Objetos que contam vidas: colecionadores de Mirandópolis transformam lembranças em patrimônio afetivo

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Foto: Montagem/Gabriel LeiteUma cédula antiga pode trazer de volta a lembrança de um pai trabalhando na roça. Um álbum de figurinhas pode recordar viagens em família e a alegria dos filhos. Para Cesar Basso e Joelma Leme de Oliveira Vieira, moradores de Mirandópolis, colecionar vai muito além de guardar objetos: é uma forma de preservar momentos, afetos e histórias que continuam vivos na memória.Aos 54 anos, Cesar reúne cédulas, moedas, mídias físicas e objetos antigos que acumulou ao longo de décadas. Joelma, de 46 anos, guarda cartões telefônicos, bonecos, carrinhos, álbuns de figurinhas e máquinas antigas. Apesar das diferenças entre as coleções, os dois compartilham a curiosidade pelo passado e o cuidado com peças que carregam significados particulares.LEMBRANÇA DO PAIA coleção de Cesar começou aos 12 anos, com cédulas antigas. A primeira motivação veio de uma cena que presenciou ainda criança: seu pai, Antonio Basso, trabalhava no cultivo de cebolas e, no início dos anos 1980, recebeu o pagamento de um caminhão da produção em dinheiro. A imagem do pai com aquele bolo de notas ficou gravada em sua memória.Anos depois, ao perceber as mudanças no valor do dinheiro, Cesar voltou a se interessar pelas cédulas que conhecera na infância. Começou a reuni-las e, com o tempo, incorporou moedas, algumas de outros países, que ganhou de presente ou conseguiu com pessoas que sabiam de seu interesse. Hoje, guarda mais de 50 cédulas e moedas antigas, muitas delas há mais de 30 anos.Cesar Basso começou a colecionar cédulas antigas ainda na infância e hoje preserva peças que o conectam às lembranças do pai. Foto: Gabriel LeiteEntre os objetos, o relógio de bolso que pertenceu ao pai tem um lugar especial. As cédulas também despertam lembranças da época no sítio e do trabalho de Antonio, que já morreu. Para Cesar, preservar essas peças é uma maneira de revisitar a própria história e deixar essas memórias para os filhos e netos.A relação com a coleção já rendeu até um susto. No início do casamento com Geni, há 35 anos, os dois moravam em um sítio sem coleta de lixo e queimavam os resíduos em um buraco no quintal. Certo dia, Cesar procurou as cédulas e descobriu que a esposa havia jogado fora o material que considerava velho. Por sorte, as notas estavam protegidas em sacos, não tinham sido queimadas e puderam ser recuperadas. Hoje, Geni olha para os objetos de outra forma e reconhece o valor afetivo que têm para o marido.CARTÕES E MEMÓRIASA coleção de Joelma Leme de Oliveira Vieira começou aos 10 anos, com cartões telefônicos de orelhões. Curiosa sobre a história das coisas, ela manteve o hábito e hoje reúne 504 cartões diferentes, obtidos por compras, presentes e doações.Com o tempo, vieram outras coleções, como bonecos dos Minions, carrinhos Hot Wheels, máquinas antigas e álbuns das Copas do Mundo de 2014, 2018 e 2022. O álbum de 2014 tem um significado especial: quando morava em Minas Gerais, Joelma viajava com os filhos a cidades vizinhas para trocar figurinhas. Mais do que completar as páginas, ela guarda a lembrança dos momentos em família.Outra coleção surgiu durante as pedaladas com o marido, Joel. Em seis anos, os dois percorreram mais de 22 mil quilômetros de bicicleta e encontraram notas e moedas pelo caminho, inclusive de outros países. O dinheiro foi guardado e lacrado para preservar a memória dessa experiência.Cartões telefônicos, carrinhos e álbuns fazem parte da coleção de Joelma, movida pela curiosidade e pelo interesse pela história das coisas.Foto: Gabriel LeiteVALOR AFETIVOCesar também guarda CDs e DVDs, principalmente de música sertaneja. Entre as peças de que mais gosta está um DVD do cantor Cristiano Araújo, que considera um achado. Mesmo depois de doar parte da coleção e ver outros objetos ficarem com os filhos, ele continua encontrando motivos para guardar novas peças.Para Joelma, o segredo é colecionar algo que desperte paixão. No fim, cada pessoa tem seus próprios motivos para guardar um objeto: pode ser a lembrança de alguém querido, um momento em família ou uma história vivida. São peças que talvez não tenham grande valor financeiro, mas que carregam memórias únicas e um significado que só quem as guarda consegue explicar.O post Objetos que contam vidas: colecionadores de Mirandópolis transformam lembranças em patrimônio afetivo apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.