A Reforma Tributária começa a produzir uma transformação que vai muito além da troca de impostos. Às vésperas do início de uma nova etapa decisiva da transição para o novo sistema de tributação do consumo, as empresas já estão revendo preços, margens, contratos com fornecedores, sistemas tecnológicos e até a localização de suas operações. Na prática, o desafio deixou de caber apenas nas áreas financeira e jurídica e passou a envolver praticamente toda a estrutura dos negócios. A dimensão dessa mudança aparece na pesquisa Tax do Amanhã, apresentada pela consultoria Deloitte nesta terça-feira (01).Entre 148 organizações ouvidas, 89% já realizaram estudos aprofundados sobre os impactos da reforma em seus negócios e 86% possuem algum grau de automação das operações fiscais e tributárias. Ainda assim, quase 60% apontam como principal preocupação a convivência simultânea entre os sistemas antigo e novo durante a transição.O levantamento mostra que o ponto mais delicado agora é transformar o conhecimento das novas regras em decisões concretas. E isso significa responder algumas questões que vão além dos processos burocráticos, como quanto cobrar por um produto, onde manter um centro de distribuição, quais fornecedores continuarão competitivos, quanto capital de giro será necessário e quais sistemas precisam estar preparados para processar as novas operações.“Esta não é apenas uma reforma tributária, mas sim uma mudança completa da estratégia e do ambiente de negócios no Brasil”, resumiu Caroline Verginelli, sócia da Consultoria Tributária da Deloitte, durante o encontro.Segundo a especialista, todos os departamentos, do comercial ao supply chain, de finanças e contabilidade até jurídico, logística e tecnologia, precisam participar da implementação. “O fim gradual dos incentivos fiscais, por exemplo, pode levar companhias a redesenhar suas malhas logísticas, rever a localização de centros de distribuição e reconsiderar onde realizar novos investimentos. Ao mesmo tempo, a área comercial precisa recalcular preços e margens, assim como compras terá de avaliar o impacto do novo sistema sobre fornecedores”, afirma.Os números sugerem que essa revisão já começou. Entre as empresas que recebem incentivos fiscais e avaliaram os efeitos da reforma, 57% consideram rever a localização geográfica ou realizar ajustes na cadeia de suprimentos. Outros 27% não pretendem mudar sua localização, mas avaliam alterações no desenho da cadeia, enquanto 12% consideram redesenhar tanto a operação quanto o posicionamento geográfico.Para Luiz Rezende, sócio líder de Consultoria Tributária da Deloitte, o movimento exige que planejamento tributário e estratégia empresarial passem a conversar de forma muito mais próxima. “Essa mudança evidencia que a reforma vai além da esfera fiscal e passa a impactar diretamente a estratégia operacional das organizações”, afirma. Segundo ele, entram nessa análise eficiência logística, proximidade dos mercados consumidores, custos, margens e resiliência das cadeias.Leia tambémPrazo para aderir ao Simples Nacional em 2027 começa; veja o que mudaAs companhias já enquadradas no regime e aquelas que passarem a integrar o Simples deverão avaliar se desejam manter a CBS e o IBS dentro da guia única do Simples ou se preferem recolhê-los separadamente Formação de preçosÉ possível que o consumidor perceba mais rapidamente os efeitos dessa transformação na formação de preços. Entre as empresas que estudaram o impacto da reforma, 51% projetam aumento da carga tributária, enquanto 19% esperam efeito neutro e 16% calculam redução. Para 14%, os estudos ainda não foram conclusivos ou não avaliaram esse impacto.Mas há uma diferença importante entre aumento efetivo de carga e aumento de preços provocado pela maneira como a empresa fará a transição. O advogado Daniel Loria, sócio do Loria Advogados e ex-diretor da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária, chamou atenção para empresas que estariam adotando cálculos excessivamente conservadores por insegurança sobre o aproveitamento dos novos créditos tributários.Segundo ele, há companhias considerando simplesmente acrescentar a CBS ao preço bruto atualmente praticado. “O problema é que a conta correta exige retirar a carga tributária antiga antes de incorporar a nova. Não é só pegar a alíquota nova, colocar a mais no seu preço”, afirmou Loria. Para