Brett McGurk é analista de assuntos internacionais da CNN e ocupou altos cargos de segurança nacional sob os presidentes americanos George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden.Uma sabedoria convencional começou a se consolidar sobre a guerra com o Irã: o Irã venceu.O argumento é simples. Os EUA e Israel bombardearam o Irã por semanas, infligiram danos enormes e exigiram grandes concessões.O Irã se recusou a se render. Seu governo permanece no poder. Seus mísseis continuam sendo uma ameaça em toda a região. Leia mais: Oriente Médio é calcanhar de Aquiles dos EUA, avalia professor Análise: Com 6 meses de guerra, Irã prova que é capaz de manter a soberania Análise: "aventura" de Trump ameaça iniciar crises além da região do Irã E o mais importante, Teerã ainda tem a capacidade de perturbar o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, impondo custos de energia mais altos para os EUA e grande parte do mundo.Ao longo do verão americano, Trump alertou sobre uma depressão global se o Estreito permanecesse fechado.Esse é um argumento forte. Mas pode ter se provado prematuro.Guerras são disputas de influência e resistência. E a disputa agora parece muito diferente de apenas alguns meses atrás.O quarto ato da guerraO arco deste conflito de seis meses avançou em quatro atos.O Ato Um começou com ataques aéreos intensivos em 28 de fevereiro e durou seis semanas de operações militares de alta intensidade.O Ato Dois começou com o cessar-fogo e as negociações de 7 de abril, culminando com um acordo provisório (memorando de entendimento) de 17 de junho assinado por Trump e pelo presidente do Irã, Masoud Pezeshkian.Hoje: conflito entre EUA e Irã completa seis meses | Bastidores CNNO Ato Três começou semanas depois, quando o Irã optou mais uma vez por alvejar navios comerciais no Estreito de Ormuz, levando a outra troca militar de retaliação.Aquele foi o momento em que cresceram os apelos para que os EUA efetivamente desistissem e cedessem o controle do Estreito ao Irã. Os Estados Unidos pareciam estar sem opções.Não tão rápido.Desde meados de julho, os EUA reimpuseram seu bloqueio militar aos portos iranianos e sanções ao comércio de petróleo do Irã.Em paralelo, os militares dos EUA têm trabalhado incansavelmente para liberar rotas marítimas e ajudar a proteger navios comerciais que transitam pelo Estreito.O resultado foi um bloqueio eficaz sobre os embarques de petróleo iranianos, com as remessas globais se recuperando e os preços da energia permanecendo notavelmente estáveis.A Bloomberg informou nesta semana que os fluxos de petróleo pelo Estreito se recuperaram para 2/3 dos níveis pré-guerra.Isso significa que a pressão agora está se acumulando sobre o Irã, e não sobre os EUA. E se o Irã perder sua capacidade de manter o Estreito como refém, sua influência se dissipa rapidamente.Uma estratégia melhor dos EUAO Irã entrou na guerra enfraquecido por anos de sanções e má gestão econômica. Sua posição hoje é consideravelmente pior.De acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), a economia do Irã deve encolher mais de 5% este ano, com a inflação se aproximando de 70%.O valor da moeda do Irã caiu acentuadamente. Os preços de bens básicos dispararam.Análise: A força dos EUA e do Irã após seis meses de guerra | WWUma autoridade do Ministério do Trabalho do Irã estimou recentemente que mais de um milhão de empregos desapareceram apenas durante os primeiros três meses da guerra.Essas estatísticas importam porque a capacidade do Irã de sustentar o conflito depende, em última análise, de mais do que seu arsenal restante de mísseis.Antes da guerra, o regime iraniano enfrentava uma pressão pública sem precedentes contra seu governo repressivo e sua economia fracassada. Milhares de iranianos teriam sido mortos nas ruas.Uma estratégia americana melhor desde o início poderia ter sido uma campanha econômica para apoiar o povo iraniano que exigia mudanças.O primeiro ato da guerra – a remoção da maioria