Iron Maiden trouxe um de seus melhores repertórios a Curitiba; saiba como foi

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*Texto por Luís Bocatios | Após o anúncio de dois shows em São Paulo nos dias 25 e 27 de outubro, a agenda do Iron Maiden no Brasil parecia fechada para 2026. Para a sorte de Curitiba, surgiu uma data na Arena da Baixada, para 28 de outubro — a última quarta-feira — com ingressos rapidamente esgotados.Justiça seja feita. A cidade contemplada traz laços fortes com o Maiden. A Bodebrown, empresa que fabrica as cervejas oficiais da banda no Brasil, é curitibana. O vocalista Bruce Dickinson é cidadão honorário da capital paranaense desde 2024. Os projetos solo dos integrantes costumam passar sempre por aqui — Dickinson trouxe seu show solo em 2024 e Adrian Smith tocou ao lado de Richie Kotzen em abril deste ano.Além disso, a apresentação de quarta-feira (28) foi a sétima do Maiden em Curitiba: as duas primeiras, em 1996 e 1998, com Blaze Bayley nos vocais; e as quatro seguintes, em 2008, 2011, 2013 e 2022, praticamente com a mesma formação do show de 2026 — a única novidade é o baterista Simon Dawson no lugar de Nicko McBrain, aposentado dos palcos desde dezembro de 2024 por questões de saúde.A turnê atual, “Run for Your Lives”, celebra os 50 anos de carreira e contempla a fase clássica da discografia do grupo — do disco de estreia homônimo, de 1980, até “Fear of the Dark” (1992). O repertório resgatou pérolas esquecidas dos shows há décadas, como “Killers” e “Infinite Dreams”, e trouxe pelo menos uma música de cada disco dessa fase, com exceção do injustamente renegado “No Prayer for the Dying”. Outra mudança se deu no palco: em vez das tradicionais cortinas que mudavam a cada música, desta vez a banda optou por um telão repleto de animações que vão sendo exibidas ao longo da apresentação.Alter BridgeA abertura dos três shows no Brasil ficou por conta do Alter Bridge, cuja formação une o vocalista e guitarrista Myles Kennedy, também conhecido por seu trabalho na carreira solo de Slash, e três ex-membros do Creed: o guitarrista Mark Tremonti, o baixista Brian Marshall e o baterista Scott Phillips. O som é pesado, mas não conversa tanto com o heavy metal clássico do Iron Maiden. Talvez por isso a reação do público tenha sido morna de início, mas se tornou mais calorosa gradualmente.A primeira música foi “Silent Divide”, única representante do álbum mais recente da banda, o homônimo lançado em janeiro deste ano. Encontrou uma recepção quase inexistente do público. Em seguida, três músicas do álbum “Fortress” (2013): “Addicted to Pain” começou a esquentar as coisas, “Cry of Achilles” fez a plateia bater palmas no ritmo da introdução e agradou por seu grandioso refrão, e a longa e climática faixa-título contou com uma bela performance de Kennedy, vocalista discreto em sua presença de palco, mas de competência inquestionável tanto nos vocais quanto na guitarra.Seu grande momento como frontman foi em “Ghost of Days Gone By”, na qual conduziu as palmas e gritos da plateia na introdução. Já a pesada “Metalingus”, música de maior sucesso, causou aplausos efusivos e fez o público gritar o nome da banda, consolidando a aprovação da plateia.Após uma curta citação a “Blackbird”, dos Beatles, a banda se despediu com sua própria “Blackbird”, reconhecida imediatamente por boa parte do público. Conta a favor do Alter Bridge o fato de um show que começou tão morno ter se transformado em diversão, driblando a ansiedade do público. Deixaram uma impressão positiva.Repertório — Alter Bridge:Silent DivideAddicted to PainCry of AchillesFortressGhost of Days Gone ByMetalingusBlackbird (com citação a “Blackbird”, dos Beatles)Iron MaidenFinalmente, às 20h48, os alto-falantes da Arena da Baixada explodem ao som de “Doctor, Doctor”, do UFO, fazendo o público cantar e pular como se o Maiden já estivesse no palco. A ansiedade fica ainda maior quando as caixas de som tocam “The Ides of March”, instrumental de abertura do álbum “Killers” (1981), e a introdução de “Murders in the Rue Morgue”, na qual o público parece prestes a estourar de expectativa.A tensão toda é liberada quando Simon Dawson dá o pontapé inicial e a banda entra no palco, levando a plateia ao delírio: Bruce Dickinson