ele, fazer isso pode provocar aumento artificial dos preços e criar “um potencial risco inflacionário na ponta”.A questão cria uma espécie de teste de competência empresarial produzido pela própria reforma. Companhias capazes de calcular corretamente créditos, débitos e efeitos da nova tributação podem chegar a preços mais competitivos. As que adotarem uma postura excessivamente defensiva e simplesmente incorporarem ao preço uma margem para se proteger das incertezas correm o risco de ficar mais caras.Rezende contou que a Deloitte está próxima de 400 trabalhos relacionados à reforma e observa essa diferença entre a simulação técnica e a decisão comercial. Segundo ele, mesmo quando os cálculos indicam determinado efeito tributário, na negociação com fornecedores ou na definição do preço de venda algumas empresas preferem incorporar preventivamente o imposto e fazer o ajuste depois. É nesse ponto que uma reforma desenhada para modificar a tributação começa a interferir diretamente na concorrência.Leia também: 70% dos empresários veem sistema tributário como entrave da indústriaReforma no caixaHá outro risco menos visível ao consumidor, mas particularmente sensível para as companhias: o capital de giro. Com a extinção de PIS e COFINS e a migração para a CBS, empresas poderão utilizar saldos credores dos tributos antigos para compensar débitos do novo imposto. O mecanismo previsto para operacionalizar essa passagem envolve o Pedido de Utilização de Crédito (PUC) dentro do PER/DCOMP (sistema digital da Receita Federal usado por contribuintes para recuperar ou utilizar créditos tributários federais).A preocupação é com a velocidade dessa autorização. Empresas temem que uma eventual demora na liberação dos créditos obrigue a retirar mais recursos do próprio caixa para pagar os novos tributos.Para ajudar a ilustrar, Rezende fez uma conta simplificada que mostra o tamanho potencial do problema: uma empresa que normalmente precisasse desembolsar R$ 10 depois de compensar seus créditos poderia, na ausência temporária desse crédito, precisar retirar R$ 20 do caixa. O dinheiro poderia ser recuperado posteriormente, mas a necessidade financeira surgiria imediatamente. E há um agravante: a virada do ano ocorre justamente depois do pagamento do 13º salário e em um ambiente de juros elevados.No exemplo discutido no encontro, uma demora na compensação poderia levar empresas a buscar crédito adicional justamente quando muitas já enfrentam endividamento e custo financeiro alto. Dependendo da velocidade da operacionalização, o desequilíbrio entre créditos e débitos poderia avançar pelos primeiros meses de 2027.A discussão revela uma das contradições da transição, que indica que mesmo uma empresa que não tenha aumento definitivo de carga tributária pode enfrentar pressão temporária sobre o caixa apenas pela diferença entre o momento em que precisa pagar e aquele em que consegue utilizar seus créditos.Leia Mais: 70% dos empresários veem sistema tributário como entrave da indústriaTecnologia deixa de ser suporteÉ também por isso que tecnologia aparece com tanto peso nos preparativos. A pesquisa mostra que 72% das empresas aumentaram seus investimentos em tecnologia em relação ao ano anterior e 77% pretendiam ampliar esses gastos ao longo de 2026. Além disso, 36% já utilizam inteligência artificial ou IA generativa nas áreas tributárias.Não se trata apenas de comprar um novo software fiscal. Sistemas de ERP, emissão de documentos fiscais, formação de preços, contas a pagar e receber, compras e relacionamento com fornecedores precisarão conversar com a nova lógica tributária.O problema é que tecnologia sem gente preparada também cria um gargalo. Entre 2024 e 2025, 67% das empresas aumentaram a necessidade de treinamento em novas tecnologias e 66% ampliaram a capacitação em legislação tributária. Ao mesmo tempo, nove em cada 10 relataram dificuldades para contratar profissionais qualificados.Esse talvez seja um dos sinais mais claros de que a implementação deixou de ser uma questão restrita ao departamento de impostos. Se vendas precifica, compras negocia, logística redesenha a cadeia e tecnologia altera os sistemas, diferentes áreas precisam entender pelo menos os efeitos econômicos das novas regras.The post Como a Reforma Tributária deve mexer na estratégia de negócios das empresas appeared first on InfoMoney.