O Ibovespa caiu 18,12% na semana encerrada nesta sexta-feira (30) e passou a figurar entre as quatro maiores quedas semanais da Bolsa brasileira neste século.O tamanho da perda colocou o pós-eleição de 2026 no mesmo ranking de três períodos marcados por fortes choques nos mercados: a crise financeira global de 2008, a pandemia de Covid-19, em 2020, e os ataques de 11 de Setembro, em 2001.EpisódioQueda semanal do IbovespaCrise financeira — 10/10/2008-20,01%Pandemia — 20/03/2020-18,88%11 de Setembro — 14/09/2001-18,12%Pós-eleição — 30/10/2026-18,12%Os economistas ouvidos pelo InfoMoney apontam, porém, origens distintas para esses movimentos.Em 2001 e 2008, a pressão sobre os ativos brasileiros veio principalmente de crises iniciadas nos Estados Unidos e de uma onda global de aversão ao risco. Em 2020, a Covid-19 abriu um período em que empresas, governos e investidores ainda não conseguiam dimensionar a duração e os efeitos econômicos da pandemia.Em 2026, Rafael Cagnin, diretor-executivo do IEDI, considera que a queda deve ser analisada também a partir da forte valorização que a antecedeu.Depois do primeiro turno, investidores passaram a atribuir maior probabilidade à vitória de Flávio Bolsonaro e montaram posições com base na expectativa de uma política econômica mais voltada à consolidação fiscal. O Ibovespa chegou a superar os 209 mil pontos em outubro. Após a vitória de Lula, essas posições começaram a ser desmontadas rapidamente.Leia tambémBolsa a 159 mil pontos? Trader projeta até onde pode cair o IbovespaApós perder 18,13% na semana e fechar abaixo dos 168 mil pontos, índice mira faixa entre 164,8 mil e 159 mil, segundo analista da ClearIbovespa cai 18,12% na semana, maior baixa desde 2020 e 5ª maior desde o Plano RealCenário no Brasil segue bastante incerto, devido às preocupações fiscais no ano que vem2008: crise do subprime leva Ibovespa à pior semana do séculoA maior queda semanal do Ibovespa neste século ocorreu em 10 de outubro de 2008, quando o índice acumulou perda de 20,01%.Os cinco pregões daquela semana terminaram em baixa. O mercado de crédito internacional estava sob forte pressão e a crise iniciada no setor imobiliário americano já havia contaminado o sistema financeiro global.A falência do Lehman Brothers, em 15 de setembro, havia aumentado a desconfiança entre instituições financeiras e acelerado a busca por liquidez.O Brasil chegava à crise em situação diferente daquela observada no começo dos anos 2000.Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, lembra que a economia global vinha de anos de expansão, com forte crescimento da China e de outros mercados emergentes. O Brasil também havia melhorado seus indicadores e conquistara, naquele mesmo ano, o grau de investimento.Agostini relaciona a origem da crise ao período anterior de juros baixos nos Estados Unidos, expansão do crédito e concessões a tomadores com maior risco, processo que alimentou a bolha imobiliária.Quando essa estrutura entrou em crise, os efeitos chegaram rapidamente aos mercados emergentes.Cagnin classifica aquele movimento como um caso de contágio da aversão internacional ao risco: o problema tinha origem nos Estados Unidos, mas a redução da exposição a ativos de risco atingiu mercados ao redor do mundo.O Brasil entraria em recessão em 2009 e voltaria a registrar forte crescimento no ano seguinte.2020: Covid leva mercado à “absoluta incerteza”Na semana encerrada em 20 de março de 2020, o Ibovespa perdeu 18,88%.O avanço da Covid-19 e as medidas de restrição adotadas por diversos países colocaram os mercados diante de um problema diferente daquele visto em uma crise financeira convencional.“Foi um episódio de mais absoluta incerteza”, afirma Cagnin.Segundo ele, naquele momento não era possível saber por quanto tempo as economias ficariam parcialmente paralisadas, quanto os governos precisariam gastar nem qual seria o impacto da pandemia sobre faturamento, lucros e emprego.A velocidade das quedas dá uma dimensão daquele período. Até 18 de março, a B3 já havia acionado o circuit breaker seis vezes em apenas oito pregões.Agostini lembra que o choque encontrou uma economia brasileira que ainda tentava recuperar o terreno perdido na recessão de 2015 e 2016.A atividade havia voltado a crescer, mas a recuperação ainda estava em curso quando a pandemia atingiu o país.2001: 11 de Setembro encontra Brasil em fase de ajusteOs ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 atingiram os mercados em outra fase da economia brasileira.No próprio dia dos atentados, o Ibovespa chegou a cair 9,17% em pouco mais de uma hora, antes da interrupção antecipada das negociações. Naquela ocasião, não houve acionamento formal do circuit breaker.Ao final da semana, a perda acumulada chegou a 18,12%.Agostini lembra que o Brasil ainda lidava com os efeitos da mudança do regime cambial ocorrida em 1999. A desvalorização do real pressionava a inflação, os juros estavam em níveis elevados e as reservas internacionais eram menores do que nos anos seguintes.O país também atravessava a crise energética, com racionamento de eletricidade, e ainda não tinha grau