mostrou o vocalista em forma, seguro a ponto de até copiar os falsetes de Paul Di’Anno na introdução de “Killers”.A sequência inicial da noite, do derradeiro álbum com o cantor falecido em outubro de 2024, trouxe duas canções que a banda jamais havia executado no país antes.A soturna e vibrante “Killers”, com direito ao “boneco de Olinda” da velha guarda e sua machadinha no palco, não fazia parte do repertório desde a turnê “Ed Hunter”, que marcou o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith ao Iron Maiden em 1999.Já a música que iniciou a noite fez parte da “Ed Rips Up the World”, de 2005, com setlist concentrado nos quatro primeiros trabalhos, parte da promoção do primeiro lançamento de uma série de DVDs repassando sua história.“Phantom of the Opera” fechou a sequência da fase Di’Anno. O período só seria representado de novo com a inevitável “Iron Maiden”, dessa vez com a caveira gigante restrita ao telão ao encerrar a parte principal do show.O uso das imagens, na maior parte do tempo com as ilustrações de singles e discos levemente animadas por inteligência artificial, felizmente não mudou a dinâmica da movimentação dos músicos no palco em uma noite de poucos discursos de Dickinson entre as canções.Steve Harris seguiu ditando o ritmo com seu baixo. Se Dawson pareceu se esforçar muito e algumas vezes não conseguir mantê-lo, o trio de guitarristas não mudou o padrão das últimas três décadas, apesar do som por vezes embolado.Janick Gers foi performático e barulhento, enquanto Dave Murray e Adrian Smith se divertiram como se o palco fosse um campo de golfe ou um barco de pesca. Passou longe a perfeição na reprodução dos solos que marcou o período oitentista, mas as harmonias sincronizadas clássicas não faltaram.O teatro entre épicos e clássicosA versátil canção do disco de estreia homônimo de 1980, por sua vez, marcou o início de uma alternância entre faixas mais longas e épicas com os grandes marcos atemporais do heavy metal que não podem faltar num show especial como esse. Para cada frenesi causado por clássicos como “The Number of the Beast”, “2 Minutes to Midnight”, “The Trooper” e “Run to the Hills”, o Iron Maiden testava a fidelidade de seus fãs com suas aventuras progressivas.“Seventh Son of a Seventh Son” foi estendida em sua soturna parte intermediária para bater a marca dos dez minutos de duração de “Rime of the Ancient Mariner”. A longa música do álbum “Powerslave” (1984), por sua vez, foi introduzida por um discurso hilário de Dickinson. Talvez de forma involuntária, o cantor misturou a marchinha “você pensa que cachaça é água?” às clássicas frases contidas em “Live After Death”, trabalho ao vivo de 1985. A história do poema que inspirou sua letra também foi contada na animação do telão.A solene “Hallowed Be Thy Name” levou a teatralidade ao extremo, com o vocalista, vestido como um ator em meio a adereços no palco, carregando na dramaticidade de sua interpretação. O mesmo exagero se deu na introdução de “Fear of the Dark”, com o estádio iluminado pelas lanternas dos celulares no bis — uma daquelas breguices que o Iron Maiden consegue passar ileso.Funcional, porém, foi o uso do telão na construção da atmosfera dessas duas músicas, repetido em “Aces High”, com Ed manobrando uma aeronave no ritmo da canção. Mas, sinceramente, o recurso passou despercebido em “Wasted Years”, que encerrou a noite com Bruce pedindo coros aos fãs para festejar como se todos estivessem se divertindo no melhor momento de suas vidas.Foi em “Infinite Dreams”, porém, que Dickinson e o Iron Maiden encontraram a síntese perfeita para a noite no NuBank Park. Antes de executar pela primeira vez no Brasil a épica balada de “Seventh Son of a Seventh Son” (1988) — ausente dos sets desde a turnê do ano de lançamento —, o vocalista declarou: “todos devem ser capazes de ter sonhos”.Para o público que lotou a primeira noite paulistana da turnê, a esperança veio ao final das mais de duas horas de show, quando Dickinson, em uma referência a James Bond, prometeu voltar ao país. Com meio século de carreira nas costas, o Iron Maiden mostrou que esse sonho ainda está longe de ser impossível.Iron Maiden — ao vivo em São PauloLocal: Nubank ParqueData: 25 de outubro de 2026Turnê: Run for Your LivesProdução: Move ConcertsRepertório:The Ides of March (Intro) + Murders in the Rue MorgueWrathchildKillersPhantom of the OperaThe Number of the BeastInfinite DreamsPowerslave2 Minutes to MidnightRime of the Ancient MarinerRun to the HillsSeventh Son of a Seventh SonThe TrooperHallowed Be Thy NameIron MaidenBis:Churchill’s Speech (Intro) + Aces HighFear of the DarkWasted YearsQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | X/Twitter | Facebook | YouTube | Bluesky | Threads | TikTok.O post Iron Maiden prova a São Paulo que sonhos não envelhecem apareceu primeiro em Igor Miranda.