Colocar criptomoedas e ativos tokenizados no mesmo saco é um erro conceitual frequente, segundo especialistas do setor. Entretanto, a diferença é muito clara e se torna ainda mais relevante diante do futuro tokenizado que o mercado de capitais vislumbra para os ativos.Em painel do encontro anual sobre índices e ETFs no Brasil 2026, promovido nesta quarta-feira (28) pela S&P Global, Courtney Guimarães, diretor da área de ativos digitais da Bradesco Asset Management destacou porque esses ativos não devem ser confundidos.Para o executivo, a diferença essencial não está na tecnologia blockchain em si — que é comum aos dois —, mas na natureza do que está sendo negociado.Enquanto o Bitcoin (BTC) se sustenta na convicção e percepção coletiva de que é um produto financeiro, a tokenização representa a evolução tecnológica do registro de bens e instrumentos no mundo digital.O ativo psicológico vs. representação real“O Bitcoin é um ativo psicológico. Ele tem valor porque as pessoas atribuem valor a ele, sem que exista um fluxo de caixa tradicional por trás. Vale US$ 80 mil por essa é a percepção social”, disse Guimarães.Já no universo da tokenização, a lógica é estritamente fundamentalista.O token funciona como um recibo digital estruturado ou o próprio instrumento financeiro completo. Ele pode representar um título público, uma cota de fundo de investimento, um recebível ou até mesmo garantias agrícolas e imobiliárias.“O investidor tradicional não quer comprar ‘um token’. Ele quer comprar o ativo real. No passado, a forma desse ativo era o papel e agora migra para redes digitais. Se chamamos de token ou não, não importa: o ativo é o mesmo”, destacou o diretor.Outro divisor de águas entre o Bitcoin e os ativos tokenizados, segundo Guimarães, está na governança e no papel do regulador.Enquanto o ecossistema cripto tradicional lida com especulação e volatilidade contínua, os tokens de ativos reais têm a atenção das autoridades por permitirem a programação do arcabouço jurídico diretamente no contrato inteligente (smart contract).Dessa forma, regras de compliance, pagamento automático de dividendos e restrições de transferência são executadas pelo próprio código, garantindo que o produto funcione exatamente como a legislação exige, sem brechas operacionais.Diferentes investidoresA comparação do diretor do Bradesco expôs ainda a existência de dois públicos com objetivos completamente distintos.De um lado está o negociador de criptoativos. Segundo Guimarães, ele busca ganhos rápidos de preço e opera em horários alternativos, que o mercado não opera, como madrugada e fins de semana.Do outro, está o investidor de ativos tokenizados. Este tem um perfil mais tradicional, que busca eficiência operacional e redução nos custos de administração e liquidação.Para o executivo, é importante ter esses dois perfis muito claros, pois não são produtos da mesma natureza, assim como não são investidores da mesma natureza.Conforme o mercado de tokenização avança, alguns aspectos que antes eram restritos às criptomoedas devem chegar para os ativos tokenizados.Os principais pontos são a integração de contratos inteligentes e o ecossistema digital, que disponibiliza a infraestrutura de negociação contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, e liquidação em tempo real.Para Guimarães, esse será um processo interessante de acompanhar, porém não será tão rápido assim. O executivo acredita que a infraestrutura dos mercados ainda precisa de muita evolução para chegar no mercado de capitais 100% tokenizado.