de investimento.Cagnin vê naquele episódio, assim como em 2008, uma crise cuja origem estava fora do Brasil e que chegou ao país por meio do aumento global da aversão ao risco.No ano seguinte, o cenário eleitoral também passou a influenciar os ativos brasileiros. A possibilidade da primeira eleição de Lula trouxe novas incertezas ao mercado e foi acompanhada por forte desvalorização do real.Agostini lembra que a percepção começou a mudar depois, com as sinalizações econômicas dadas na transição para o novo governo.Leia tambémMorgan vê só 2 setores da Bolsa superando custo de capital e aposta em exportadorasBanco vê custo de capital em 20% no Brasil após a eleição e diz que apenas os setores financeiro e de energia conseguem superar essa barreira; exportadoras seguem como as principais apostasBBI: histórico traz cautela após tombo da Bolsa; recuperação pode levar meses ou anosApós o maior sell-off da história recente do mercado brasileiro, estrategistas do Bradesco BBI afirmam que valuations ficaram atrativos, mas alertam que juros altos, incerteza fiscal e cortes de lucro ainda podem pressionar as ações2026: da aposta eleitoral à queda de 18,12%Desta vez, o movimento teve uma origem diferente, na avaliação dos entrevistados.Após o primeiro turno, o Ibovespa registrou forte valorização e chegou a renovar recordes acima dos 209 mil pontos. A alta refletia, entre outros fatores, o posicionamento de investidores para uma possível vitória da oposição no segundo turno.O resultado de domingo, com a reeleição de Lula, contrariou essa expectativa.Na segunda-feira (26), o Ibovespa caiu 13,88%, e a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia. Nos pregões seguintes, o índice continuou pressionado, em uma semana que marcou a reversão do rali eleitoral e uma das maiores quedas da história recente da Bolsa.Para Cagnin, a alta anterior ajuda a explicar a magnitude do movimento.“Em relação aos demais episódios, não teve nenhum repique tão forte e de tão curto prazo nos outros três episódios”, afirma.Correção de expectativas ou mudança de patamar?Essa é também uma das principais diferenças que Cagnin identifica entre 2026 e as crises anteriores.“Foi mais uma reversão de patamar nas três crises anteriores. Agora, nessa questão do Lula 4, me parece não ser uma reversão, mas uma correção de expectativas”, diz.Cagnin avalia que houve primeiro uma expectativa excessivamente favorável ao cenário que o mercado projetava antes do segundo turno e, depois do resultado, uma correção rápida dessas posições.O economista observa ainda que, após a queda, o Ibovespa voltou a níveis próximos dos registrados meses antes do avanço mais forte do chamado trade eleitoral.A partir daqui, segundo ele, entram outras incertezas: qual será a política econômica do novo mandato, se haverá medidas de consolidação fiscal, em que velocidade elas poderiam ocorrer e como ficará a trajetória da dívida pública.As preocupações fiscais também estiveram entre os fatores que mantiveram o Ibovespa pressionado ao longo da semana.Overshooting e o peso do fiscalÉ nesse ponto que Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e atualmente no Policy Center for the New South, identifica uma característica presente nos quatro episódios: o overshooting.O termo descreve situações em que os preços dos ativos fazem um movimento muito intenso após uma mudança nas expectativas e nos parâmetros usados pelos investidores.No episódio atual, Canuto relaciona o movimento ao aumento do prêmio de risco e à menor probabilidade, na avaliação dos investidores, de implementação de um programa de correção fiscal.Ele cita como paralelo a transição de 2002 para 2003 e afirma que uma sinalização considerada crível sobre a trajetória fiscal poderia alterar novamente essa percepção.Alex Agostini, economista-chefe na Austin Rating, também coloca as contas públicas entre os principais pontos a serem acompanhados no próximo mandato. Ele cita o nível dos juros, o custo da dívida e as dificuldades de articulação com o Congresso para a aprovação de medidas econômicas.“A Bolsa trata de expectativas futuras”, afirma.Na avaliação do economista, é o cenário para 2027 em diante que agora começa a entrar nos preços dos ativos.O que pode definir o próximo movimento da Bolsa?Jason Vieira, economista-chefe da Lev, acrescenta que o momento também ocorre em meio a incertezas no exterior, com rotação de carteiras entre setores e questionamentos sobre os investimentos em inteligência artificial.Para ele, porém, antecipar o comportamento da Bolsa neste momento é especialmente difícil.“Tudo vai depender dos anúncios”, afirma Vieira, em referência às sinalizações do governo sobre a condução fiscal.Depois de uma semana de queda de 18,12%, serão essas sinalizações, segundo os economista, que ajudarão a mostrar se o movimento recente foi principalmente uma correção rápida das posições montadas antes da eleição ou se os investidores passarão a trabalhar com um novo patamar de risco para os ativos brasileiros.The post Covid, subprime e 11 de Setembro: pós-eleição de Lula se junta a quedas históricas appeared first on InfoMoney.