Hack da Binance começou com falsa entrevista de emprego e uso de IA, diz empresa

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O ataque hacker que resultou no roubo de US$ 6,34 bilhões da Binance, considerado o maior da história das criptomoedas, começou meses antes do desvio dos recursos, com falsas entrevistas de emprego, softwares infectados e o comprometimento de uma ferramenta interna de inteligência artificial. Os detalhes foram revelados nesta terça-feira (3) pela maior corretora de criptomoedas do mundo, que divulgou um relatório preliminar sobre a invasão ocorrida em 29 de outubro.Segundo a Binance, os criminosos conduziram uma operação sofisticada de engenharia social para comprometer computadores de funcionários e obter acesso à infraestrutura responsável pelas carteiras digitais da plataforma. O FBI atribuiu o ataque a hackers ligados à Coreia do Norte, embora o governo norte-coreano tenha negado envolvimento no episódio.Richard Teng, co-CEO da Binance, afirmou que o ataque não foi resultado de uma única falha de segurança, mas de uma campanha planejada durante meses. A corretora também informou que, ao longo de 2026, identificou e impediu 57 tentativas de ataques cibernéticos suspeitos de ligação com a Coreia do Norte, muitas delas utilizando falsas oportunidades de emprego e ferramentas de desenvolvimento contaminadas.On 29 October, Binance was the target of one of the most sophisticated attacks the digital asset industry has ever seen. ~$6.34B in assets were impacted. We take full responsibility and we're making it right.No user bears the loss. We set aside more than the full amount… https://t.co/BDmr3wLzOP— Richard Teng (@_RichardTeng) November 3, 2026Como os hackers conseguiram invadir a BinanceDe acordo com a investigação, a primeira etapa da operação ocorreu em junho, quando um engenheiro responsável pela infraestrutura de carteiras da Binance procurava na internet uma ferramenta de programação com inteligência artificial. Durante a busca, ele acabou baixando uma versão adulterada do Homebrew, um gerenciador de pacotes de software utilizado por desenvolvedores.A equipe de segurança da corretora identificou a atividade suspeita, substituiu o computador comprometido e alterou as credenciais associadas ao funcionário. No entanto, os invasores já haviam conseguido obter informações sobre suas funções e sobre outros integrantes da equipe responsável pelas carteiras digitais, que seriam utilizadas nas etapas seguintes do ataque.Em setembro, os criminosos passaram a mirar outro engenheiro de software da Binance. Utilizando uma plataforma legítima de recrutamento profissional, um dos hackers se apresentou como diretor de projetos de uma suposta empresa e entrou em contato com o funcionário para oferecer uma oportunidade de trabalho.Leia também: Como hackers roubaram US$ 6 bilhões da Binance em apenas 20 minutosO processo de seleção foi cuidadosamente elaborado para parecer verdadeiro. Na primeira etapa, o engenheiro participou de uma entrevista por vídeo com uma pessoa que se apresentava como representante de recursos humanos. O falso recrutador chegou a compartilhar um perfil em uma rede social com fotos e vídeos pessoais para conquistar a confiança da vítima.Em seguida, o funcionário participou de uma segunda entrevista, desta vez com alguém que se apresentou como CEO da empresa fictícia. Ao final da conversa, recebeu a orientação de baixar um exercício de programação em seu computador de trabalho, como parte do suposto processo seletivo.O arquivo, entretanto, continha um programa malicioso que foi executado durante a preparação do ambiente de desenvolvimento. Segundo a Binance, o malware utilizava técnicas avançadas para escapar dos sistemas de proteção, incluindo a substituição de um componente legítimo de programação por uma versão modificada capaz de executar comandos e estabelecer comunicação com servidores controlados pelos invasores.A ameaça explorava uma vulnerabilidade até então desconhecida, conhecida como zero-day, e não foi identificada pelas ferramentas de segurança instaladas no computador. Os criminosos também adotaram medidas para ocultar suas atividades e dificultar a investigação posterior.Com o acesso ao equipamento comprometido, os hackers avançaram para a fase seguinte em 20 de outubro. Nessa data, utilizaram uma ferramenta interna de inteligência artificial da Binance como ponto de apoio para