Gabriel Guimarães, o MathPunk: porque é que tantos alunos têm medo da matemática?

Wait 5 sec.

Em Portugal, cerca de três em cada dez jovens de 15 anos não conseguem ultrapassar o nível básico de proficiência a matemática. Os resultados do PISA 2022, divulgados pela OCDE, revelaram também uma descida de 21 pontos face a 2018, num retrato que volta a colocar o ensino da matemática no centro da discussão. Para Gabriel Guimarães, conhecido como MathPunk, parte do problema pode começar muito antes de uma prova ou de uma nota negativa: em casa, quando uma criança ouve os pais dizer que têm medo da matemática. «Vai acabar por absorver essa ideia», alerta.Criador da MathGurl e autor do livro A Matemática Não Morde, Gabriel questiona a forma como aprendemos matemática, o papel da tecnologia na sala de aula e a ideia de que errar é sinónimo de fracasso. Pelo caminho, fala também de identidade, representação e da liberdade de não ter de se explicar aos outros.Estudou Matemática na Universidade do Porto, conquistou uma medalha de prata nas Olimpíadas Portuguesas da Matemática e recebeu, no ano letivo de 2017/2018, a bolsa de iniciação científica «Novos Talentos em Matemática», da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi diretor executivo da ENSICO, Associação para o Ensino da Computação, durante dois anos. Em abril de 2026, conduziu, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, uma sessão sobre comunicação de ciência na era da desinformação. No teu livro A Matemática Não Morde, procuras combater o medo dos números. De onde vem esse medo?No caso da matemática, há vários fatores que influenciam e perpetuam esse medo. Um deles é uma espécie de trauma geracional: o medo da matemática vai sendo propagado de geração em geração, por vezes inconscientemente.Um filho que ouve os pais, em casa, a dizer que têm medo da matemática vai acabar por absorver essa ideia. É algo muito perpetuável.Depois, é uma área muito abstrata. Não conseguimos propriamente ver os números nem os conceitos. Embora o ser humano seja muito bom a lidar com abstrações, isso acaba por ser um obstáculo. Se estudares Biologia, consegues ver os animais, os órgãos, as células; sabes que existem materialmente e estabeleces uma ligação maior. Com conceitos abstratos, o pensamento é diferente, mais dedutivo, e há pessoas que não conseguem perceber o propósito da matemática porque não conseguem visualizar as entidades com que trabalham.Além disso, a matemática é muito cumulativa: se perdes o fio à meada, torna-se difícil acompanhar, porque os conceitos novos dependem dos anteriores. É como uma torre com os andares construídos uns por cima dos outros. É um obstáculo com que muita gente se depara, quando diz: «Apanhei um professor péssimo no sétimo ano».Na escola, o erro é muitas vezes visto como um sinal de incapacidade. Como podemos mudar a forma como os jovens encaram o erro?Isso é muito importante, porque há pessoas que associam o facto de terem cometido um erro à falta de capacidades: «Cometi este erro, por isso sou burro; vou desistir de mim, porque não há volta a dar.» Isso, de facto, é que é um erro. O verdadeiro erro é pensar que errar é o problema.Para tentar convencer as pessoas disso, gosto de dar exemplos concretos de coisas que temos hoje, de que gostamos e que nasceram de erros. Os post-its, por exemplo, têm aquela cola fraca que conseguimos descolar. Os seus criadores queriam desenvolver uma cola forte, mas acabaram por obter uma muito fraca, que deu origem aos post-its. Ou as bolachas com pepitas de chocolate: em certa altura, faltou o chocolate próprio para fazer bolachas, alguém teve de usar chocolate normal, que não se dissolveu na massa, e assim surgiram as bolachas com pepitas.Temos inúmeros exemplos, ao longo da história, de descobertas que só foram possíveis por causa de erros. Se não tivessem cometido os erros, nós não as teríamos.Por isso, incentivo muito as pessoas a olharem para o erro como uma oportunidade de aprendizagem e como algo essencial para atingirmos o nosso verdadeiro potencial. Se nunca errarmos nem sentirmos dificuldades, também