Mas há algo que a ciência já consegue dizer com alguma segurança: a prática desportiva, sobretudo quando envolve equipas, interação social e objetivos partilhados, pode desenvolver competências que também são relevantes no trabalho.Uma revisão sistemática publicada no Journal of Sports Sciences, que analisou 18 estudos sobre desporto colectivo e contexto profissional, encontrou associações entre a prática de desporto de equipa, coesão, desempenho do grupo e alguns resultados organizacionais. Os próprios autores, contudo, alertaram para a qualidade desigual da evidência e para a dificuldade em estabelecer relações causais.O futebol ensina uma coisa que o escritório nem sempre consegueNum desporto colectivo, ninguém joga sozinho durante muito tempo. É preciso comunicar, adaptar-se aos outros, perceber quando assumir a responsabilidade e quando deixar que outra pessoa a assuma.Uma revisão sistemática que cruzou investigação sobre equipas de alto desempenho em diferentes sectores identificou quatro factores particularmente relevantes para o funcionamento das equipas: liderança, comportamento de apoio entre colegas, comunicação e feedback sobre o desempenho.Não por acaso, são quase as mesmas palavras que aparecem diariamente nas apresentações sobre liderança empresarial.E há investigação recente que acrescenta uma camada interessante. Uma meta-análise publicada em 2025, baseada em 50 estudos e 17.158 atletas, encontrou uma relação positiva, embora relativamente pequena, entre liderança e desempenho desportivo. O efeito era particularmente forte quando a liderança vinha dos próprios capitães das equipas.Ou seja, liderar não parece ser apenas uma questão de ocupar a posição certa no organograma ou no balneário. A forma como alguém influencia os outros também conta.E o ténis?Aqui a lógica é diferente. Num desporto individual, desaparece parte da rede de segurança da equipa. A decisão é mais frequentemente tua, o erro também e não há um colega para assumir imediatamente a jogada seguinte.Isso torna modalidades como ténis, corrida ou natação interessantes enquanto metáforas de competências individuais — concentração, autodisciplina, gestão do esforço e capacidade de lidar com o erro —, mas é preciso não exagerar a conclusão: não há evidência suficiente para afirmar que jogar ténis produz melhores decisores empresariais.O mesmo acontece com o golfe, embora por uma razão diferente. O golfe tornou-se historicamente associado ao mundo executivo porque combina competição, tempo prolongado de convivência e relações profissionais. E existe investigação económica que mostra que essa associação não é inteiramente imaginária: um estudo sobre CEO no Japão encontrou uma relação entre a prática de golf por homens em posições de liderança e uma maior proporção de negócios realizados com outros CEO homens.Mas há aqui uma conclusão bastante menos confortável do que a habitual narrativa do ‘networking no green’: o golf pode facilitar determinados círculos de relacionamento, sem que isso signifique que seja universalmente bom para criar redes profissionais.Talvez o melhor desporto para uma carreira não existaO que a investigação sugere é menos espectacular, mas provavelmente mais útil. Não há uma modalidade que transforme alguém num líder. Há, isso sim, contextos desportivos que obrigam a repetir determinados comportamentos. O futebol obriga a coordenar. O ténis obriga a decidir. A corrida obriga a gerir o esforço. O golfe cria tempo e espaço para relações.As artes marciais obrigam a lidar com a pressão e com o próprio ego. E modalidades como o padel acrescentam uma componente social particularmente forte, embora ainda seja cedo para dizer, com rigor científico, que fazem melhor networking do que qualquer outra actividade.No fundo, que comportamentos queremos que as pessoas pratiquem repetidamente quando não estão no escritório? É possível que o valor do desporto para o mundo corporativo não esteja em ensinar alguém a ganhar, mas continuar a jogar quando começa a perder.O conteúdo O desporto que pratica pode dizer muito sobre a forma como trabalha aparece primeiro em Revista Líder.