Com o lançamento bem-sucedido do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, por um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, no último domingo (30), a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, a NASA inaugurou uma fase sem precedentes no estudo do Universo.O envio do observatório rumo ao Ponto de Lagrange 2 (L2), a mais de 1,6 milhão de km da Terra, marca o início de uma missão desenhada especificamente para abordar as três maiores lacunas do conhecimento científico contemporâneo: a composição oculta do cosmos, a mecânica da expansão do espaço e a busca por novos mundos na Via Láctea.Ao longo do último século, a ciência acumulou evidências de que tudo aquilo que a humanidade consegue observar diretamente – de planetas e estrelas a galáxias inteiras – corresponde a apenas 5% do Universo. A esmagadora maioria da realidade física é dominada por substâncias que não emitem, refletem ou absorvem qualquer tipo de luz. Compreender essa estrutura invisível é o objetivo primário que define a arquitetura tecnológica do telescópio Roman.Imagem espetacular mostra um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, lançando o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA, com o Sol ao fundo, em 30 de agosto de 2026 – Crédito: NASA/John KrausO enigma da matéria escura e a expansão aceleradaA matéria escura permanece como um dos maiores mistérios da astrofísica. Embora sua presença seja indiscutível devido ao efeito gravitacional que exerce sobre a rotação das galáxias, atuando como uma teia que impede que os corpos celestes se dispersem, nenhum detector construído na Terra conseguiu registrar suas partículas componentes.O telescópio Roman propõe uma abordagem radicalmente diferente. Em vez de tentar capturar a matéria escura em laboratório, ele usará seu enorme campo de visão para mapear as distorções que a gravidade dessa substância invisível provoca na luz de bilhões de galáxias distantes. Esse fenômeno, conhecido como lente gravitacional, permitirá construir um mapa tridimensional de alta precisão mostrando a distribuição da matéria ao longo de bilhões de anos de história cósmica.Paralelamente, o observatório enfrentará o enigma da energia escura. Descoberta no final da década de 1990, essa força misteriosa atua no sentido oposto ao da gravidade, provocando a expansão cada vez mais rápida do próprio espaço-tempo. Para medir como a energia escura se comportou ao longo das eras, o observatório Roman registrará a posição de multidões de galáxias e analisará as chamadas Oscilações Acústicas Bariônicas – impressões digitais deixadas por ondas de pressão no cosmos jovem que servem como uma régua padrão para calcular a taxa de expansão do Universo.Representação artística da matéria escura, que, junto com a energia escura, compõe quase 90% do Universo. – Crédito: KIPC/SLAC?AMNHO resultado dessas observações pode confirmar os modelos cosmológicos vigentes ou forçar os físicos a desenvolverem novas teorias sobre o funcionamento da gravidade e do espaço-tempo.Durante a transmissão ao vivo do lançamento do telescópio feita pelo Olhar Digital, o astrônomo Marcelo Zurita revelou que a resolução desse mistério cósmico está no radar das maiores honrarias da ciência mundial. Para ele, “quem conseguir explicar de uma forma bem assertiva qual a origem e a natureza da energia escura certamente vai precisar ser premiado com o Nobel”. Um novo capítulo na busca por exoplanetasAlém de investigar a escala cosmológica, a missão traz um avanço importantíssimo para a escala planetária. A caçada por exoplanetas (mundos fora do Sistema Solar) entrará em uma nova fase instrumental com o coronógrafo avançado a bordo do observatório, um sistema óptico projetado para superar o brilho extremo das estrelas e revelar os planetas em sua órbita.Em entrevista ao programa Olhar Espacial, a astrobióloga Raíssa Estrela, pesquisadora do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), detalhou o funcionamento e a urgência dessa tecnologia para a pesquisa espacial. “Essa tecnologia que a gente chama de coronógrafo é basicamente um instrumento que bloqueia a luz da estrela-mãe. E por que a gente quer