alcançar os computadores de outros dois engenheiros que trabalhavam diretamente com a infraestrutura de carteiras.Durante essa movimentação, descobriram que um dos funcionários possuía em seu computador uma credencial que permitia implantar contêineres de software nos sistemas da corretora. Essa autorização seria fundamental para executar a etapa final do ataque.No dia 29 de outubro, entre 17h15 e 19h56, no horário informado pelo relatório da Binance, os invasores acessaram o computador de um dos engenheiros e utilizaram as credenciais roubadas do outro para implantar um contêiner e executar um script malicioso.A partir desse momento, os criminosos conseguiram alcançar os sistemas envolvidos na autorização de transações das carteiras da corretora. Os primeiros recursos começaram a ser desviados às 20h05 UTC (17h05 no horário de Brasília), segundo os detalhes apresentados pela empresa à imprensa. A operação permitiu a retirada de bilhões de dólares em criptomoedas sem passar pelo processo normal de saques dos clientes.Os hackers também exploraram um recurso do Ethereum conhecido como EIP-7702, que permite a uma carteira convencional executar determinadas funções de contratos inteligentes. Segundo Jimmy Su, diretor de segurança da Binance, os invasores utilizaram esse mecanismo para estabelecer permissões maliciosas de execução sobre uma carteira quente da corretora, ou seja, uma carteira conectada à internet.Como a Binance utiliza um sistema de computação multipartidária (MPC) para proteger suas carteiras, nenhuma chave individual era suficiente para revogar imediatamente as permissões estabelecidas pelos criminosos. Isso dificultou a contenção do ataque, que só foi concluída às 00h10 UTC de 30 de outubro, aproximadamente quatro horas após o início das transferências indevidas.Binance bloqueia US$ 2,85 bilhões e promete ressarcir clientesNo relatório publicado nesta terça-feira, a Binance informou que aproximadamente US$ 2,85 bilhões em ativos digitais roubados foram congelados ou interceptados, graças à atuação conjunta da corretora, autoridades policiais e empresas especializadas em rastreamento de criptomoedas. O montante ainda pode sofrer ajustes conforme a investigação e as oscilações de preços dos ativos.A corretora também afirmou que já recompôs 98% dos tokens afetados pelo ataque utilizando recursos próprios. Os 2% restantes correspondem principalmente a ativos com menor liquidez, que a empresa ainda está adquirindo para concluir a reposição. Segundo a Binance, os clientes não terão que arcar com as perdas provocadas pela invasão.Em comunicado, a empresa pediu desculpas pelo episódio e afirmou que já reservou recursos superiores ao montante necessário para cobrir integralmente os prejuízos.Entre as medidas adotadas após o ataque estão a reconstrução dos sistemas de carteiras comprometidos, a substituição dos computadores infectados, o cancelamento das credenciais utilizadas pelos invasores e a reformulação da ferramenta interna de inteligência artificial explorada durante a operação.A Binance também informou que ampliou os mecanismos de detecção de comportamentos suspeitos por meio de IA, reforçou os controles de segurança das carteiras e realizou novas verificações nos dispositivos de seus funcionários.Além disso, a corretora pretende contratar empresas independentes de segurança cibernética para revisar os resultados da investigação e identificar possíveis falhas adicionais. A companhia também anunciou planos para criar um fundo de pesquisa em segurança e desenvolver iniciativas em parceria com empresas de inteligência artificial e organizações do setor de criptomoedas.As operações da plataforma estão sendo retomadas gradualmente. Nesta terça-feira, a Binance anunciou a reabertura de saques para dezenas de ativos em diferentes redes, incluindo Ethereum, Solana, XRP, Sui, Arbitrum, Optimism, Tron e Base. A empresa afirmou ainda que os depósitos por hora voltaram a superar os saques, o que considera um sinal de estabilização das movimentações dos clientes.Apesar das explicações divulgadas, a investigação permanece em andamento. A Binance ressaltou que algumas informações técnicas continuarão sob sigilo para evitar que criminosos utilizem os detalhes do ataque na preparação de novas invasões.O post Hack da Binance começou com falsa entrevista de emprego e uso de IA, diz empresa apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.