O cenário que estava praticamente dado pelo mercado financeiro para a trajetória da taxa de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, marcada para esta quarta-feira (4), praticamente se inverteu ao longo das últimas semanas e após o 2º turno das eleições.A vitória do presidente Lula nas eleições — somada a uma série de riscos inflacionários internos e externos — fez com que agentes econômicos, bancos e corretoras saíram da aposta majoritária de queda de 0,25 ponto percentual da Selic em novembro, para uma decisão favorável à manutenção dos juros em 13,75% ao ano. Leia Mais Comissão do Senado confirma Eduardo Braga como relator da alíquota da CBS Mercado reavalia riscos fiscais após queda de 18% do Ibovespa CNI aponta piora nas condições financeiras das pequenas indústrias Um dos principais termômetros para essa nova aposta são as opções de Copom negociadas na B3, a bolsa brasileira – que reforçam o peso da decisão eleitoral nos modelos de projeções do mercado.Antes do 2º turno, a probabilidade de corte da Selic em novembro atingia patamares acima dos 70%. Após o resultado do pleito, as opções indicam probabilidade implícita de 68,8% de manutenção da taxa básica de juros.As opções de Copom não representam uma projeção oficial da B3, mas são extraídas dos preços negociados nos contratos e refletem quanto os participantes estavam dispostos a pagar por cada cenário na data de referência.O Itaú Unibanco, que projeta manutenção da Selic na reunião desta quarta, aponta a expectativa de que o Copom mencione uma moderação gradual da atividade econômica, mas sem citar que a atividade ainda se encontra em patamar resiliente.A instituição também enxerga uma piora do ponto de vista qualitativo na divulgação do IPCA-15 de outubro e prevê que o comitê reconhecerá um distanciamento maior das expectativas de inflação em relação à meta.“Esperamos que o Copom comunique uma interrupção do ciclo de cortes de juros com manutenção da taxa Selic em 13,75%, em decisão unânime. O comitê deve notar que o contexto global adverso, a desancoragem adicional das expectativas de inflação e os riscos elevados em torno do cenário base exigem cautela e perseverança no cumprimento de seu mandato”, conclui.Especialistas redesenham cenário econômico do Brasil após reeleição de Lula | CNN AGORAO HSBC espera que a taxa Selic termine 2026 no patamar atual de 13,75%. A projeção é de juros inalterados até março de 2027.O banco vê a situação das contas públicas como fundamental para projeções futuras da economia brasileira, e espera um BC cauteloso até o anúncio de medidas para o quarto mandato do presidente Lula.“É improvável que surjam medidas claras para conter os gastos públicos antes das reuniões do Copom de novembro e dezembro. Enquanto isso, os riscos de inflação aumentaram, com preços mais altos de energia e alimentos, custos crescentes dos subsídios aos combustíveis e o possível impacto de uma semana de trabalho mais curta”, aponta o HSBC em relatório.As expectativas de inflação de médio e longo prazo devem deteriorar ainda mais, segundo a entidade. A projeção é de que o Banco Central incorpore explicitamente os riscos fiscais na avaliação de inflação.O banco revisou as projeções futuras e espera que a Selic termine 2027 em 12,50%. Para o IPCA, espera-se que o índice termine em 5,1% em 2026 e 5% em 2027, já a previsão para crescimento do PIB também sofreu corte para 1,6% ao fim deste ano e 0,6% para o ano que vem.“O principal risco é que as expectativas de inflação se desancorem. Com as taxas de inflação de equilíbrio já subindo acentuadamente e a incerteza fiscal permanecendo elevada, os participantes do mercado podem questionar o compromisso do BC com a meta de inflação”, aponta.Mercado não enxerga melhora para esse ano, diz especialista | MONEY NEWSMas para além da eleição e das dúvidas relacionadas ao próximo governo Lula, as pressões contra o BC vêm de fora, com a continuidade das guerras da Ucrânia e do Irã pressionando os preços do petróleo e dos demais combustíveis.O Itaú BBA destaca que o cenário internacional deixou de ser “incerto” e passou para “adverso”.“A guerra no Oriente Médio dá sinais de que pode ser mais duradoura e, mesmo com aumento significativo das exportações de petróleo da região, os maiores custos de frete, seguros e um prêmio de risco elevado trouxeram as cotações da commodity para perto dos níveis observados no início do conflito”, diz o relatório.Postura prudenteFelipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, afirma que o BC adotou uma postura cautelosa na reunião de setembro e relembra a menção a ajustes no ciclo de calibração diante de novas informações.Desde a última reunião, as projeções do boletim Focus deterioraram para IPCA, câmbio e taxa Selic. Os preços do petróleo também aumentaram no período.