Portugal apresenta uma combinação difícil para o futuro do jornalismo: uma forte ligação à informação televisiva, uma confiança nas notícias superior à média dos mercados analisados e uma reduzida adesão ao pagamento por conteúdos digitais.Ao mesmo tempo, 37% dos inquiridos dizem evitar notícias por vezes ou frequentemente, segundo a mais recente edição do Digital News Report 2026, do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford.O relatório, baseado em 97.520 respostas em 48 mercados, inclui uma amostra de 2.024 pessoas em Portugal. Os resultados mostram que o desafio dos meios de comunicação vai além de chegar às audiências: enfrentam o nível mais baixo de sempre de confiança nas notícias, uma preferência clara por conteúdos de vídeo e de redes sociais bem como de criadores de conteúdo jornalístico.Leia também: Portugueses vivem cada vez mais online: jovens já passam mais de três horas por dia nas redes sociais Redes sociais ultrapassam os sites de notícias e a confiança atinge um mínimoAs mudanças identificadas em Portugal fazem parte de uma transformação mais ampla. No conjunto dos 48 mercados analisados, as redes sociais e as plataformas de vídeo ultrapassam, pela primeira vez, os sites e as aplicações dos órgãos de comunicação como forma de acesso a notícias: 54% contra 51%. A informação chega cada vez mais através de intermediários, tornando mais difícil construir uma relação direta entre os meios e os seus públicos.54% acedem a notícias pelas redes sociais e plataformas de vídeo, superando pela primeira vez os sites e aplicações dos meios de comunicação (51%).Ao mesmo tempo, a confiança nas notícias desce para 37%, o nível mais baixo registado pelo estudo desde que começou a medir este indicador, em 2015. O relatório identifica recuos em 29 dos 48 mercados. A preocupação com informação falsa na internet sobe para 62%, mostrando que a utilização das plataformas convive com dúvidas sobre a credibilidade dos conteúdos. Vídeos e criadores de conteúdo conquistam audiênciaO interesse pela atualidade também enfraquece. Desde 2021, a proporção de pessoas que se dizem muito ou extremamente interessadas em notícias caiu, em média, 13 pontos percentuais. Os consumidores ocasionais ou passivos representam agora 25% dos inquiridos, face a 16% em 2021.O vídeo e os criadores de conteúdos ganham espaço. No conjunto dos mercados, 77% consomem vídeos noticiosos online semanalmente e 27% acedem a notícias através de criadores ou influenciadores especializados em informação. Estes são valorizados pela capacidade de entreter, explicar e criar proximidade, embora sejam avaliados de forma menos favorável em atributos como confiança e imparcialidade. Para a maioria dos seus públicos, complementam os meios tradicionais. A inteligência artificial acrescenta outra mudança:10% dos inquiridos utilizam chatbots para aceder a notícias, face a 7% no ano anterior. Entre os menores de 35 anos, a utilização chega aos 16%.Apesar destas transformações, alguns valores jornalísticos mantêm relevância. 45% preferem notícias que não tomem partido, uma proporção superior à dos que procuram informação alinhada com o seu próprio ponto de vista. Para os autores, a resposta passa por ajudar os públicos a compreender os acontecimentos e a sua importância no quotidiano, reforçando a utilidade, a diferenciação e a relação com quem consome informação. Só 8% pagam por notícias onlinePortugal e Itália apresentam a percentagem mais baixa de pagamento por notícias online entre os 20 países comparados neste indicador: 8%. A média deste conjunto é de 17%, enquanto a Noruega chega aos 40% e a Suécia aos 32%.O indicador considera quem pagou por conteúdos noticiosos online ou acedeu a um serviço noticioso digital pago no último ano. Inclui assinaturas digitais, subscrições que combinam papel e digital e pagamentos pontuais por artigos, aplicações ou edições eletrónicas.A reduzida adesão ganha particular importância num setor em transformação. No capítulo português, os investigadores assinalam que a perda de audiências e de receitas publicitárias na rádio e na imprensa não está a ser compensada por um crescimento do pagamento por notícias digitais.No consumo de imprensa, a mudança é