O que precisa acontecer para a Selic cair? BTG aponta ajuste fiscal como único caminho

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A queda sustentável dos juros no Brasil depende principalmente de uma mudança na trajetória das contas públicas. Essa foi a avaliação predominante entre especialistas do BTG Pactual durante o Macro Day 2026, realizado nesta segunda-feira (31).Para Mansueto Almeida, economista-chefe do banco, o próximo governo terá como principal desafio controlar as despesas obrigatórias diante de uma trajetória preocupante da dívida pública. “O ajuste fiscal possível se cria”, afirmou.Segundo Almeida, o crescimento do gasto público federal superou o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos quatro anos, pressionando a inflação em uma economia próxima do pleno emprego.O economista citou a aprovação do teto de gastos, em 2016, como exemplo de uma medida fiscal capaz de alterar rapidamente as expectativas. Na época, a nova regra ajudou a reancorar as expectativas do mercado e abriu espaço para o Banco Central iniciar um ciclo de cortes de juros.Arcabouço perdeu credibilidadeAlmeida avaliou que o arcabouço fiscal foi inicialmente bem recebido pelo mercado, mas episódios posteriores aumentaram as dúvidas sobre sua capacidade de controlar as despesas. Esse processo contribuiu para a elevação dos juros reais de longo prazo.Para reverter o quadro, o próximo governo precisaria apresentar um plano claro para controlar as despesas obrigatórias, incluindo mudanças nas regras de indexação do Orçamento.Na avaliação do economista, uma proposta considerada crível poderia produzir uma resposta rápida dos mercados.O “enigma” dos juros brasileirosO pesquisador macroeconômico do BTG Pactual, Samuel Pessôa, afirmou que o principal obstáculo para a queda estrutural dos juros é a política fiscal, e não a meta de inflação ou o desenho do regime do Banco Central.Segundo ele, o Brasil convive com juros elevados desde o Plano Real, mas as razões mudaram ao longo do tempo.Com o câmbio flutuante, entre 1999 e 2005, o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, descontado o risco-país, chegou próximo de zero. Depois, mesmo com a acumulação de reservas e a redução do risco, os juros brasileiros não caíram na mesma proporção.“É aí que surge o enigma dos juros altos no Brasil”, afirmou Pessôa.Para o economista, a dinâmica passou a refletir principalmente o excesso de demanda doméstica em relação à oferta, mantendo a pressão sobre os juros.Pessôa também rejeitou a tese de que a meta de inflação seja excessivamente rígida. Na avaliação dele, atribuir os juros elevados ao regime de metas desvia a discussão do problema fiscal.Próximo corte ainda não está garantidoNo curto prazo, o cenário é mais cauteloso.Tiago Berriel, sócio e head de Macro Research do BTG Pactual, afirmou que a atividade econômica já mostra sinais de desaceleração, mas a piora das expectativas de inflação de longo prazo limita o espaço para cortes mais agressivos.“O próximo corte de juros está dado, mas tem um caso de pausa bastante sólido”, disse Berriel.Segundo ele, o Banco Central ainda não pode afirmar que a inflação convergiu de forma consolidada para a meta.Além do quadro fiscal, o economista citou possíveis choques de oferta que podem afetar inflação e atividade, como o Super El Niño, as discussões sobre a jornada de trabalho e um eventual choque do petróleo.Por isso, a avaliação é que o Banco Central deve manter uma postura mais conservadora até ter maior segurança sobre a trajetória da inflação.No longo prazo, porém, a mensagem dos economistas do BTG é direta: sem controle das despesas obrigatórias e uma melhora consistente das contas públicas, a redução estrutural dos juros continuará limitada.