não estaremos a explorar esse potencial.Portugal melhorou vários indicadores educativos nas últimas décadas. Onde está o problema?O problema é multifatorial. Se olharmos para os resultados mais recentes do PISA, o declínio na capacidade de leitura e interpretação é ainda superior ao da matemática. Acho que há um pouco de tudo: desigualdades sociais, imperfeições do ensino e a preparação dos próprios professores. Mas há outro fator que poderá ter influência, sobretudo nas gerações mais novas: a tecnologia. Sou muito crítico do uso de certas tecnologias na sala de aula, porque acho que muitas podem ser contraproducentes para a aprendizagem. A menor capacidade de interpretar textos também tem a ver com os alunos não lerem e passarem muito tempo nas redes sociais, onde os conteúdos são rápidos, o que contribui para um espírito mais imediatista.Precisamos de lentidão para aprender melhor, para cultivar a nossa imaginação. Precisamos do tédio, por exemplo. Todas essas coisas são muito importantes.Escrever à mão também é muito mais benéfico do que escrever no computador, porque ativa mais áreas do cérebro. São vários fatores, sem dúvida, mas não nos podemos esquecer da tecnologia, do digital e das redes sociais. Tenho quase a certeza de que estão a ter um impacto significativo na aprendizagem das crianças.Como se aplica o punk à matemática?O punk, para mim, é muito marcado pela inconformidade e pela irreverência. É olhares para alguma coisa e pensares: «Acho que isto não está certo e vou ter a coragem de propor algo melhor», ou mostrar o teu descontentamento através de uma expressão autêntica, lutando contra aquilo que é considerado norma porque achas que essa norma está errada.Escolhi o nome MathPunk porque tento trazer um bocadinho dessa irreverência e desse inconformismo para a matemática. Costuma ser encarada como uma área muito séria e rigorosa, associada à ordem e à precisão, que só existe dentro das quatro paredes da escola, muito fria.Tento mostrar o contrário: que podemos falar de matemática em qualquer contexto, de forma descontraída, e que é uma área profundamente humana, feita de pessoas para pessoas.Quando passaste de MathGurl a MathPunk, sentiste que estavas finalmente a assumir a tua identidade sem teres de a justificar ao mundo?A identidade é uma coisa que uma pessoa não consegue realmente justificar. Como é que alguém se justifica, propriamente, se sente que é um homem ou uma mulher? É algo muito interno: uma pessoa sente que é, e não há realmente muita volta a dar nem muitas formas de justificar. O que fiz foi simplesmente anunciar e dar a conhecer a minha nova identidade e a forma como queria que as pessoas me tratassem. Mas, de facto, foi quase como se fosse um novo axioma a partir daquele momento, porque é algo que não precisa de demonstração.Ninguém tem de explicar às outras pessoas porque é que é uma coisa ou outra.A tua transição mudou a forma como te compreendias ou sentes que sempre tiveste essa noção, desde a pré-adolescência?Acho que era algo que já estava enterrado cá dentro. Esta questão das identidades de género, mesmo a nível científico e da psicologia, não é compreendida a 100%. Não se sabe exatamente o que acontece para este fenómeno existir.À partida, a identidade de género é algo que começamos a formar desde cedo. Podemos descobri-la mais tarde, mas, no caso da maioria das pessoas, olhando para trás, mesmo sem termos na altura a visão e o conhecimento necessários, percebemos que já havia sinais. No meu caso, é algo que trago comigo desde criança, embora tenha demorado muito tempo a perceber.Tal como respondeste sobre a matemática, a transfobia também se alimenta de preconceitos que passam de pessoa para pessoa?Acho que parte de um certo conservadorismo. As pessoas trans e outras minorias são muito usadas, por vezes, como bodes expiatórios ou para lançar o pânico moral na população. É como se fôssemos distrações para desviar a atenção dos problemas que realmente importam para coisas que não são realmente problemas.Como somos uma minoria e a maior parte das pessoas não tem amigos ou familiares