A Inteligência Artificial (IA) e a análise de dados não estruturados estão reduzindo barreiras no mercado financeiro e aproximando diferentes estratégias de investimento.O cofundador e gestor da Bayes Capital Management, Marcello Paixão, disse, durante o último episódio do Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, que a gestão discricionária e a quantitativa tendem a convergir no uso de informações para selecionar ativos.Segundo Paixão, embora os modelos de execução continuem distintos entre as duas formas de gestão, a etapa inicial de captação de dados e identificação de sinais estatísticos será cada vez mais parecida.“Das quatro fases do processo de investimento padrão – que são dado, sinal, construção do portfólio e execução –, nas duas primeiras vai haver uma convergência muito grande entre a gestão discricionária e a sistemática”, disse o gestor da Bayes Capital Management.Leia mais: Migração do crédito para equity marca nova fase do setor imobiliário nos EUANa visão do executivo, o avanço tecnológico permite transformar conteúdos brutos em insumos quantificáveis. O processo envolve converter gravações de voz, textos e dados de redes sociais em vetores numéricos, conhecidos como embeddings, por meio de processamento de linguagem e ferramentas de IA.O gestor explicou que a Bayes Capital Management aplicou essa metodologia à análise de transcrições de divulgações de resultados de 20 mil empresas globais, em diversos idiomas, utilizando modelos para testar a relação desses sinais com o comportamento de retorno e risco das ações.Capacidade e agilidade superam grandes gestores globaisA atuação em estratégias quantitativas de médio e longo prazo também permite explorar imperfeições relacionadas às finanças comportamentais dos investidores para capturar prêmios de risco.De acordo com Paixão, a flexibilidade de tamanho representa uma vantagem competitiva em relação às gestoras globais com dezenas de bilhões de dólares sob gestão. Ele avalia que fundos gigantescos ficam mais restritos a papéis de grande capitalização e acabam quase indexados, enquanto estruturas menores conseguem operar empresas de pequeno e médio porte.Leia também: Sem futurologia: projeções longas perdem espaço no mercado com avanço da tecnologia“Você pode ganhar dinheiro consistentemente, desenvolver uma estratégia consistente que gere retorno, simplesmente, muitas vezes, testando uma tecnologia com um ano de atraso em mercados em que essa galera não está operando porque já ficou muito grande”, destacou Paixão.O gestor ressalta ainda que o investimento sistemático combina a transparência e a diversificação típicas da gestão passiva com a seleção rigorosa de ativos característica da gestão ativa.Por outro lado, estratégias de altíssima frequência e market making exigem volumes maciços de capital e presença global para funcionar — motivo pelo qual o gestor deixou de operar a modalidade, diante da falta de escala e de um mercado core no Brasil.O executivo citou como exemplo o fundo Medallion, de Jim Simons, considerado a única estratégia do tipo com consistência contínua no mundo, mas que possui limite de capacidade e opera com um patrimônio estimado em US$ 8 bilhões sem aceitar novos clientes.Tecnologia supera modelos tradicionaisParalelamente, a busca por diferenciação exige a exploração constante de novas bases de dados proprietárias, para além de métricas tradicionais, como a relação entre preço e valor patrimonial.Para o executivo, o acúmulo de experiência na parametrização dos modelos é o principal fator de competitividade, reduzindo a necessidade de operar na linha de frente das maiores gestoras globais.“A gente não precisa estar lá na ponta da liga. Se a gente estiver um ano atrás do que estão fazendo nos Estados Unidos, em geral vamos estar melhor que a maioria”, afirmou Paixão.Leia também: IA e juros altos impulsionam mercado de crédito privado nos EUA, diz Blue OwlOutro avanço apontado na gestão de fundos quantitativos é a mudança nos modelos de rebalanceamento de carteira. Em vez de efetuar ajustes em datas fixas do calendário — como no fim de trimestres, momento em que grandes fundos globais podem gerar pressões de compra ou venda no mercado —, a Bayes adota atualizações diárias e incrementais por meio de sistemas 100% eletrônicos.Essa sistemática permite alterar o portfólio de forma contínua, sem elevar o custo de giro, executando apenas as ordens em que as distorções nos preços dos ativos superam os custos transacionais.The post IA muda a forma de escolher ações — e aproxima dois mundos dos investimentos appeared first on InfoMoney.