corre e agita como se fosse um garoto de 20 anos, Janick Gers pula e faz acrobacias com a guitarra, Steve Harris vai de um lado para o outro do palco como se estivesse olhando nos olhos da plateia. Começou o show do Iron Maiden.A trinca inicial foi completa por mais duas músicas do disco “Killers”: “Wrathchild”, um dos maiores clássicos da época de Paul Di’Anno como vocalista, e a faixa-título, raridade que retornou ao repertório após mais de 25 anos fora. Embora estupendas, as canções foram executadas em um andamento consideravelmente mais cadenciado em relação ao registro original, diminuindo a energia quase punk da fase inicial da banda.Visualmente, o palco remete ao início da carreira do Maiden, com Dickinson trajando uma jaqueta de couro à la Paul Di’Anno e imagens no telão recriando o ambiente da Londres do início dos anos 1980 com a mesma identidade visual da capa dos dois primeiros álbuns. A primeira aparição do mascote Eddie ocorreu na terceira faixa, com um casaco similar ao do vocalista e o machado da capa de “Killers”.Ao saudar a plateia pela primeira vez, o vocalista ressaltou que aquele era o maior show da história da banda em Curitiba: “Nós amamos São Paulo, mas quer saber? O Brasil, esse país fantástico, é muito mais do que São Paulo”. Em seguida, contou que a história da próxima canção começou como um livro, depois virou um filme, um musical e, enfim, uma música do Iron Maiden.“Phantom of the Opera”, o primeiro épico da carreira do grupo, foi um dos grandes momentos da noite. A performance de Simon Dawson, discreta ao longo da maior parte das músicas, ganha destaque por todas as mudanças de ritmo que são o charme de uma das mais representativas composições do Iron Maiden, por seus elementos pesados e soturnos e influência do rock progressivo dos anos 1970.As luzes se apagam e, em meio à escuridão, surge a introdução falada de “The Number of the Beast”, tão icônica quanto a música em si e entoada pelo público quase com o mesmo fervor do refrão. Como sempre nas performances ao vivo, o grande destaque fica com a parte dos solos de Smith e Dave Murray, encerrada por Steve Harris com uma das linhas de baixo mais inspiradas de sua carreira.A maior raridade da noite, “Infinite Dreams” havia sido executada pela última vez em 1988, na turnê “Maiden England”. Todos os músicos entregaram uma execução impecável, mas o destaque foi mesmo Bruce Dickinson em sua melhor performance ao longo da noite. Alternando entre momentos sutis e outros de puro poder — especialmente no grito que dá início à parte mais rápida da canção —, o vocalista mostra mais uma vez que está no mesmo time de Glenn Hughes, Steven Tyler e do saudoso Ronnie James Dio como um dos gogós mais longevos do rock.Em seguida, vieram três músicas de “Powerslave” (1984), talvez o álbum mais marcante da carreira da banda e, não por acaso, o mais representado no repertório. A primeira foi a magnífica faixa-título, um dos melhores momentos do show, com destaque para o impecável solo de Dave Murray. Dickinson aparentou ter alguns problemas em seu retorno, perdendo ligeiramente o ritmo em alguns momentos e tentando se manter próximo da bateria para conseguir se achar. Já o hit “2 Minutes to Midnight”, de fora dos shows desde 2019, divertiu o público e gerou um grande coro no refrão.Ao longo de seus 13 minutos, “Rime of the Ancient Mariner” reúne tudo o que transformou o Iron Maiden em uma das maiores bandas de todos os tempos: o baixo galopante de Steve Harris pulsa como nunca, as guitarras harmonizadas acachapantes constroem um clima tenso e o vocal de Bruce Dickinson narra uma história intrigante baseada no poema homônimo publicado no final do século 16. É difícil achar palavras para explicar o poder da parte final da música, com um dos riffs mais brilhantes da carreira do Iron Maiden ressoando nas caixas de som como se fossem trovoadas. Um épico no sentido mais puro da palavra.