A aposta tecnológica da CSD BR para concorrer com a B3 a partir do próximo ano, segundo o próprio CEO

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A CSD BR, infraestrutura do mercado financeiro que busca ser uma das futuras concorrentes da B3, aposta na criação de novos mercados e na interoperabilidade entre depositárias para expandir a atuação no mercado de capitais brasileiro. A companhia já ultrapassou a B3 em volume de operações com swaps de balcão e defende que há espaço para novos participantes, considerando a dimensão da economia brasileira e a participação ainda limitada do mercado de capitais.Para o CEO da CSD BR, Edivar Queiroz, o avanço da companhia em derivativos demonstra que a entrada de novos participantes não depende necessariamente da transferência de negócios de uma infraestrutura para outra. A estratégia, segundo ele, pode contribuir para criar mercados que ainda não existiam ou que permaneciam pouco desenvolvidos.“Uma das coisas mais legais desse desafio é que nós não pegamos o mercado da B3. A B3 continua crescendo, e nós criamos um mercado. Isso mostra a nossa tese: o Brasil está entre as maiores economias do mundo, mas tem um mercado de capitais relativamente pequeno. Existe uma lacuna a ser preenchida”, afirma Queiroz, em entrevista concedida ao Money Times.A atuação da CSD BR vai além dos derivativos. A companhia tem licenças para registro, depósito e liquidação de ativos financeiros e valores mobiliários, incluindo instrumentos como CDBs, LCIs, letras financeiras, debêntures e ações. Neste último caso, a infraestrutura atua no registro e no depósito dos papéis, sem oferecer um ambiente próprio de negociação de ações.Segundo o executivo, a empresa já liquidou R$ 320 bilhões em operações neste ano, até perto do fim de setembro.Interoperabilidade busca conectar diferentes infraestruturasUma das principais apostas da CSD BR para ampliar a concorrência é a interoperabilidade entre depositárias, mecanismo que permite a investidores acessar produtos custodiados em uma infraestrutura diferente daquela à qual estão conectados diretamente.A companhia assinou um acordo com a BEE4 para viabilizar esse modelo. A proposta é permitir que participantes de uma depositária acessem ativos registrados na outra sem precisar estabelecer uma conexão direta com todas as infraestruturas do mercado.Na prática, o investidor poderá negociar um produto disponível em outra depositária por meio do ambiente ao qual já está conectado, enquanto as instituições responsáveis pelas infraestruturas fazem a comunicação entre si.“Imagine que alguém está conectado à CSD e quer comprar um produto que está na BEE4. Essa pessoa não precisa ir diretamente à BEE4: pode comprar por aqui, e nós nos comunicamos com a outra depositária. O mesmo vale para um cliente da BEE4 que queira comprar um produto nosso”, explica Queiroz.O executivo compara o funcionamento ao de uma ligação telefônica: quem faz a chamada não precisa saber qual operadora atende a outra pessoa. A comunicação entre as redes acontece sem que essa diferença precise ser percebida pelo usuário.“O legal é que a interoperabilidade é absolutamente transparente para o investidor”, afirma.O acordo entre CSD BR e BEE4 ainda depende da conclusão das etapas regulatórias necessárias para entrar em operação. Segundo Queiroz, o modelo já foi considerado juridicamente viável pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pelo Banco Central (BC), mas ainda aguarda a definição do procedimento operacional aplicável.O CEO ressalta que a iniciativa tem uma característica específica: trata-se de um acordo voluntário entre duas depositárias de valores mobiliários, com o objetivo de conectar suas infraestruturas e favorecer a concorrência.Embora existam outras formas de interoperabilidade no mercado brasileiro, como a relação entre a B3 e a Selic no contexto dos títulos públicos federais, Queiroz destaca que a iniciativa da CSD BR e da BEE4 foi construída voluntariamente pelas próprias instituições.“É a primeira iniciativa voluntária desse tipo entre duas depositárias de valores mobiliários. São dois participantes do mercado que decidiram fazer algo em conjunto porque entendem que um mercado mais conectado é melhor para o país”, diz.Concorrência também pode aumentar a resiliência do mercadoAlém de ampliar o acesso a produtos, a interoperabilidade pode contribuir para reduzir os riscos associados à dependência de uma única infraestrutura. Na avaliação de Queiroz, a conexão entre depositárias cria uma alternativa para que novas operações continuem sendo realizadas caso uma das plataformas enfrente uma interrupção.O executivo cita episódios em que problemas operacionais afetaram o funcionamento da B3 e destaca que falhas dessa natureza podem ter consequências para investidores e para a percepção internacional sobre a infraestrutura do mercado brasileiro.“Uma empresa como a B3 deixar de operar por tanto tempo é uma coisa séria. Para o Brasil, isso é ruim, porque os participantes podem começar a se perguntar se todas as infraestruturas do país funcionam assim”, afirma.Por outro lado, Queiroz avalia que episódios desse tipo reforçam a importância de desenvolver alternativas tecnológicas e operacionais. Com a interoperabilidade, uma interrupção em determinada infraestrutura não precisaria necessariamente impedir a realização de novas negociações em outros ambientes conectados.Ele ressalta, porém, que isso não significa que todas as operações poderiam continuar normalmente. A possibilidade de negociar novos ativos dependeria dos produtos disponíveis e das conexões estabelecidas, enquanto a liquidação de operações realizadas anteriormente continuaria sujeita aos procedimentos da infraestrutura responsável por elas.