O diploma universitário continua sendo um diferencial importante para a ascensão social no Brasil, mas seu peso mudou nas últimas décadas. É o que avalia a cientista política e professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) Tathiana Chicarino.Para ela, a digitalização do mundo do trabalho e do consumo alterou profundamente a forma como as pessoas enxergam o que significa “melhorar de vida”.“Ter um diploma universitário não vai te garantir sair daquele extrato socioeconômico que você está, mas a chance de você cair é maior se você não tiver. Então ele ainda é um ativo importante”, afirmou Chicarino em entrevista ao WW Especial.Segundo a professora, hoje em dia a ascensão social envolve não apenas renda e diploma, mas também as transformações no mundo do trabalho trazidas pela digitalização. Se antes ter um diploma significava conseguir um emprego formal em uma empresa ou fábrica, atualmente boa parte do trabalho está “plataformizado“. Leia Mais Classe C quer ser dona do próprio tempo, diz Renato Meirelles Brasil cria 58,5 mil empregos em julho, pior resultado do mês desde 2020 Inadimplência bate novo recorde em julho apesar do Desenrola, diz BC “Tem pessoas que trabalham, têm um trabalho formal, mas também complementam a sua renda nessas plataformas, seja vendendo coisas, seja trabalhando de entrega, seja de motorista de aplicativo e tantas outras”, explicou.Chicarino também chamou atenção para outra frente de geração de renda que cresceu com a digitalização: a produção de conteúdo nas próprias plataformas, por meio de influenciadores digitais. Para ela, porém, essa é uma promessa que raramente se concretiza.“Você tem um monte de gente produzindo conteúdo para as plataformas. As plataformas vivem disso, de conteúdo que a gente vai consumindo o tempo todo. São pouquíssimos os que ganham dinheiro nesse contexto”, disse, comparando a situação ao futebol: “Assim como tem um monte de gente que joga futebol e poucos vão virar os grandes jogadores milionários.”Na avaliação da cientista política, esse cenário revela uma percepção distorcida sobre as reais chances de ascensão social oferecidas pelas plataformas digitais. Ainda assim, destaca, o desejo por uma vida melhor permanece o mesmo — o que muda é a definição do que essa vida boa representa.Um dos fatores que influenciam essa definição, segundo Chicarino, são as políticas públicas, especialmente entre as mulheres. “As mulheres tendem a valorizar mais a política pública e também votar mais pensando nisso, afinal de contas são as mulheres que levam as crianças no posto de saúde, na grande maioria”, afirmou.A professora também relacionou a mudança de percepção ao consumo, potencializado pela exposição constante às redes sociais. Para ela, o contato permanente com a rotina de outras pessoas amplia a sensação de que é preciso ter e viajar cada vez mais.“Eu tenho um celular de última geração, eu viajo de avião, mas eu quero viajar mais. Eu vejo na rede social que [alguém] está em Cancún, poxa, eu também quero ir para Cancún”, exemplificou.Segundo Chicarino, essa distância simbólica entre o que cada pessoa tem e o que deseja diminuiu com as redes sociais — mas o acesso real a esses bens e experiências não acompanhou essa mudança.WW EspecialApresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.Conheça o Clube de Membros da CNN Brasil no YouTube. Ao se cadastrar, você garante acesso antecipado à íntegra da edição já às sextas-feiras, além de cortes exclusivos e conteúdos de bastidores do programa.AO VIVO: O QUE ACONTECEU COM A CLASSE C? | WW ESPECIAL