A Via Láctea incorporou uma antiga galáxia há cerca de 12 bilhões de anos, quando ainda estava em seus primeiros estágios de formação. Agora, astrônomos conseguiram reconstruir melhor esse episódio a partir de aglomerados estelares que preservaram sinais daquele passado.Em artigo publicado no The Conversation, o astrofísico Sven Buder, da Universidade Nacional da Austrália, explica como um novo estudo, liderado por Davide Massari, conseguiu estimar a época da fusão e as características da galáxia que acabou incorporada à nossa.A fusão LKH teria ocorrido cerca de 1,8 bilhão de anos antes do evento Gaia–Sausage–Enceladus – Imagem: NASA, ESA, Joseph Olmsted (STScI)Um passado escrito nas estrelasGaláxias crescem, em parte, por meio de fusões. Quando um sistema menor se aproxima de outro maior, a gravidade espalha suas estrelas. Algumas delas, porém, continuam carregando características que revelam sua origem.É esse registro que os astrônomos tentam decifrar na Via Láctea. Um exemplo conhecido é o Gaia–Sausage–Enceladus (GSE), resultado de uma grande fusão ocorrida há cerca de 10 bilhões de anos.O novo estudo voltou ainda mais no tempo. Os pesquisadores relacionaram o evento a populações estelares anteriormente chamadas de “Kraken”, “Heracles” e “grupo de baixa energia”. A estrutura reunida a partir dessas evidências recebeu o nome de Low-energy–Kraken–Heracles (LKH).Aglomerados viram relógios cósmicosA equipe examinou aglomerados globulares, estruturas que podem reunir centenas de milhares de estrelas formadas aproximadamente no mesmo período. Observações detalhadas do Telescópio Espacial Hubble ajudaram a determinar suas idades relativas.A metalicidade também entrou na análise. O termo indica a presença de elementos mais pesados que hidrogênio e hélio, produzidos e acumulados ao longo das gerações de estrelas.O cruzamento dessas informações revelou três sequências distintas:uma ligada à Via Láctea primitiva;outra associada ao Gaia–Sausage–Enceladus;uma terceira relacionada à fusão LKH.Os autores calculam que a colisão LKH ocorreu cerca de 1,8 bilhão de anos antes do GSE. A galáxia envolvida tinha estrelas equivalentes a aproximadamente 500 milhões de Sóis, massa estelar semelhante à do GSE. Muito desse material terminou nas regiões internas da Via Láctea.A Via Láctea preserva nas estrelas pistas de galáxias que foram incorporadas ao longo de sua formação. – Imagem: Joimi Joh Abi/iStockUma arqueologia galáticaPesquisas anteriores já indicavam que essa fusão havia acontecido. O diferencial agora é conseguir posicioná-la melhor no tempo e entender com mais detalhes a história da galáxia envolvida.Podemos, portanto, perguntar não apenas quando essas galáxias colidiram, mas também como eram e como haviam evoluído anteriormente?Sven Buder, Astrofísico da Universidade Nacional da Austrália, em artigo no The Conversation.Há ressalvas. Nem toda galáxia primitiva necessariamente formou muitos aglomerados globulares, e alguns podem ter desaparecido. A reconstrução também depende de modelos.O Telescópio Espacial James Webb oferece outra peça desse quebra-cabeça ao observar galáxias distantes como eram há mais de 12 bilhões de anos. Na Via Láctea, por outro lado, os astrônomos conseguem examinar estrelas e aglomerados sobreviventes daquela mesma época.Leia mais:Matéria escura, energia escura e exoplanetas: entenda por que acabamos de dar um grande passo para desvendar alguns dos maiores mistérios do UniversoComo conseguimos medir a maior galáxia conhecida?Astrônomos descobrem primeira corrente estelar fora da Via Láctea“A astronomia de longas distâncias nos dá instantâneos de galáxias jovens. A ‘arqueologia galática’ nos dá seus fósseis”, explica Buder.A combinação dessas duas abordagens ajuda a transformar os primeiros bilhões de anos da Via Láctea, antes vistos de forma muito mais indistinta, em uma história cada vez mais detalhada de como nossa galáxia cresceu.O post Via Láctea guarda sinais de uma colisão de 12 bilhões de anos apareceu primeiro em Olhar Digital.