PM havia reforçado patrulhamento no Planalto Paulista dias antes de episódio com Haddad

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Documentos obtidos com exclusividade pela Jovem Pan mostram que a Polícia Militar já havia reforçado o patrulhamento no Planalto Paulista antes do episódio envolvendo o motorista do candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad. As ordens de serviço que determinaram o emprego de equipes especializadas na região foram expedidas dias antes do caso.Em 7 de agosto, quatro dias antes do episódio, a PM expediu uma ordem que determinava o emprego da Força Tática e da ROCAM entre 14h e 23h nas imediações da Avenida Indianópolis para combater crimes classificados como “roubo outros”. A orientação estabelecia atenção especial diariamente entre 18h e 22h.No dia seguinte, 8 de agosto, foi expedida outra ordem, dessa vez a que criou a Operação Impacto Quebra Vidros. A ação tinha como objetivo combater roubos e furtos praticados contra motoristas parados no trânsito, quando criminosos quebram os vidros dos veículos para levar celulares, mochilas, carteiras e outros objetos. A operação estava prevista para continuar até 30 de setembro.As duas ordens de serviço foram resultado de uma reunião que aconteceu dias antes, no dia 23 de julho, após uma reunião realizada na Prefeitura Municipal com a participação do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo (PL).Segundo a PM, foi registrado um caso de quebra de vidro horas após Haddad chegar em casa. Por volta das 23h10, policiais foram acionados após relatos de furtos de veículos em trânsito na Avenida Indianópolis. Os agentes encontraram um carro com dois adolescentes e um adulto, apreendendo celulares e outros objetos que estavam com eles. Um quarto adolescente também foi localizado e apontado como autor do furto de um celular. O caso foi registrado no 27º DP. O relatório da operação chama a atenção para essa ocorrência e afirma que o episódio comprova a ação da PM no bairro.A Jovem Pan entrou em contato com a assessoria de imprensa de Haddad para comentar o inquérito, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.Outra ocorrência levou equipe à regiãoOutra equipe da PM, a M-12090, que posteriormente encontrou a M-12070 na Rua Joinville, estava inicialmente envolvida em uma ocorrência diferente. De acordo com o inquérito interno da PM, os policiais receberam pelo COPOM informações sobre um roubo a uma farmácia na Praça General Gentil Falcão. A equipe procurava um Renault Logan que teria sido utilizado pelos criminosos, mas não localizou o veículo e retornou para a região da 2ª Companhia.Na sequência, os policiais receberam informações sobre a possibilidade de roubo ou furto em um condomínio na Rua Tomás Carvalhal, nas proximidades do Hotel Pullman. Foi esse segundo chamado que levou a equipe para a região da Rua Joinville.O relatório faz uma distinção entre as ocorrências: o roubo à farmácia não foi o motivo autônomo para a presença da M-12070 no Hotel Pullman, mas integra o contexto operacional da equipe M-12090 antes do encontro.Conversas e sinais de GPSComo a Jovem Pan mostrou, a Polícia Militar utilizou prints de conversas entre sargentos e o depoimento de ambos para justificar o encontro de viaturas que supostamente teriam seguido o motorista de Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo. A PM ainda usou dados de GPS das viaturas para contrapor o depoimento do funcionário do petista.Segundo o processo – que concluiu que não houve perseguição ao motorista – o encontro das equipes M-12070 e M-12090 da Polícia Militar na Rua Joinville, no bairro de Indianápolis, foi previamente combinado para o atendimento a uma ocorrência. A equipe do sargento Elder, que estava na viatura M-12070, teria recebido uma informação sobre a possibilidade de roubo ou furto a um condomínio na região do Hotel Pullman, seguindo para o local.Segundo o depoimento de um dos policiais da equipe, o sargento Elder informou que faria contato com outra equipe de Força Tática, e combinou a parada da viatura na Rua Joinville para aguardar o reforço. Cerca de dez minutos depois, por volta das 22h35, a outra, a M-12090, comandada pelo sargento Jesus, chegou ao local. Segundo a investigação, as equipes receberam verbalmente a informação sobre o possível crime em condomínio.“QTI agulhas”, começa o sargento Elder, às 22h16, na troca de mensagens via WhatsApp. “Estou pela Joinville, porém do outro lado da 23 [Av. 23 de Maio]”, continua, ao mandar a localização para o sargento Jesus e pergunta: “Vai fazer um QSO?”, às 22h25. É nesse horário que, segundo o documento, a viatura de Elder para próxima ao carro do motorista de Haddad para aguardar.Na linguagem da polícia e de outras forças de segurança, essas siglas fazem parte do Código Q, um sistema internacional de radiocomunicação criado para tornar as mensagens mais rápidas, claras e padronizadas. No caso, QTI significa um questionamento sobre a rota da viatura, ou pode indicar que o carro está em deslocamento ou a caminho, rumo a um local. Já o QSO: significa contato ou comunicação direta, para se comunicarem umas com as outras. Depois, uma ligação é feita entre eles às 22h34.Nesse horário, o carro do motorista de Haddad já tinha deixado o local, o que aconteceu por volta das 22h26. Já nos depoimentos, a PM entendeu que os relatos de Elder e Jesus batem: Elder diz que ele estacionou a M-12070 na altura do nº 490 da Rua Joinville e solicitou a presença da equipe de Jesus “por meio de mensagem de aplicativo, conforme print de tela já anexado aos autos”. Jesus, por sua vez, confirmou que houve contato com a equipe da M-12070 e que ambas permaneceram na Rua Joinville.O relatório da investigação, portanto, afirma que a captura de tela, em conjunto com os depoimentos dos policiais e outros integrantes das duas equipes, explica o direcionamento da M-12070 à região e a reunião posterior das duas equipes na Rua Joinville. As viaturas permaneceram juntas até aproximadamente 22h55.Justificativa ‘inverossímil’Vale dizer que, na segunda-feira (31), um relatório do Ministério Público Eleitoral (MPE) arquivou o procedimento que apurava uma possível abordagem policial irregular ao motorista que trabalha para a campanha de Fernando Haddad (PT). O arquivamento determinado pela Procuradoria Regional Eleitoral, porém, não encerra a apuração criminal.Ao determinar o arquivamento, a Procuradoria afirmou que não havia elementos para atribuir ao governador e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), eventual ilícito eleitoral. O documento, porém, faz uma ressalva sobre a versão apresentada pela Polícia Militar. Segundo o procurador eleitoral, no entanto, a análise dos elementos do caso “afasta por completo a verossimilhança de uma ‘mera coincidência’ no patrulhamento ordinário”. Para ele, é “inverossímil” que, em um intervalo de 44 minutos e em uma área geográfica restrita, duas equipes diferentes da Força Tática, pertencentes a batalhões distintos, tenham tido sucessivos contatos com o mesmo veículo.