A resposta está no funcionamento básico do cérebro: ele nunca fica realmente desligado. Embora represente cerca de 2% do peso corporal, o órgão responde por aproximadamente 20% do consumo de oxigênio do organismo em repouso. Esse gasto existe mesmo quando a pessoa está sentada, descansando ou sem realizar uma tarefa específica.Grande parte da energia vem da glicose, um dos principais combustíveis usados pelo cérebro. Uma estimativa publicada na revista Neurology aponta que o cérebro adulto utiliza cerca de 120 gramas de glicose por dia. O valor é uma referência média e pode variar de acordo com as condições do organismo.Mesmo durante o repouso, o cérebro continua consumindo glicose e oxigênio para manter seus neurônios funcionando. Imagem criada por inteligência artificial: ChatGPT / Olhar DigitalPor que o cérebro precisa de tanta energiaO cérebro precisa de energia para manter seus bilhões de neurônios funcionando e permitindo a comunicação entre eles. Essas células trocam sinais continuamente, inclusive quando não estamos conscientemente pensando em alguma coisa.Para que isso aconteça, o cérebro precisa manter um equilíbrio de substâncias eletricamente carregadas, chamadas íons, dentro e fora das células. Em termos simples, é como manter uma diferença de carga que permite aos neurônios enviar sinais.Esse trabalho exige energia o tempo todo. A glicose é utilizada nesse processo, com a participação do oxigênio. Em um adulto, o cérebro consome aproximadamente 50 mililitros de oxigênio por minuto em condições de repouso.O oxigênio ajuda as células a transformar a energia armazenada na glicose em uma forma que pode ser utilizada pelo organismo. É esse fornecimento contínuo que ajuda a manter o funcionamento cerebral mesmo durante períodos aparentemente improdutivos.Isso também explica por que dormir não significa que o cérebro pare de consumir energia. Durante o sono, diferentes regiões continuam trabalhando e realizando funções essenciais. O estado de repouso, portanto, não equivale a um cérebro desligado.A atividade cerebral continua durante o repousoUm dos exemplos mais interessantes é a chamada rede de modo padrão. O termo descreve um conjunto de regiões do cérebro que apresenta atividade importante quando a pessoa não está concentrada em uma tarefa específica.O conceito foi descrito em estudos de neuroimagem e ganhou destaque com o trabalho “A default mode of brain function”, publicado em 2001 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por Marcus E. Raichle e outros pesquisadores da Washington University School of Medicine.A rede está associada a processos mentais internos. Entre eles estão aspectos relacionados a memórias, pensamentos sobre experiências pessoais e elaboração de planos. Isso ajuda a explicar por que a mente continua produzindo pensamentos quando não estamos executando uma tarefa específica.O cérebro também mantém outras atividades essenciais nesse período. A circulação sanguínea precisa continuar fornecendo oxigênio e glicose, enquanto os neurônios preservam sua capacidade de transmitir sinais.Por isso, o metabolismo cerebral permanece elevado mesmo no chamado estado de repouso. A expressão pode dar a impressão de que pouca coisa está acontecendo, mas biologicamente não é assim.Enquanto você descansa, neurônios continuam transmitindo sinais e realizando processos que exigem um fornecimento constante de energia. – Imagem: KUSHEI/ShutterstockPensar muito não queima tantas calorias extrasEsse funcionamento ajuda a desmontar um mito comum: o de que passar horas estudando ou resolvendo problemas difíceis faria o cérebro gastar centenas de calorias adicionais.Leia mais:IA vira “segundo par de olhos” de médicos durante cirurgia inédita no cérebroAqueles que se lembram dos detalhes de seus sonhos apresentam maior ativação cerebral e sensibilidade emocionalAndar pela cidade pode proteger o cérebro contra o AlzheimerUma tarefa mental pode aumentar a atividade de determinadas regiões cerebrais. Mas o cérebro já apresenta um consumo energético elevado antes mesmo de começar a atividade. Estudos indicam que as mudanças adicionais no gasto energético provocadas por tarefas específicas são pequenas em comparação com o metabolismo cerebral de repouso, frequentemente estimadas em menos de 5% do nível basal.Isso não significa que estudar, trabalhar ou resolver um problema complexo não provoque mudanças no cérebro. Elas existem. A questão é que mais atividade mental não significa proporcionalmente muito mais gasto de energia.O cansaço depois de algumas horas de estudo também não deve ser confundido com uma grande queima de calorias. Fadiga mental é uma experiência real, mas não representa automaticamente um enorme aumento no consumo energético.No dia a dia, portanto, o cérebro já mantém uma conta energética alta antes mesmo de você abrir um livro, começar a trabalhar ou enfrentar um problema complicado. Enquanto você lê esta matéria, seus neurônios continuam consumindo glicose e oxigênio para manter o órgão funcionando — mesmo nos segundos em que sua atenção se desloca para outra coisa.O post Cérebro pesa 2%, mas gasta 20% da energia: entenda por quê apareceu primeiro em Olhar Digital.