dos líderes do Irã – resultou na consolidação da Guarda Revolucionária e em mais repressões contra a maioria dos iranianos que se opõem ao seu governo.Mas os militares exigem recursos para governar pela força, e este novo quarto ato – um embargo militar – é algo que o Irã nunca enfrentou antes.De fato, esta é a primeira vez desde a Revolução de 1979 que o Irã enfrenta uma quarentena em sua economia através de Ormuz.A saída deles é parar de ameaçar navios no Estreito e abandonar o que resta de seu programa de enriquecimento em grande parte destruído.Esse é um acordo que Trump aceitaria. Fazer qualquer uma das coisas, no entanto, do ponto de vista da Guarda Revolucionária, demonstraria fraqueza e ameaçaria seu governo.As cartas do IrãTeerã pode tentar lutar para sair deste nó cego.Sua estratégia ao longo dos três primeiros atos foi clara: ameaçar o comércio no Estreito, elevar os preços de energia globalmente e os preços da gasolina nos EUA, aumentar a pressão econômica global e, por fim, forçar Trump a recuar, particularmente com a aproximação das eleições de meio de mandato.O Irã também alvejou a infraestrutura de energia dos países do Golfo e poderia fazê-lo novamente. Seu proxy no Iêmen, os Houthis, ameaçou fechar o comércio pelo Mar Vermelho com mísseis e drones iranianos.Banner com uma foto do presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado de um sistema de mísseis iraniano na Praça Azadi, em Teerã, Irã, em 30 de julho de 2026 • Majid Asgaripour/WANA via REUTERSTudo isso significaria recorrer às mesmas táticas dos primeiros atos da guerra. Estrategicamente, isso não funcionou para o Irã.Os Estados do Golfo não estão felizes com a guerra, mas a maioria não apoia ceder às exigências extorsivas do Irã no Estreito.As tentativas do Irã de fechar o Estreito com drones e minas também estão agora — pela primeira vez — falhando.Portanto, eu não descartaria o risco de uma escalada iraniana à medida que a pressão econômica aumenta. Mas pode não ser suficiente nesta fase para reduzir essa pressão.Trump parece muito mais comprometido do que os líderes iranianos aparentemente presumiram.Ponto de rupturaOs líderes iranianos e muitos analistas ocidentais projetam imunidade à pressão. O Irã nunca entregará seu programa nuclear ou o Estreito de Ormuz. Ou seus proxies terroristas pela região.Isso é algo que todos nós devemos aceitar como um fato da vida no Oriente Médio, de acordo com Teerã.O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, argumentou na semana passada que o bloqueio e a pressão das sanções estão “fadados ao fracasso”, assim como todas as outras campanhas, disse ele, falharam em mudar a política iraniana.Eu costumava ouvir a mesma coisa de especialistas sobre o Estado Islâmico, quando eu estava liderando a campanha para derrotar o grupo. E sobre o Hamas, ao negociar para libertar os reféns mantidos em Gaza.Na verdade, todo mundo tem um ponto de ruptura.O Irã achou que tinha encontrado o de Trump.Trump fala em Washington sobre a guerra contra o Irã • Kyle Mazza/Anadolu via Getty ImagesTrump ainda pode encontrar o deles.É cedo demais para definir.Não é o último ato da guerraEsta disputa, de alguma forma, pode durar até o fim da presidência de Trump e além. Ela está em andamento há quase cinco décadas.Os atos anteriores desta guerra foram atolados do lado dos EUA por objetivos instáveis e mal definidos, posições amplamente desgovernadas e declarações inconsistentes.Mas o Quarto Ato parece diferente. Os militares dos EUA têm um objetivo claro, conforme delineado esta semana pelo comandante do CENTCOM, Almirante Brad Cooper.É impor o bloqueio ao Irã e facilitar o movimento do tráfego comercial.O objetivo para os EUA deve ser similarmente bem definido. O Irã deve abandonar as reivindicações sobre o Estreito e desistir do programa de enriquecimento nuclear.Até lá, este será o novo status quo.E esse status quo — talvez pela primeira vez desde que a guerra começou — agora favorece Washington, não Teerã.