“Considerando as sensibilidades dos modelos do Banco Central, acreditamos que as projeções de inflação para o horizonte relevante devem subir e ficar acima da meta. A desancoragem das expectativas, a assimetria altista do balanço de riscos, a inflação pressionada e a maior volatilidade dos preços de ativos também recomendam cautela”, afirma Salles.“Nesse contexto, o Copom deve reforçar a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação, mas também a reancoragem das expectativas”, completa.A projeção do economista-chefe do C6 Bank é de que a Selic termine 2026 e 2027 no patamar de 13,75%.O BTG Pactual segue a avaliação de riscos e de que a diretoria do banco central manterá os juros inalterados. Em seu diagnóstico, o banco destaca a deterioração docenário e da volatilidade dos ativos, classificando a interrupção do ciclo de cortes como a decisão mais prudente.Para a instituição, o BC pode manter a Selic constante enquanto acumula informação sobre a política fiscal e seus efeitos sobre preços de ativos e expectativas.“Em um ambiente de incerteza dessa magnitude, essa é a postura que faz mais sentido: dependência dos dados e espera por maior clareza”, finaliza o banco em seu comunicado.Ajuste fiscal não é pauta apenas da Faria Lima, diz investidor | RESENHA DO DINHEIROAumento de incerteza é consensoOutras entidades, no entanto, esperam um novo corte na reunião de novembro. Em relatório assinado pela economista-chefe Rafaela Vitória, o Inter vê mais um corte de 0,25 p.p. mas espera o anúncio de uma pausa no ciclo de calibragem na reunião de dezembro.“Apesar da maior incerteza e aumento do prêmio de risco na curva de juros futuros, a taxa Selic em 13,50% permanece restritiva o suficiente para amortecer os choques inflacionários esperados para o começo de 2027, considerando o horizonte da política monetária o 2º trimestre de 2028, mas não vemos espaço para a continuidade dos cortes nesse momento”, analisa.Para a instituição, a inflação tende a acelerar e pode encostar em 6% em 12 meses até fevereiro, impulsionada pela alta do câmbio, retirada dos subsídios da gasolina, fim da escala 6×1 e implementação do IVA (Imposto sobre Valor Agregado) em 2027.Por outro lado, o Inter vê uma desaceleração na economia e entende que choques podem ter impacto negativo na atividade e geração de empregos. O relatório traz revisão para cima das projeções de IPCA, de 3,9% para 5% em 2027.“Estimamos que a retomada dos cortes aconteça somente no final de 2027, condicionada à implementação de medidas fiscais que impactam não somente o resultado primário de 2027, mas também com medidas estruturantes de controle da expansão dos gastos nos anos seguintes”, pondera.O Inter também não descarta uma retomada do ciclo de alta da Selic “caso o governo protele o anúncio de medidas fiscais ou siga a execução orçamentária com imprevisíveis programas e criação de crédito extraordinário”.Mansueto Almeida: Maior problema é a incerteza do plano fiscal | FECHAMENTO DE MERCADOO ASA reconhece um aumento “significativo” na probabilidade de manutenção dos juros na reunião de novembro pela depreciação cambial, aumento dos prêmios de risco e incerteza sobre a condução fiscal do próximo governo, mas ainda prevê uma redução de 0,25 p.p. na reunião de 4 de novembro.“Embora a decisão tenha ficado mais apertada após a piora das condições financeiras, a desaceleração da atividade e a possibilidade de a projeção de inflação no horizonte relevante ainda permanecer próxima da meta devem ajudar a sustentar esse último corte”, observa.A expectativa da entidade é de que, em caso de corte, o Copom adote um tom cauteloso e reconheça que o espaço para continuidade da flexibilização monetária diminuiu.“Nesse cenário, a sinalização mais provável seria uma pausa em dezembro, condicionando eventuais decisões futuras à evolução do câmbio, das expectativas de inflação e das perspectivas para a política fiscal”, finaliza.Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, ainda acredita em mais um corte da Selic na reunião de novembro por conta dos dados de atividade econômica e minimiza o impacto deste movimento.“A atividade vem desacelerando. O BC já teve uma comunicação que ia nessa direção, revisou projeções para baixo no relatório de política monetária, e os 0,25 pontos percentuais na prática não tem uma alteração relevante. É muito mais em termos de sinalização, de continuidade, de não gerar ruído”, diz.Cardoso explica que mais importante do que o corte ou manutenção será o comunicado do BC.“Um corte bem justificado, com uma sinalização conservadora para o futuro, pode ser um sinal bem aceito pelo mercado. Um corte com uma comunicação que não externalize preocupações adicionais pode ser encarado de uma forma um pouco mais preocupante na ótica do mercado”, complementa.As três maneiras que o Banco Central tem para conter o dólar