Quem anda cabisbaixo pelas ruas sob o céu poluído de São Paulo pode notar apenas as manchas roxas deixadas nas calçadas nesta época do ano. Basta, porém, levantar um pouquinho a cabeça para logo enxergar copas de amoreiras carregadas, com frutas prontas para serem disputadas com os passarinhos. Mas, ao devorá-las, existe algum risco para além de uma eventual “pincelada” na roupa?Basta descrever as frutas que surgem pelo caminho para se afundar em um sacolão de clichês. As amoras não são as únicas que se apinham em qualquer ponto onde afloram pequenos canteiros e quadriláteros de terra, em meio a tanto asfalto e concreto da capital paulista.Logo mais, será a vez das pitangas, que já dão sinal em flor por calçadas afora. Chegando o fim do ano, vêm as goiabas, que sujam os sapatos dos descuidados, ao cair maduras demais dos pés, com cheiro e aroma inconfundíveis.Ao lado da Avenida 23 de Maio, uma das mais movimentadas e poluídas da cidade de São Paulo, já há árvores pendentes de amoras. Para quem caminha por lá, são como um respiro. Não tão doces quanto aquelas cultivadas em outros campos menos duros, ainda assim trazem vida no sabor.A advogada Janete Ana, de 80 anos, foi incomodada pela reportagem enquanto colhia as amoras na alça de acesso à 23 de Maio, no Paraíso. “Com a natureza, ninguém pode. Ninguém vai vencer a natureza, por mais perverso que seja. É isso”, disse, ao explicar a força das frutas em meio ao caos urbano.Janete afirmou que sempre que passa pelo local aproveita para fazer a colheita até onde os braços alcançam. “Não só pego as frutas, mas chego aqui, ó, e cumprimento cada uma delas”, conta, ressaltando que uma está caída e precisando de atenção.5 imagensFechar modal.1 de 5Amoreiras perto da Avenida 23 de Maio, em São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles2 de 5Amoreiras perto da Avenida 23 de Maio, em São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles3 de 5Amoreiras perto da Avenida 23 de Maio, em São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles4 de 5Amoreiras perto da Avenida 23 de Maio, em São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles5 de 5Amoreiras perto da Avenida 23 de Maio, em São PauloWilliam Cardoso/MetrópolesNo dia seguinte, o jardineiro Ananias Oliveira, de 54 anos, que trabalha no serviço municipal, descansava com colegas no horário de almoço ao lado das amoreiras. A fruta não desperta seu interesse, mas diz que companheiros e pedestres que caminham pela região não desperdiçam a oportunidade de colhê-las.“Volta e meia, passa gente para pegar as amoras. Enchem o saquinho e levam”, disse Oliveira.Acostumado a cuidar das áreas verdes da capital paulista, o jardineiro conta que outros lugares também têm seus pomares. Na Avenida Salim Farah Maluf, por exemplo, disse que são as goiabas quem aparecem com frequência.Oliveira conta que em direção ao centro, na própria 23 de Maio, existe um abacateiro, que espera amadurecer seus frutos em seu próprio tempo, como na “Refazenda”, de Gilberto Gil. “Não tem muito agora, mas, quando é época, fica carregado.”Fruto proibido?A nutricionista Gabriella Cilla não quer estragar o prazer de quem se espicha atrás de frutas pelas ruas de São Paulo, mas faz um alerta.“Não dá para considerar que toda fruta cultivada ou encontrada nesses locais seja automaticamente segura para o consumo. A principal preocupação não é, necessariamente, a fruta em si, mas o ambiente onde ela está inserida e as condições de manejo”, diz.Segundo a nutricionista, frutas próximas a avenidas de grande circulação podem estar expostas à poeira, partículas e outros contaminantes provenientes do tráfego, além de resíduos presentes no ambiente.Também cita outros locais onde há riscos no consumo. “Quando a árvore está próxima a córregos contaminados, terrenos com lixo ou locais com presença de animais, também existe maior possibilidade de contaminação microbiológica”, afirma. Ou seja, goiabeiras próximas ao Rio Pinheiros, por exemplo, não são boa opção.A nutricionista faz ressalvas e diz que isso não significa que uma amora, por exemplo, esteja necessariamente contaminada ou que a pessoa ficará doente ao comer uma fruta dessas. “Mas, do ponto de vista de segurança alimentar, quanto mais contaminado for o ambiente, maior é a preocupação, principalmente quando consumimos a fruta diretamente do pé, sem higienização adequada”, afirma.Tudo isso também passa pelo fato de que, na capital paulista, se vive em meio a um punhado de monóxido de carbono.“Vamos contar que em São Paulo temos uma grande produção de monóxido de carbono, o que acaba sendo absorvido por frutas que contenham maior porosidade como as amoras”, diz.CuidadosNão consumir a fruta diretamente do péColher apenas frutas íntegras, sem sinais de mofo, deterioração, presença de insetos ou danosHigienizar antes do consumo, com água corrente para retirar sujeira e resíduos superficiaisPara frutas que serão consumidas com casca, pode-se seguir as orientações sanitárias para higienização de alimentos, com produto adequadoObservar onde aquela fruta está crescendo, evitando aquelas muito próximas ao tráfego intenso de veículos, locais com acúmulo de lixo, fezes de animais ou próximos a córregos com água contaminadaLavar a fruta reduz principalmente sujeiras e microrganismos presentes na superfície, mas não necessariamente elimina contaminantes químicos