Concessão de aval ainda neste ano não está descartadaO governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve aguardar a diminuição das tensões políticas provocadas pela fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos antes de conceder o aval ao novo embaixador americano no Brasil, Daniel Perez. A avaliação de auxiliares é que o episódio não inviabiliza a aprovação do diplomata, mas recomenda cautela diante das declarações do presidente Donald Trump sobre as eleições brasileiras e da recepção do candidato derrotado em território americano. A orientação no Planalto é evitar uma reação direta de Lula às manifestações de Flávio, Trump e do presidente argentino, Javier Milei. Integrantes do governo consideram que a controvérsia tende a perder força por conta própria. O entendimento é que a vitória eleitoral de Lula colocou o governo brasileiro em uma posição mais favorável para administrar eventuais pressões externas. O reconhecimento do resultado por lideranças internacionais e partidos brasileiros, bem como do Judiciário, reduziu o espaço para questionamentos ao pleito. Nesse contexto, a aprovação do novo embaixador americano, que depende do chamado agrément, não é vista como uma prioridade imediata. Embora integrantes do governo avaliem que Perez deverá receber a autorização para assumir o posto, a tendência é que a decisão seja tomada apenas depois de uma avaliação dos próximos movimentos da Casa Branca. Não está descartado que o aval seja concedido ainda neste ano, mas a expectativa é que isso não ocorra no curto prazo. O principal fator para a decisão será a postura adotada pelo governo americano. A presença de Flávio nos Estados Unidos, por si só, não é considerada um impedimento para a aprovação. A situação poderia mudar, porém, caso Trump passasse a questionar formalmente a legitimidade do governo brasileiro ou o próprio indicado à embaixada aderisse às acusações de fraude eleitoral. Interlocutores de Lula observam que, apesar de levantar suspeitas sobre as eleições, Trump não afirma que deixará de reconhecer o petista como presidente do Brasil. O americano também declarou gostar de Lula e afirmou que não governa o Brasil. A combinação dessas declarações é interpretada como um sinal de que Washington procura manter espaço para o diálogo. A estratégia brasileira também leva em conta as eleições legislativas americanas da próxima terça-feira. O governo pretende aguardar o resultado para avaliar como ficará a capacidade de articulação de Trump no Congresso e quais poderão ser os reflexos sobre a política externa dos Estados Unidos. Uma eventual ampliação da presença democrata nas duas Casas é vista por interlocutores como uma oportunidade de fortalecer canais de diálogo com setores do Legislativo americano. Até lá, a orientação é preservar a relação bilateral e evitar gestos que possam ser interpretados como sinal de fragilidade. A postura se aproxima da adotada durante o tarifaço do ano passado, quando o governo brasileiro manteve negociações com Washington apesar das ameaças comerciais e das articulações de Eduardo Bolsonaro junto à administração Trump. A diferença, na avaliação de integrantes do governo, é que Lula chega ao atual episódio fortalecido pela vitória eleitoral, enquanto Flávio enfrenta dificuldades para reunir apoio à contestação do resultado. Auxiliares consideram que o senador perdeu capital político ao deixar o Brasil e divulgar uma carta em que se apresentou inicialmente como o verdadeiro presidente eleito, expressão posteriormente retirada do documento. A decisão de não responder à carta já vinha sendo adotada pelo Planalto. Aliados do presidente avaliam que Flávio está se desgastando sozinho, inclusive entre integrantes da direita, e que uma manifestação de Lula ou de seus ministros poderia dar maior dimensão ao episódio. A reação política ficou concentrada nos partidos e parlamentares da base governista, que divulgaram manifestações em defesa do resultado das urnas. Relação com Argentina também é acompanhada A atuação do governo de Javier Milei na saída de Flávio do Brasil também entrou no radar. O senador atravessou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira e embarcou em um avião particular que seguiu para os Estados Unidos, com escala no Equador. Na carta divulgada após a chegada a Miami, Flávio agradeceu nominalmente a Milei e Trump pelo apoio recebido. Integrantes do governo brasileiro avaliam que o episódio aprofunda o desgaste nas relações com Buenos Aires, mas defendem cautela antes de uma reação diplomática. A avaliação é que Milei busca transformar as divergências com Lula em um confronto político e que uma resposta direta do petista poderia favorecer essa estratégia. O desgaste também dificulta a retomada da representação diplomática brasileira em Buenos Aires no nível de embaixador. Interlocutores do governo não veem condições políticas para esse movimento no momento, embora não haja prazo definido para uma eventual mudança.Com O GloboO post Governo Lula deve esperar temperatura política baixar após fuga de Flávio para dar aval a novo embaixador dos EUA apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.