Islândia rejeita negociações de adesão à UE em referendo acirrado

Wait 5 sec.

Os islandeses votaram por permanecer fora da União Europeia, mostraram neste domingo (30) os resultados de um referendo, rejeitando a iniciativa do governo de retomar as negociações de adesão e alinhando-se aos que argumentavam que as águas pesqueiras da Islândia eram importantes demais para serem colocadas em risco.A ilha ártica de 400 mil habitantes vem debatendo a adesão à UE há bem mais de uma década e, inicialmente, esperava-se que apoiasse por uma margem estreita a realização de negociações de adesão, mas pesquisas de opinião realizadas neste mês mostraram que as opiniões haviam mudado.A primeira-ministra Kristrun Frostadottir afirmou em uma coletiva de imprensa que a Islândia se concentraria em fortalecer seus laços existentes com a União Europeia por meio do Acordo do Espaço Econômico Europeu, que o país compartilha com a Noruega e Liechtenstein.“Uma grande lição para mim e também para o governo é que as pessoas estão satisfeitas com o Acordo do EEE”, disse ela.Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que respeita a escolha do povo islandês e observou que a Islândia continua sendo um parceiro próximo da União Europeia.Frostadottir agora planeja ligar para o primeiro-ministro da Noruega, informou a emissora pública RUV.No referendo de sábado, 52,8% dos votos foram contra a proposta do governo de realizar negociações com Bruxelas, 47,2% foram a favor, e 82,5% dos eleitores qualificados participaram.Das seis circunscrições eleitorais, apenas as duas na região central de Reykjavik tiveram maioria a favor, enquanto as áreas rurais e os subúrbios de Reykjavik votaram contra.O governo havia apresentado a adesão como um escudo contra guerras comerciais e rivalidades no Ártico e caracterizou o referendo como um momento de “agora ou nunca”. Frostadottir afirmou que o “não” encerraria o debate enquanto sua coalizão de centro-esquerda estivesse no poder.Décadas de debate sobre a adesão Em Bruxelas, algumas autoridades haviam manifestado a esperança de que um voto favorável à adesão da Islândia pudesse amenizar o ceticismo em relação ao alargamento da UE e fortalecer estrategicamente o bloco, num momento em que a segurança no Ártico está em foco.“Este é um claro revés para Bruxelas”, disse um diplomata da UE à Reuters, acrescentando que as questões da pesca e da independência foram decisivas.A Islândia, um Estado-membro da Otan, mas sem Exército próprio, também debateu se a adesão à UE poderia reforçar a segurança do país, em um momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, colocou em dúvida o compromisso dos EUA com a aliança militar.Trump também afirmou repetidamente que deseja adquirir a Groenlândia, outra ilha do Ártico.Mas, para alguns islandeses, a pesca era uma questão mais importante do que a segurança.O setor é um dos maiores da Islândia, representando 15% do Produto Interno Bruto em contribuições diretas e indiretas e cerca de 40% da receita de exportação.Taxas de juros e custo de vida O país insular solicitou pela primeira vez sua adesão à UE em 2009, quando uma crise financeira atingiu a pequena e vulnerável economia do país. Um governo eurocético encerrou as negociações em 2013.Antes do referendo de sábado, as finanças voltaram a ser uma questão central, já que a Islândia tem enfrentado alta inflação e altas taxas de juros.No entanto, os altos salários ajudaram a compensar o impacto econômico para a grande maioria dos islandeses, disse à Reuters Vilborg Asa Gudjonsdottir, pesquisadora de relações internacionais da Universidade da Islândia.“Acho que a principal razão para esses resultados é que não há urgência econômica para a Islândia aderir à União Europeia, e a população também não parece acreditar que haja urgência no que diz respeito à segurança e à defesa.”Os defensores do voto “sim” haviam afirmado que a adesão à UE, e possivelmente a adoção do euro, poderia trazer alívio. A taxa de juros do banco central da Islândia é de 8%, em comparação com 2,25% do Banco Central Europeu.A líder da oposição, Gudrun Hafsteinsdottir, que liderou a campanha pelo “não”, disse que os argumentos econômicos são exagerados. “Esses não são problemas que Bruxelas resolverá para nós. São problemas que os políticos islandeses precisam resolver”, afirmou ela.