expressiva: 16% dos inquiridos referem ter utilizado publicações impressas para aceder a notícias na semana anterior, face a 47% em 2015. Mais de um terço evita notíciasOs 37% que evitam notícias não representam pessoas que tenham necessariamente abandonado a informação. A pergunta mede quem procura evitá-la por vezes ou frequentemente, podendo esse comportamento coexistir com o acompanhamento regular da atualidade.Esta distinção ajuda a compreender um público que continua a consumir notícias, mas que também escolhe afastar-se delas em determinados momentos.Na análise internacional, os autores descrevem uma relação marcada pela instabilidade política, económica e tecnológica, pela sobrecarga informativa e pela procura de novos formatos. O desafio que colocam ao jornalismo é ajudar as pessoas a interpretar os acontecimentos e a perceber a sua relevância para a vida quotidiana. A confiança caiu de 66% para 51%Em Portugal, 51% dos inquiridos afirmam confiar na maioria das notícias na maior parte do tempo. Em 2015, eram 66%: uma diferença de 15 pontos percentuais. Apesar da descida, Portugal mantém um resultado superior à média dos 48 mercados, de 37%. Segundo o relatório, apresenta também o nível mais elevado de confiança na Europa fora dos países nórdicos.A confiança geral nas notícias e a confiança em marcas concretas não evoluem necessariamente da mesma forma. Os autores do capítulo português observam que a confiança na maioria das marcas avaliadas aumentou, apesar do recuo no indicador geral.É uma diferença relevante num ambiente em que a circulação de conteúdos e o eco da desinformação tornam mais difícil distinguir fontes, autoria e credibilidade. Portugal lidera no acesso a notícias pela televisãoSete em cada dez inquiridos em Portugal (71%) acederam a notícias pela televisão na semana anterior ao inquérito. É a percentagem mais elevada dos 48 mercados estudados.O resultado evidencia a persistência dos meios tradicionais num contexto de transformação digital. A relação entre consumo de plataformas digitais e confiança nos meios tradicionais continua, assim, a ser central para compreender o mercado português.A televisão coexiste com outras formas de acesso: 71% dos inquiridos recorrem a fontes online, numa categoria que inclui sites, aplicações, redes sociais, vídeo, podcasts noticiosos e chatbots de inteligência artificial. As percentagens não são exclusivas, já que uma pessoa pode utilizar vários meios. Facebook e WhatsApp à frente; IA chega a 7%Entre as plataformas sociais, de mensagens e de vídeo, o Facebook é utilizado por 42% dos inquiridos para aceder a notícias, seguido do WhatsApp, com 30%, do Instagram, com 25%, e do YouTube, com 23%. O TikTok regista 11%.Estes dados retratam um consumo de informação integrado num quotidiano cada vez mais online, em que o contacto com uma notícia pode acontecer fora do site ou da aplicação de quem a produziu.Os chatbots de inteligência artificial são utilizados semanalmente para notícias por 7% dos inquiridos em Portugal, face a 10% no conjunto dos mercados. Embora ainda minoritária, esta utilização acrescenta um intermediário à relação entre jornalismo, algoritmos e audiências.Chegar ao público já não é suficientePortugal surge também entre os mercados com maior preocupação sobre o que é verdadeiro ou falso na internet. A utilização das plataformas convive, portanto, com dúvidas sobre a informação que nelas circula, reforçando a importância da literacia digital e mediática.Para os responsáveis pelos meios de comunicação, o relatório aponta um desafio que não se resolve apenas com mais alcance. Na análise internacional, os autores destacam diferentes caminhos para sustentar receitas: conteúdos distintivos, relações mais próximas com as audiências e uma missão editorial reconhecível.Os números portugueses tornam essa discussão concreta. Há público para as notícias, mas uma parte evita-as, a confiança enfraqueceu ao longo da última década e poucos pagam pelo acesso digital. A questão passa por descobrir como transformar atenção em confiança e confiança numa relação duradoura com o jornalismo.O conteúdo Notícias em Portugal: 37% evitam-nas e só 8% pagam pelo digital aparece primeiro em Revista Líder.