Mural de Ailton Krenak leva o Rio Doce ferido ao centro de BH

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Um rio que tenta abrir caminho entre escombros passa a integrar a paisagem do centro de Belo Horizonte. E quem assina a obra é um dos netos desse rio: Ailton Krenak levou o Rio Doce para um espaço de 555m² na capital mineira, na empena do Edifício Pignataro. Filósofo, escritor, ambientalista e uma das principais lideranças dos povos originários do país, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, Krenak mostra que sempre é tempo para novas descobertas e assina sua primeira obra em grande escala.A imagem tem como referência o Rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. No centro do desenho, o verso “um rio passava seus peixes no fundo do meu quintal”, da canção “Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.“É uma imagem que ficou pregada nas minhas retinas desde que a lama de Mariana devastou a Bacia do Rio Doce, esse rio, nosso avô, o Watu”, afirma Krenak. Para o povo Krenak, o Rio Doce é uma entidade. “Ele está em coma sob a lama da mineração. Correm fios d’água entre lamas e pedras, e ele tem uma dignidade que me animou a fazer esse desenho, essa imagem de um rio tentando abrir caminho entre escombros”, conta o autor. Leia também: 1.Painel faz homenagem a Ailton Krenak no centro de São Paulo 2.Homenagem a Krenak leva Mocidade da Mooca ao Grupo Especial Obra começou a ser pintada em agosto. Fotos: Visão de CriaNascido em 1953, em Itabirinha, no Vale do Rio Doce, Krenak ajudou a inscrever os direitos dos povos indígenas na Constituição de 1988, tornou-se uma das principais vozes pela justiça socioambiental no país e, em 2023, foi o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.CURAO CURA é um Festival de Arte Urbana e um dos principais festivais de arte pública da América Latina. Desde 2017, o CURA cobre fachadas de edifícios de Belo Horizonte com murais de grande escala, feitos por artistas brasileiros e estrangeiros. São mais de 30 prédios pintados, um conjunto que se tornou um dos principais acervos de arte pública a céu aberto do país. A edição de 2026 é a última de um ciclo que, ao longo de cinco anos, transformou uma praça do centro da cidade em uma galeria vertical, e antecede os dez anos do festival, em 2027.A obra de Krenak é uma das duas pinturas da edição de 2026 do festival e começou a ganhar vida no dia 19 de agosto. “É impactante pensar no desenho nessa escala de prédio, que vira paisagem”, diz o artista sobre o convite. “Tem um chamado para a subjetividade, para a poesia, para o sonho”. Leia também: 1.Ailton Krenak é o 1º indígena eleito imortal da Academia Brasileira de Letras 2.“É nosso lugar para viver, por isso a gente fica de pé e luta”, diz Ailton Krenak Ailton Krenak, artista e inspiração para o CURA 2026 e obra da edição de 2025 do festival. Fotos: Alexandre de Moraes e Raul SoaresE o tema da edição deste ano do CURA, “Descansar Enquanto”, está ligado aos textos de “A Vida Não É Útil” um livro do próprio Krenak. Em uma sociedade atravessada pelo excesso de estímulos e urgências, o festival propõe o descanso não como pausa, mas como posicionamento: um direito ainda não garantido, atravessado por desigualdades de gênero, raça e classe. A reflexão também dialoga com o livro “Descansar é Resistir”, da norte-americana Tricia Hersey, para quem o descanso é uma recusa ativa às estruturas que operam pela exaustão. A curadoria artística foi feita com a contribuição da curadora convidada Luciara Ribeiro, pesquisadora dedicada às artes africanas, afro-brasileiras e indígenas e à decolonização da história da arte. Leia também: 1.5 razões para descansar sem culpa 2.5 dicas de um neurocirurgião para aliviar o cansaço mental Obra coletivaA imagem do Rio Doce é concepção de Krenak, mas a aplicação na parede coube a uma equipe, que ele fez questão de citar: Anne, Dream, Vicky, Nati e Anata. Nesta sexta, o escritor esteve no Edifício Pignataro e acompanhou a obra no alto do prédio. “As pessoas que estão fazendo isso, para mim, é que são gigantes”, diz.A outra empena da edição é de Mônica Nador, aos 71 anos, uma das artistas centrais da pintura mural feita no Brasil. Nador fundou, na periferia paulistana, o JAMAC, Jardim Miriam Arte Clube, onde as paredes das casas e das ruas são pintadas com padrões criados junto com os moradores, e a autoria da obra deixa de ser só da artista para ser compartilhada com a comunidade.Monica Nador. Foto: Lucas Souza Leia também: 1.“Saudades do Rio Doce” mostra passado e presente de Mariana 2.Restaurar parte mineira da Bacia do Rio Doce dobraria PIB agropecuário na região  The post Mural de Ailton Krenak leva o Rio Doce ferido ao centro de BH appeared first on CicloVivo.