“Se a B3 tivesse parado, as novas negociações de ações, dólar e juros poderiam continuar sendo feitas em outro ambiente conectado. As operações anteriores ainda precisariam ser liquidadas conforme os procedimentos aplicáveis”, explica.Queiroz também cita um relatório de revisão por pares do Conselho de Estabilidade Financeira (Financial Stability Board, ou FSB), publicado em 2017, ao defender a importância de mecanismos de contingência para o funcionamento do sistema financeiro. Na visão do executivo, a interoperabilidade pode ser uma das ferramentas para construir essa resiliência.Tecnologia própria e equipe de 200 profissionaisA CSD BR desenvolve internamente toda a tecnologia utilizada em sua infraestrutura. Segundo Queiroz, a decisão de manter o desenvolvimento dentro de casa está relacionada à busca por maior controle sobre os sistemas e à capacidade de adaptá-los às necessidades do negócio.A empresa conta com aproximadamente 200 funcionários, dos quais cerca de 140 são engenheiros envolvidos no desenvolvimento de software e infraestrutura tecnológica.“Nossa tecnologia é toda desenvolvida internamente. Fizemos essa escolha para ter controle sobre os sistemas. Quando você desenvolve a própria tecnologia, conhece a estrutura e tem mais autonomia para fazer as mudanças necessárias”, afirma.O CEO também destaca a capacidade dos profissionais brasileiros na área de engenharia e desenvolvimento de software. Para ele, essa competência permite construir soluções próprias para atender às exigências de um mercado financeiro cada vez mais dependente de tecnologia.A estratégia de desenvolvimento interno ocorre em paralelo à ampliação das atividades da companhia, que busca consolidar sua presença em diferentes segmentos do mercado de capitais.Regulação é um dos desafios para a criação de novos mercadosA construção de uma nova infraestrutura financeira envolve desafios tecnológicos e comerciais, mas também exige a adaptação de regras e procedimentos regulatórios. Segundo Queiroz, a interoperabilidade entre depositárias ainda é um conceito relativamente novo para parte dos participantes e das próprias instituições responsáveis pela supervisão do mercado.O executivo cita a evolução da regulamentação da CVM e as definições relacionadas às depositárias introduzidas pelo Banco Central como exemplos de um processo em desenvolvimento.Na avaliação dele, a dificuldade não está necessariamente em uma resistência à concorrência, mas na necessidade de analisar estruturas inéditas, definir procedimentos e disseminar conceitos técnicos entre diferentes áreas dos órgãos reguladores.“É um desafio porque é novo. Os reguladores estão lidando com pedidos e modelos que não faziam parte da rotina deles. Existe um trabalho contínuo de explicar esses conceitos e construir um entendimento comum”, afirma.Queiroz também pondera que as equipes dos órgãos reguladores precisam lidar com um grande volume de demandas e limitações de pessoal. Por isso, a avaliação de novos modelos exige tempo e interação entre as instituições.Liquidez e expansão do mercadoA liquidez é uma das questões frequentemente levantadas quando se discute a entrada de novas infraestruturas de mercado. Em geral, a concentração de compradores e vendedores em um único ambiente pode facilitar a execução de ordens, enquanto a divisão dos negócios entre diferentes plataformas pode criar dificuldades para a formação de preços.Queiroz afirma, porém, que essa discussão precisa considerar o estágio de desenvolvimento de cada companhia. A CSD BR ainda não dispõe de um ambiente próprio de negociação, e a implementação da interoperabilidade faz parte das condições que podem ajudar a viabilizar o desenvolvimento desse mercado.Segundo o executivo, questões comerciais relacionadas à concorrência também vêm sendo discutidas no âmbito das autoridades responsáveis pela defesa da concorrência. Ele avalia que o objetivo deve ser criar condições para ampliar a atividade, em vez de apenas transferir operações de uma infraestrutura para outra.“Queremos criar mais mercado para todo mundo. O interessante é que o mercado cresça, e não simplesmente que uma empresa tire negócios da outra”, afirma.A interoperabilidade pode contribuir para esse processo ao permitir que participantes conectados a uma infraestrutura acessem produtos disponíveis em outra. Na avaliação da CSD BR, essa integração reduz barreiras operacionais e amplia as alternativas disponíveis aos investidores.Alternativas podem pressionar custos e estimular inovaçãoPara Queiroz, o principal benefício da entrada de novos participantes no mercado de capitais está na possibilidade de oferecer alternativas aos investidores e às instituições financeiras. A concorrência, segundo ele, pode estimular melhorias nos serviços, incentivar o desenvolvimento tecnológico e tornar os preços mais competitivos.A estratégia da CSD BR é ampliar as opções disponíveis sem restringir o acesso dos participantes aos produtos registrados em outras infraestruturas. Com a interoperabilidade, a escolha de um ambiente de negociação não precisaria limitar o acesso aos ativos disponíveis no restante do mercado conectado.“Quando você tem alternativas, melhora o produto oferecido. O investidor poderá escolher o ambiente que mais o agrada e, ao mesmo tempo, acessar outros valores mobiliários e ativos financeiros, independentemente de onde esteja conectado”, afirma.Na avaliação do executivo, a combinação entre concorrência e integração tecnológica pode beneficiar diferentes elos do mercado, das corretoras aos investidores individuais. A expectativa é que a disputa entre infraestruturas estimule produtos melhores e custos mais competitivos, contribuindo para ampliar a participação no mercado de capitais brasileiro.“A corrida tecnológica e a criação de novos mercados devem beneficiar o investidor, que passa a ter acesso a produtos melhores e a preços mais justos. No fim, é o investidor quem ganha quando existe mais concorrência”, conclui.