“Vocês precisam me fazer o maior favor que já me fizeram: fingir que eu estou nas cédulas”. Esse foi o apelo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a eleitores na convenção do Partido Republicano para as Eleições de Meio de Mandato, no início de setembro.Na mesma noite, ele prometeu US$ 5 mil (equivalente a cerca de R$ 27 mil) a cada cidadão adulto americano caso o partido consiga manter a maioria na Câmara e no Senado. Leia Mais Reuters/Ipsos: Aprovação do governo Trump continua no menor nível Midterms 2026: A eleição que Trump domina, mas não controla Eleitores de Trump não estão animados com as eleições, diz pesquisa As declarações são efeito direto de um momento de baixa aprovação do presidente dos EUA. Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada no dia 26 de outubro mostra que 32% dos americanos aprovam Trump.Além disso, levantamentos sobre as Midterms, as Eleições de Meio de Mandato, mostram vantagem dos democratas na preferência do eleitorado para o Congresso.A inflação e o custo de vida — especialmente relacionado aos combustíveis — estão entre as principais preocupações dos americanos.O cenário se soma a outro dos principais problemas políticos de Trump: a guerra com o Irã, iniciada em fevereiro e ainda sem um acordo para encerrá-la.Quais são os principais desafios de Trump?Enfraquecimento do MAGAPara Hussein Kalout, cientista político e pesquisador da Universidade Harvard, um dos principais desafios do segundo mandato de Trump é a dificuldade de cumprir promessas feitas a sua base.Isto, segundo ele, tem custado apoio dentro do movimento MAGA (Make America Great Again), o mais fiel ao presidente.“Apoiadores fervorosos se desvinculam dele, pois entendem que a causa MAGA não é implementada como ele prometeu”, avalia.“[Essas pessoas] acreditam que ele fez uma guerra dos interesses de Israel [no caso do Irã] e que se move por interesses de corporações, e não do interesse americano coletivo”, adiciona.A insatisfação é ainda mais prejudicial em um momento em que os democratas aparecem à frente dos republicanos na preferência dos eleitores para o Capitólio.Segundo pesquisa da CNN de 21 de outubro, 49% dos entrevistados preferem o candidato democrata de seu distrito, contra apenas 39% que optam pelo republicano.Esse cenário eleitoral coloca os republicanos sob pressão, especialmente na Câmara, conforme alerta Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia Group no Brasil.Uma eventual perda de uma das Casas Legislativas reduziria a margem de Trump para avançar sua agenda doméstica e aumentaria o espaço dos democratas para fiscalizar e investigar o governo.“O cenário [ruim para o presidente] avançou com a guerra e os efeitos sobre os preços, que têm baixado a aprovação do Trump”, diz.“A maior implicação disso é que Trump já passou da fase em que ele tem mais capacidade, poder e influência. Ele não é um ‘pato manco’, mas já não está mais no auge deste mandato”, adiciona o especialista.Ao mesmo tempo, com mais experiência política e cercado por aliados fiéis às suas convicções, Trump conseguiu aprovar projetos importantes no Congresso no início da gestão. Isso deve reduzir sua dependência do Legislativo nos próximos anos, segundo Cascione.Política externa pode ser pedra no sapato e foco de TrumpOutro problema para Donald Trump é que interlocutores iranianos estariam considerando prolongar o conflito com os Estados Unidos, segundo análise de Thiago de Aragão, CEO da Arko Advice Internacional, ao WW.A estratégia, segundo Aragão, exploraria justamente um dos pontos mais sensíveis para Trump: a duração da guerra.O especialista afirma que o esforço de guerra dos Estados Unidos é limitado, pois, em algum momento, eventuais bombardeios poderiam atingir alvos civis — algo politicamente custoso para Washington.O conflito prolongado também poderia prejudicar a imagem de Trump diante de um eleitorado americano pouco favorável a uma guerra prolongada.Na Assembleia Geral da ONU, o presidente dos EUA afirmou estar “tranquilo” por não ser candidato nas Eleições de Meio de Mandato. Ao mesmo tempo, disse que poderia “aniquilar” Teerã, mas também indicou disposição para negociar após o resultado.Para Silvio Cascione, se Trump se sentir mais limitado para avançar sua agenda doméstica após as eleições, poderá concentrar esforços nas áreas em que o presidente tem maior margem de atuação, especialmente a política externa.“Ele está sem muitas boas opções na China, então está ali mantendo uma política de estabilidade. Oriente Médio também com muita dificuldade de sair da crise que ele mesmo causou”, afirma.“A nossa leitura é de que ele vai se tornar mais ativo na América Latina. A doutrina ‘Donroe’ vai ser um fator mais visível dessa segunda metade de mandato”, avalia.Dentro do Partido Republicano, especialistas avaliam que a captura do então ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, foi bem-sucedida, enquanto os Estados Unidos ampliaram sua influência no continente com a eleição de governos aliados e o crescimento do Escudo das Américas.O que está em jogo para Trump nas Midterms?Controle do Congresso dos EUANa Câmara, todos os 435 assentos estão em disputa, visto que os deputados cumprem mandatos de dois anos.No Senado, 35 dos 100 assentos estão em jogo. Os senadores têm mandatos de seis anos.Neste ano, será definido se o Partido Republicano conseguirá manter o controle das duas Casas Legislativas, ajudando Trump a aprovar sua agenda, ou se os democratas conseguirão dominar o Congresso e impedir as prioridades legislativas do presidente e abrir investigações contra ele.Futuro do Partido Republicano pós-TrumpTrump não poderá concorrer novamente à Presidência dos Estados Unidos em 2028, já que a 22ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos impede que uma pessoa seja eleita presidente mais de duas vezes — seja em mandatos consecutivos ou não.Isso não significa que ele deixará de ter influência sobre a próxima eleição presidencial.Segundo Hussein Kalout, a capacidade de Donald Trump de dar continuidade ao seu projeto político dependerá dos resultados econômicos e do engajamento da base MAGA nos próximos dois anos de seu mandato.Assim, um desempenho ruim nas Midterms poderia reduzir sua capacidade de influenciar a sucessão republicana.Para Silvio Cascione, a disputa sobre quem será o sucessor de Trump passa a ganhar relevância depois das Midterms. O presidente ainda deve exercer forte influência sobre essa escolha, já que permanece como principal liderança do Partido Republicano.Essa sucessão, porém, não deve ocorrer sem disputas internas. Entre os nomes que já aparecem nas discussões sobre 2028 estão:O vice-presidente J.D. Vance, ovacionado nas convenções de Meio de Mandato e envolvido nas negociações com o Irã;O secretário de Estado Marco Rubio, que tem colocado o combate a facções criminosas da América Latina entre suas principais agendas;O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.No Partido Democrata, a discussão sobre 2028 ocorre em meio à reorganização da legenda após a derrota de Kamala Harris para Trump em 2024.Kamala assumiu a candidatura democrata depois da desistência de Joe Biden, que deixou a disputa após um péssimo desempenho no primeiro debate eleitoral.Entre os nomes que aparecem nas discussões sobre uma futura candidatura presidencial para a oposição estão Gavin Newsom, governador da Califórnia; Josh Shapiro, governador da Pensilvânia e Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova Iorque.EUA: por que os partidos são representados por burros e elefantes?