“Run to the Hills”, sempre marcando presença, nunca falha em ser um dos momentos mais catárticos do show, com um coro ensurdecedor no refrão e na ponte. Bruce Dickinson sofreu para chegar nas notas mais altas, mas deu conta do recado. O mesmo vale para “The Trooper”, executada pouco depois, tanto em relação ao vocal de Dickinson quanto à recepção do público. A música trouxe a segunda e derradeira aparição de Eddie na noite.Outra surpresa do repertório é a soturna “Seventh Son of a Seventh Son”, mais um épico com quase 10 minutos de duração que apresenta tudo o que há de melhor no Iron Maiden. Apesar da impecável performance de Dickinson — ovacionado após segurar uma nota por um tempo impressionante —, o destaque fica com Dave Murray e Adrian Smith, protagonistas de um magnífico duelo de solos de guitarra perto do fim. Em algumas das passagens mais intrincadas desta parte final, tecnicamente desafiadora para todos os músicos, o baterista Simon Dawson deixou um tanto a desejar, passando reto em algumas viradas e embolando outras.A performance do baterista parece ser o principal ponto de atenção dos fãs mais fervorosos. Mesmo que passe longe da perfeição, não chega a atrapalhar tanto assim. O andamento reduzido nas primeiras músicas, por exemplo, muito possivelmente é uma imposição da banda, não uma incapacidade do músico. A simplificação de algumas viradas incomoda, assim como uma condução diferente da qual estávamos acostumados com o incomparável Nicko McBrain, mas nada que impacte a experiência de forma tão significativa.Já se aproximando do final, o show tem sequência com “Hallowed Be Thy Name”, talvez a canção que melhor represente a sonoridade do Iron Maiden. Cantando atrás de grades que simulam o aprisionamento do protagonista da música — um homem condenado à pena de morte esperando o momento de sua execução —, Bruce luta para encontrar fôlego, mas entrega toda a dramaticidade possível em sua performance, enquanto os três guitarristas se unem a Steve Harris no meio do palco e executam as inconfundíveis harmonias de guitarra que dão a sensação de um pesadelo sonoro.Durante os solos, as guitarras soaram muito mais altas do que todos os outros instrumentos, o que causou uma visível preocupação dos músicos em cima do palco: a liderança de Steve Harris fez toda a diferença ao se aproximar do baterista e fincar os olhos nele para que a cozinha se mantivesse conectada e o resto da banda não se perdesse. A festa do público se estendeu ao final da música, num coro com o título da canção. Se uma única música deveria estar em absolutamente todos os shows do Maiden, é “Hallowed Be Thy Name”.A incontornável “Iron Maiden” foi a última antes da banda sair do palco para o bis, cujo início se deu com o discurso de Winston Churchill precedendo “Aces High”. Abertura clássica de shows do Maiden, a música vem migrando aos poucos para o final das apresentações — decisão passível de questionamento, visto que se trata de um dos vocais mais agudos e desafiadores para um Dickinson já desgastado após duas horas de show. O vocalista teve imensa dificuldade para chegar nas notas mais altas e teve que adaptar partes da melodia. Algo normal, ainda mais se levarmos em conta que a banda havia se apresentado em São Paulo no dia anterior.A dobradinha final veio com dois dos maiores sucessos: “Fear of the Dark”, com o tradicionalíssimo coro que a transformou em indispensável nos repertórios desde seu lançamento, e “Wasted Years”, cujo emocionante refrão só não é mais arrebatador do que o solo de Adrian Smith, um dos melhores de sua carreira.De todas as turnês que o Iron Maiden trouxe ao Brasil, talvez “Run For Your Lives” seja a mais completa para os fãs old-school que torcem o nariz para o trabalho da banda a partir da década de 1990. Em um show com 2h12 de duração, o passeio pela fase clássica equilibrou perfeitamente a era Paul Di’ Anno, os grandes sucessos indispensáveis e alguns lados B inesperados, resultando em um repertório quase bom demais pra ser verdade.Iron Maiden — ao vivo em CuritibaLocal: Arena da BaixadaData: 28 de outubro de 2026Turnê: Run for Your LivesProdução: Move ConcertsRepertório:The Ides of March (Intro) + Murders in the Rue MorgueWrathchildKillersPhantom of the OperaThe Number of the BeastInfinite DreamsPowerslave2 Minutes to MidnightRime of the Ancient MarinerRun to the HillsSeventh Son of a Seventh SonThe TrooperHallowed Be Thy NameIron MaidenBis:Churchill’s Speech (Intro) + Aces HighFear of the DarkWasted YearsQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? 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