bloquear essa luz? Porque quando a gente bloqueia a luz da estrela-mãe, a gente consegue ver a luz refletida pelos planetas que estão habitando essa estrela. O brilho da estrela é tão forte que ela ofusca toda a imagem. Então, a gente precisa bloquear para conseguir ver a luz refletida pelos planetas que estão orbitando. Com esse tipo de observatório, a gente vai conseguir fazer o imageamento mesmo do sistema planetário.”Atualmente, a imensa maioria dos exoplanetas é detectada por métodos indiretos, como a queda momentânea no brilho da estrela quando um planeta passa à sua frente. Com o coronógrafo do Roman, os astrônomos terão a capacidade de registrar a iluminação refletida diretamente pelo planeta, focando inicialmente em mundos gigantes gasosos semelhantes a Júpiter.Imagem conceitual do Telescópio Roman no espaço – Crédito: NASAPara mapear corpos menores e mais distantes, o observatório aplicará conjuntamente a técnica de microlente gravitacional. Quando uma estrela passa na frente de outra mais distante em relação à Terra, a gravidade da estrela em primeiro plano atua como uma lente natural, amplificando o brilho da estrela de fundo. Caso a estrela que funciona como lente possua planetas, a gravidade desses mundos gera pequenas anomalias no sinal de luz. Essa estratégia permitirá aos cientistas catalogar milhares de novos planetas, incluindo mundos rochosos situados a dezenas de milhares de anos-luz do nosso sistema.Segundo Zurita, a técnica da microlente gravitacional é a forma mais adequada de detectar planetas do tamanho da Terra. “Se o principal objetivo é encontrar uma ‘Terra 2.0’ (um planeta semelhante à Terra, na zona habitável), essa é a técnica a ser utilizada”. Leia mais:Quando vamos ver imagens do Universo feitas pelo Telescópio Roman?“Roman é o tipo de história de sucesso que queremos na NASA”, diz líder da agênciaNASA espera novas visões do ‘amanhecer cósmico’ com Telescópio RomanPreparando o terreno para a Terra 2.0 e a era dos grandes dadosO conjunto de dados obtidos pelo telescópio Roman servirá como o pilar estratégico para as missões espaciais das próximas décadas. A meta final da astrobiologia – a detecção de assinaturas biológicas na atmosfera de um planeta de massa e temperatura semelhantes às da Terra – exige um nível de precisão técnica que está sendo construído neste exato momento.Animação mostra como uma galáxia massiva desvia a luz de uma galáxia distante, criando imagens distorcidas. Esse fenômeno, chamado lente gravitacional, ajuda pesquisadores a estudar a matéria escura misteriosa. – Crédito: NASA, Joseph Olmsted (STScI)Raíssa enfatizou o papel precursor que o novo telescópio desempenha no roteiro de exploração da NASA. “O Roman vai estudar outros planetas, mas vai ser mais voltado para os gigantes gasosos. A tecnologia não vai chegar a ponto de caracterizar planetas como o caso da Terra. Mas vai trazer essa tecnologia que a gente precisa entender, que é o imageamento direto dos exoplanetas, que vai ser utilizada pelo Observatório de Mundos Habitáveis, só que para planetas menores. Então, é como se fosse o primeiro passo que a gente está dando dentro dessa jornada de chegar à caracterização de planetas tipo Terra.”Toda essa investigação será sustentada por uma capacidade inédita de processamento de informações. Equipado com o Instrumento de Campo Amplo (WFI), que é uma câmera de 300 megapixels que captura áreas 100 vezes maiores que as do Telescópio Espacial Hubble, o Roman poderá gerar mais de 20 petabytes de dados durante seus cinco anos iniciais.Esse volume maciço exigirá o uso intensivo de algoritmos de inteligência artificial e aprendizado de máquina para varrer as imagens e catalogar bilhões de objetos astronômicos. Ao unir tecnologia de ponta, física teórica e engenharia espacial, o lançamento não representa apenas o início de mais uma missão da NASA, mas o passo mais decisivo dado até hoje para decifrar a natureza oculta do Universo e o lugar que ocupamos dentro dele.O post Matéria escura, energia escura e exoplanetas: entenda por que acabamos de dar um grande passo para desvendar alguns dos maiores mistérios do Universo apareceu primeiro em Olhar Digital.