trans, acaba por não se desenvolver essa empatia, porque não existe a necessidade de a desenvolver. É como se não existíssemos materialmente, como se fôssemos conceitos abstratos.Se não lidas com pessoas trans ou com outras minorias e tudo o que sabes sobre essas comunidades são coisas que ouves, muitas vezes de pessoas de má-fé que estão apenas a espalhar mentiras, é natural que desenvolvas preconceitos. Está tudo feito, estás completamente encaminhado numa sopa cheia de preconceitos.Como lidas com o facto de algumas pessoas tentarem generalizar a tua história a toda a comunidade trans?Espero que não o façam. Como a minha história acaba por ser um bocadinho atípica, talvez não haja essa tendência para a generalização. As pessoas têm muito a ideia de que as pessoas trans se descobrem logo em crianças e começam desde cedo a manifestá-lo. No caso dos homens trans, existe também a ideia de que são logo pessoas muito masculinas.Sou, no fundo, um contraexemplo a esses estereótipos. Talvez houvesse mais tendência para generalizar se a minha história encaixasse naquilo que é considerado típico. Eu descobri-me mais tarde e fiz os processos mais tarde; tinha, por exemplo, uma apresentação bastante feminina. Há toda uma panóplia de experiências, cada pessoa tem a sua, e é importante respeitá-las, mesmo quando fogem àquilo que é considerado norma.A matemática procura padrões, mas as pessoas nem sempre são previsíveis. É mais fácil lidar com os números ou com as pessoas?Neste momento, trabalho sozinho na maior parte das coisas. No passado, trabalhei numa associação para o ensino da computação e tive a sorte de estar com pessoas espetaculares. Quando estamos todos a remar para um objetivo comum, motivados e com um sentimento de missão, não é preciso ser chefe de ninguém. As coisas acabam por se encaminhar e por ser bastante democráticas quando há visões alinhadas.Agora, o meu trabalho é mais solitário. A matemática, sendo uma área exata, acaba por ser mais fácil do que lidar com a imprevisibilidade das pessoas. Isso é certo.É muito mais fácil lidar com a matemática do que com pessoas. Com tanta exposição nas redes sociais, como distingues as críticas que ajudam a crescer daquelas que só tentam reduzir-te a uma imagem?Vou lidando com isso de formas diferentes ao longo do tempo. Agora, quando vejo críticas que sinto que não acrescentam nada, que são apenas ódio gratuito, apago a mensagem, como se nunca tivesse existido na minha página. Há momentos em que consigo fazer isso sem ficar magoado; noutros, as críticas magoam-me.Ocasionalmente, há críticas construtivas, mas, sendo muito sincero, ligo muito mais às críticas dos meus amigos e das pessoas próximas do que às de desconhecidos. Com tanta exposição, tantos comentários e tantas interações, não é humanamente possível agradar a toda a gente. Nem eu quero agradar a toda a gente.Para não ser extremamente desgastante e cuidar da minha saúde mental, tento ignorar ou apagar a maior parte das críticas e seguir em frente. São pessoas que não conheço e que, por isso, não têm propriamente propriedade para falar sobre mim ou sobre a minha vida, porque também não me conhecem.Num vídeo recente mostraste um novo passatempo. Quando fazes croché, a matemática está presente ou é uma forma de desligares o cérebro?Boa questão. No croché, para as coisas ficarem direitinhas, convém estar sempre a contar os pontos. Se quiseres fazer um retângulo, tens de garantir que dás o mesmo número de pontos em cada linha. Há pessoas que conseguem ver um filme e fazer croché ao mesmo tempo. Eu perco-me completamente, não consigo fazer multitasking.Por isso, às vezes, pode ser um bocadinho stressante: se não estiveres atento à contagem, tens de desfazer linhas porque te enganaste. Por um lado, é uma atividade relaxante, porque é monótona e tranquila. Por outro, se quiseres fazer uma peça em condições, sobretudo sendo um novato como eu, tens de prestar atenção. Portanto, sim, há alguns números à mistura. O conteúdo Gabriel Guimarães, o MathPunk: porque é que tantos alunos têm medo da matemática? aparece primeiro em Revista Líder.