Escravatura de Dados? O outro lado da IA segundo a Magnifica Humanitas

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Não foi a fé que levou Conceição Zagalo a escolher Magnifica humanitas, a primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, publicada em maio de 2026. Apesar de se assumir como uma mulher de fé, foi a dimensão universal do debate que despertou o seu interesse: o futuro da humanidade perante o avanço da inteligência artificial (IA).«Não foi a fé que me puxou para a Magnifica humanitas. Se calhar, foi mais o debate que afeta transversalmente toda a população mundial», afirmou. No centro dessa inquietação está uma escolha fundamental: «continuaremos a ser protagonistas das nossas decisões ou aceitaremos delegar esse poder nas máquinas?».O encontro realizou-se esta quinta-feira, 28 de outubro, na Tale House, em Alfragide, com Conceição Zagalo, Presidente do Conselho Consultivo e Associada Honorária da Grace e Presidente do Conselho de Administração e do Conselho Executivo da Fundação LIGA, como convidada. De Leão XIII a Leão XIV: um novo ciclo da humanidadeConceição Zagalo estabeleceu um paralelo entre a atual revolução tecnológica e as transformações sociais da Revolução Industrial. Em 1891, Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum, que viria a constituir um marco da doutrina social da Igreja, procurando responder às profundas desigualdades e mudanças nas relações de trabalho.Cento e trinta e cinco anos depois, Leão XIV recupera essa tradição para enfrentar um novo desafio: a IA e as suas consequências para a condição humana.«O Papa não é contra a IA. O Papa não é contra a evolução da tecnologia», sublinhou. A verdadeira questão, explicou, está no risco de sobrevalorizar a tecnologia em detrimento do ser humano. A encíclica propõe, assim, uma reflexão sobre o lugar da inovação numa sociedade que corre o risco de confundir progresso tecnológico com progresso humano.Uma das imagens centrais da reflexão é a oposição entre Babel e Jerusalém. Babel representa a ambição de um poder ilimitado, a uniformização e a competição. Jerusalém simboliza a possibilidade de construir uma sociedade através da colaboração, da diversidade e da fraternidade.«Babel é a ameaça de poder cego», afirmou Conceição Zagalo, contrapondo-lhe a importância de construir soluções coletivas para os desafios de uma tecnologia desenvolvida sem limites. A convidada destacou ainda que a Carta Magnifica humanitas não procura criar uma nova doutrina para a IA, mas integrar esta transformação nos princípios da doutrina social da Igreja.A questão ultrapassa a dimensão religiosa: trata-se de saber quem define os limites do progresso e quem assume a responsabilidade pelas suas consequências.Um dos pontos da sua intervenção foi a análise de como a imersão tecnológica tem afetado o “sentido de família”. A oradora apontou que o isolamento gerado pelo consumo tecnológico individualista tem fragilizado as hierarquias e as dinâmicas familiares tradicionais.Nós tornámo-nos um bocadinho mais egoístas e eu acho que a tecnologia nos proporciona isso… E convoca-nos para uma interação homem-máquina, homem-telemóvel, homem individualizado, algoritmo e não rosto.Quem controla os dados controla o poderOutro dos grandes desafios levantados pela obra é a concentração dos dados e dos algoritmos nas mãos de um número reduzido de empresas tecnológicas. A partir dos temas apresentados pela introdução de Antonio Spadaro, nomeadamente o destino universal dos dados, a regulação das plataformas e o desarmamento da IA, questionou-se  como assegurar uma distribuição mais justa dos benefícios da tecnologia.«O Papa leva-nos a refletir sobre o inconveniente da sobrevalorização da tecnologia e da IA sobre o humano.»A convidada lembrou que todos dependemos de comodidades tecnológicas no quotidiano — desde os eletrodomésticos mais simples ao smartphone que organiza as nossas vidas —, mas o cerne da questão reside no equilíbrio e não na desumanização dos processos.Refere-se também ao risco de o cidadão se tornar um «escravo em uma escravidão nova» devido ao controlo dos dados e algoritmos por grandes empresas.Que mecanismos jurídicos e políticos poderão impedir que o poder tecnológico fique concentrado em poucos agentes? E como garantir que os cidadãos continuam a ter autonomia sobre as suas escolhas? Para Conceição Zagalo, a resposta exige uma participação ativa da sociedade e a coragem de discutir um modelo de desenvolvimento que não deixe o ser humano numa posição secundária. Quando a inteligência artificial pensa por nósA utilização quotidiana da IA trouxe à conversa outro risco: a perda progressiva da capacidade de pensar autonomamente.Quando recorro à inteligência artificial para me fazer qualquer coisa que naquele dia não tenho tempo para fazer, ou não quero fazer, ou achei que não conseguia fazer e não me desafio a mim própria, fico com um sabor a vazio brutal.A reflexão foi acompanhada por uma memória de infância. Quando era criança, pediu ajuda ao pai para escrever uma redação que não conseguia concluir. O trabalho acabou por ser premiado com 20 valores, mas a satisfação deu lugar ao desconforto de receber reconhecimento por algo que não tinha produzido.A analogia com a IA é evidente: uma resposta perfeita não representa necessariamente aprendizagem, criatividade ou realização pessoal. O desafio não é rejeitar a ferramenta, mas utilizá-la sem abdicar da capacidade de raciocinar, questionar e criar.Na conclusão do encontro, Conceição Zagalo regressou à pergunta que atravessa a encíclica: «Estamos a construir Babel, uma sociedade mais poderosa, mas menos humana, ou Jerusalém, uma sociedade em que o progresso nos ajuda a reconstruir, juntos, a dignidade, a relação, a fraternidade?»A partir desta interrogação, apresentou uma sucessão de paradoxos que traduzem os dilemas da nossa relação com a tecnologia: algoritmo ou consciência, ecrã ou rosto, dados ou pessoa, rapidez ou profundidade, conexão ou relação, automatização ou liberdade, conhecimento ou sabedoria.São escolhas que obrigam a repensar o significado de progresso. Porque aquilo que a máquina consegue fazer mais depressa não é necessariamente aquilo que nos torna melhores.No final, Conceição Zagalo escolheu a esperança. A esperança de que as próximas gerações saibam aproveitar a inteligência artificial sem perder aquilo que as distingue: a liberdade de pensar, a capacidade de criar e, sobretudo, a responsabilidade de cuidar do outro. É também esse o grande desafio lançado por Magnifica humanitas: garantir que, num mundo cada vez mais inteligente, a humanidade não perde o seu lugar.O conteúdo Escravatura de Dados? O outro lado da IA segundo a Magnifica Humanitas aparece primeiro em Revista Líder.