Pensamento crítico é a competência mais procurada na era da IA: cinco formas de o desenvolver

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Há quase quatro séculos, René Descartes escreveu ‘Penso, logo existo’. Se formulasse hoje o mesmo argumento, numa economia cada vez mais influenciada pela inteligência artificial (IA), talvez tivesse de acrescentar uma palavra: «Penso criticamente, logo existo».A capacidade da IA para reunir, organizar, analisar e interpretar grandes volumes de informação está a alterar as competências valorizadas pelas empresas. Saber encontrar uma resposta já não é suficiente. É necessário avaliar a sua qualidade, questionar os pressupostos em que assenta, compreender o contexto e decidir se pode ser aplicada com segurança.Segundo as tendências globais de talento para 2026, da Korn Ferry, aproximadamente três quartos dos profissionais ligados à captação de talento colocam o pensamento crítico no topo das competências procuradas nos candidatos. O que significa pensar criticamente?O pensamento crítico não consiste apenas em discordar ou encontrar falhas num argumento. É a capacidade de analisar informação com rigor, distinguir factos de interpretações, reconhecer preconceitos, testar diferentes hipóteses e chegar a uma conclusão fundamentada.Num contexto profissional, implica fazer perguntas antes de aceitar uma resposta, considerar as consequências de uma decisão e perceber o que pode estar ausente dos dados disponíveis. Estas competências tornam-se particularmente relevantes quando os profissionais trabalham com sistemas de IA, cujas respostas podem parecer convincentes mesmo quando estão incompletas, descontextualizadas ou incorretas.As empresas avaliam esta capacidade através de estudos de caso, problemas abstratos e perguntas inesperadas em entrevistas. Um exemplo conhecido é perguntar por que razão as tampas de esgoto são redondas. O objetivo não é obter uma resposta decorada, mas observar o raciocínio, as hipóteses consideradas e a forma como o candidato lida com a incerteza. A Korn Ferry apresenta cinco exercícios que podem ajudar a desenvolver esta competência. 1. Resolver um escape roomO pensamento crítico também pode ser treinado fora da sala de aula ou do escritório. Atividades como escape rooms e caças ao tesouro colocam os participantes perante informação incompleta, pistas ambíguas, pressão de tempo e necessidade de colaboração.Para Roger Philby, responsável global pela área de People Strategy and Performance da Korn Ferry, estes jogos ajudam a desenvolver os processos mentais necessários para resolver problemas desconhecidos. Os participantes têm de testar hipóteses, abandonar caminhos que não funcionam e combinar diferentes perspetivas para encontrar uma solução. 2. Procurar ligações que não são evidentesO jogo de palavras Connections, lançado pelo The New York Times em 2023, desafia os jogadores a agrupar palavras a partir de uma característica comum. A dificuldade está no facto de a associação correta raramente ser a mais óbvia.Segundo Miriam Nelson, senior client partner da área de Avaliação e Sucessão da Korn Ferry, o exercício obriga a ultrapassar as respostas imediatas e a procurar relações que não são imediatamente visíveis. Desta forma, estimula o raciocínio abstrato, o reconhecimento de padrões e a inteligência fluida — a capacidade de resolver problemas novos sem depender de conhecimentos previamente adquiridos. 3. Usar os seis chapéus do pensamentoO exercício conhecido como Six Thinking Hats, desenvolvido pelo psicólogo Edward de Bono, propõe a análise do mesmo problema a partir de seis perspetivas diferentes.Cada ‘chapéu’ representa uma forma de pensar, como a análise dos factos, a identificação de riscos, a criatividade, as emoções ou a avaliação de oportunidades. O objetivo é impedir que uma decisão fique limitada ao ponto de vista habitual de quem a toma.A metodologia permite também aos recrutadores perceber com que rapidez um candidato consegue mudar de perspetiva, gerar alternativas e sair do seu próprio quadro de referência. 4. Encontrar significado no meio da confusãoAs Matrizes Progressivas Avançadas de Raven são outro instrumento utilizado em processos de avaliação. Perante uma sequência de formas geométricas incompleta, o participante deve escolher, entre várias opções, a peça que completa corretamente o padrão.O teste avalia a capacidade de identificar relações, interpretar informação abstrata e encontrar uma estrutura coerente num problema aparentemente confuso. Estas capacidades são especialmente relevantes em ambientes empresariais acelerados, nos quais os profissionais precisam de tomar decisões perante situações novas e informação fragmentada. 5. Perguntar ‘porquê’ cinco vezesA técnica dos ‘cinco porquês’ procura identificar a causa profunda de um problema. Em vez de aceitar a primeira explicação, o participante pergunta sucessivamente por que razão determinado acontecimento ocorreu.Por exemplo, se um projeto falhou por não ter sido entregue dentro do prazo, a análise não deve terminar na conclusão de que a equipa se atrasou. É necessário perguntar por que ocorreu o atraso, por que os recursos foram insuficientes, por que o planeamento não antecipou essa limitação e que fatores organizacionais permitiram que o problema persistisse.O exercício ajuda a ultrapassar explicações superficiais e a descobrir causas económicas, sistémicas ou humanas. Pode ser praticado individualmente através da análise de notícias empresariais, estudos de caso ou decisões tomadas no próprio local de trabalho. Na era da IA, o valor está na qualidade das perguntasDesenvolver o pensamento crítico não significa competir com a inteligência artificial na velocidade de processamento. Significa utilizar a tecnologia sem abdicar do julgamento humano.A IA pode produzir respostas, organizar dados e sugerir caminhos. Cabe às pessoas avaliar se a informação é verdadeira, relevante e adequada ao contexto, bem como compreender as consequências da sua utilização.Num mercado de trabalho em que todos poderão ter acesso a ferramentas semelhantes, a diferença estará menos na capacidade de obter respostas e mais na qualidade das perguntas feitas. Pensar criticamente deixa, por isso, de ser apenas uma competência valorizada: torna-se uma condição para trabalhar com inteligência artificial de forma responsável.O conteúdo Pensamento crítico é a competência mais procurada na era da IA: cinco formas de o desenvolver aparece primeiro em Revista Líder.