Shirin Ebadi, advogada de direitos humanos iraniana e Nobel da Paz de 2003, esteve presente nas Estoril Conferences, no dia 29 de outubro, trazendo duras críticas ao regime do Irão. A sua intervenção incluiu a experiência de quem conhece o preço de defender essas causas e a coragem necessária para o fazer, mesmo perante graves ameaças.O Irão atravessa uma crise marcada por dificuldades económicas, contestação política e repressão. Os protestos iniciados em dezembro de 2025, primeiro contra o agravamento das condições de vida e depois com exigências de mudança política, foram recebidos com violência pelas autoridades. Em setembro de 2026, a missão internacional de investigação da ONU concluiu que muitas das violações cometidas na repressão, incluindo mortes, detenções arbitrárias e tortura, constituíam crimes contra a humanidade. A situação agravou-se com a campanha militar dos Estados Unidos e de Israel, iniciada em fevereiro, que provocou vítimas civis e destruição.Em entrevista à Líder, a defensora dos direitos humanos descreve um Irão continuamente marcado pela repressão e pelas dificuldades económicas, pior do que quando teve de fugir. A preocupação com o presente não elimina, porém, a confiança nos mais novos. É neles que encontra razões para acreditar numa mudança.«A geração mais nova no Irão está muito mais consciente e é muito mais corajosa do que a minha geração era. Por isso, deposito as minhas esperanças nos jovens iranianos», afirma, sem rodeios.Para compreender melhor, leia: A longa crise iraniana: juventude, poder e sobrevivência «Disseram-me que já não podia exercer porque era mulher»Shirin Ebadi sentiu na pele a perda de direitos das mulheres no Irão. Antes da Revolução Islâmica de 1979, exercia como juíza, sendo a primeira mulher iraniana a conquistar esse feito.«Quando aconteceu a revolução, disseram-me que já não podia exercer porque era mulher», recorda. Na sua avaliação, a mudança política representou um retrocesso profundo para as mulheres iranianas e obrigou muitas a organizar uma luta pela recuperação dos direitos perdidos.Tivemos algumas conquistas, mas a distância entre os direitos que tínhamos antes da revolução e aqueles que temos hoje continua a ser muito grande.Questionada sobre a utilização da religião para justificar desigualdades entre mulheres e homens, Ebadi alarga a reflexão para lá do Islão. O problema, sustenta, atravessa diferentes religiões e demonstra a importância da laicidade. Defende, por isso, a separação do Estado, «para que nenhum governo possa utilizar a religião ou a ideologia como pretexto para reprimir a população, sobretudo as mulheres».A relação entre poder e direitos das mulheres ocupa um lugar central no seu percurso. Ainda assim, quando fala dos riscos que enfrentou, prefere colocar em primeiro plano aqueles que persistem dentro do país.«O preço que paguei no meu caminho em direção à democracia e à liberdade é muito pequeno quando comparado com aquele que os jovens estão a pagar agora. Jovens esses que são mortos todos os dias pelas forças do Governo», afirma. Temos de pagar esse preço para alcançarmos a democracia e a liberdade. Não há outra opção.A democracia exige mais do que votarPerante o recuo da democracia no mundo, Ebadi atribui aos cidadãos uma responsabilidade que continua depois das eleições. Escolher um candidato é apenas uma parte: é necessário acompanhar as suas decisões e exigir correspondência entre as promessas e a atuação.É importante que os cidadãos de qualquer país não pensem que a democracia se alcança apenas indo às urnas e votando no candidato da sua escolha.Essa vigilância, explica, serve para garantir que os compromissos eleitorais «não fiquem pelas palavras e se traduzam em ações». A jurista preocupa-se também com o afastamento dos jovens, considerando que estão «alienados da esfera política». Contesta essa desistência e defende o envolvimento nas forças políticas com que cada um se identifica, acompanhado de escrutínio.«Vejo muitos jovens que dizem: ‘Não vamos às urnas. Não vamos votar. Não vamos participar em atividades políticas porque não serve de nada.’ Mas essa é uma forma errada de pensar.» Na sua leitura, defender a democracia implica aceitar riscos e manter a participação, mesmo perante ameaças. «Tudo tem um preço, e isso também se aplica à democracia e à liberdade», sustenta. Um apelo aos líderes internacionaisSe pudesse deixar uma mensagem a quem tem responsabilidades de liderança e decisão, Ebadi seria perentória: «Não ajudem o regime iraniano.»A advogada considera que a sobrevivência do regime poderá conduzir ao desenvolvimento de uma arma nuclear e ao alargamento da guerra a outros continentes. «O Irão construirá uma bomba atómica e levará esta guerra à Europa, às casas dos europeus», prevê.Quando veem que o povo iraniano vive na pobreza e passa fome, como podem justificar que se permita ao regime iraniano fabricar os seus mísseis?Ebadi afirma ainda que o regime anunciou o desenvolvimento de mísseis de longo alcance capazes de atingir a Europa e os Estados Unidos. É a partir dessa avaliação que deixa um aviso sobre o futuro da segurança e dos conflitos internacionais: se os líderes não travarem o regime, antecipa que, dentro de dez anos, a ameaça chegará à Europa. «E, nessa altura, será demasiado tarde», garante. Imagem destaque: Estoril ConferencesO conteúdo «Não ajudem o regime iraniano», apela Shirin Ebadi, Nobel da Paz aparece primeiro em Revista Líder.