Este ano, o fenômeno El Niño está avançando com velocidade sem precedentes. O aquecimento atípico e acelerado das águas do Oceano Pacífico acende um alerta global pelo potencial de virar um “Super El Niño”, ameaçando alterar drasticamente o clima no Brasil ao combinar secas extremas em algumas áreas com tempestades severas e ondas de calor intensas em outras. Para entender os impactos e a física desse cenário, o programa Olhar Espacial da última sexta-feira (21) recebeu a meteorologista Ana Cristina Palmeira. Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisadora é especialista em interação oceano-atmosfera e meteorologia marítima.El Niño 2026 pode ser o mais forte dos últimos tempos. – Crédito: Imagem gerada por IADurante a entrevista, ela explicou que o Oceano Pacífico é o verdadeiro motor do clima global. Em condições normais, os chamados ventos alísios empurram a água quente para o lado oeste do oceano. Quando esses ventos perdem força, o calor represado se desloca pelo mar em direção à costa da América do Sul, alterando o padrão de chuvas e temperaturas pelo planeta. “Repare que não é só a superfície, é uma camada profunda, como se fosse uma piscina mesmo, e é um estoque de energia muito grande. Conforme vai migrando para leste, todo aquele mecanismo de onde o ar subia e descia reverte completamente”. A especialista ressalta que qualquer mudança no gigantesco Oceano Pacífico provoca reflexos em todo o planeta.Medições no Pacífico confirmam alerta de seca na bacia amazônicaSegundo Ana Cristina, os dados que confirmam a intensidade do evento vêm de campanhas de medição com boias e sensores submersos. “Um grau de variação na atmosfera a gente nem sente, mas um grau de modificação no oceano é algo extremamente preocupante e energético”, alertou. As observações mostram uma “onda de febre” caminhando pelo mar, revelando que a taxa de aquecimento atual é significativamente mais rápida do que a registrada em eventos anteriores.Essa grande alteração na circulação do ar divide o mapa brasileiro em dois extremos meteorológicos violentos. Nas regiões Norte e Nordeste, o movimento descendente do ar inibe a formação de nuvens e bloqueia o regime regular de chuvas. O resultado imediato dessa estiagem prolongada é o agravamento das secas, a escassez de água, o aumento acelerado dos focos de queimadas e a ocorrência de ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas.O El Niño está associado a temperaturas da superfície do mar equatoriais acima da média. O calor característico do fenômeno é evidente no mapa de novembro de 2015. – Crédito: NASAA situação causa forte preocupação para a bacia amazônica, onde o nível dos rios pode despencar criticamente. A meteorologista lembrou episódios passados em que o fenômeno secou rios inteiros na região. A retração das águas compromete o transporte hidroviário, isola comunidades ribeirinhas e prejudica gravemente o abastecimento local. O impacto econômico e social é gigante, demonstrando como o Brasil responde de forma diversa e complexa devido às suas dimensões continentais.Leia mais:Amazônia pode pagar caro pela intensificação do El NiñoEl Niño: chance de fenômeno forte nos próximos meses salta para 95%El Niño pode levar mais 49 milhões de pessoas à fome, alerta ONUChoque térmico provocado pelo El Niño favorece risco de tornadosNo Sul do país, o comportamento do clima é exatamente oposto. A retenção de frentes frias e o bloqueio da umidade provocam tempestades intensas, volumosas e contínuas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além das tempestades em terra, o litoral sulista entra na rota de ciclones extratropicais e ressacas marinhas fortes, elevando a altura das ondas e causando sérios transtornos nas áreas costeiras e na navegação.Essa turbulência atmosférica se estende até o continente gelado através de conexões globais de ar. Ana Cristina explicou que o fenômeno altera a circulação até na Antártica. “Em eventos anteriores, essa mudança de ventos represou e aumentou a camada de gelo no Estreito de Drake. O bloqueio impediu a navegação de embarcações brasileiras sem capacidade de quebra-gelo, alterando o planejamento de pesquisas científicas e a rotina das expedições polares no continente”.Diagrama mostra a dinâmica do fenômeno El Niño – Crédito: Imagem gerada por IAO choque térmico entre diferentes massas de ar traz um perigo adicional para o interior brasileiro: a formação de tornados. O encontro do ar frio na retaguarda de frentes frias com a massa quente e úmida favorece o surgimento de supercélulas de tempestade. Esse cenário cria condições propícias para vendavais devastadores no Sul e em trechos do Sudeste, atingindo áreas como o oeste de São Paulo.“O tornado é o fenômeno mais devastador da atmosfera, com ventos que podem atingir o dobro da velocidade de um furacão”, alertou a especialista. Ela explicou que o El Niño favorece esse cenário ao posicionar uma região de tempestades ao lado de uma área de calor extremo. É justamente na fronteira entre esses dois blocos de ar que surgem as nuvens violentas capazes de gerar tornados.Diante de prognósticos tão severos, a pesquisadora enfatizou a necessidade de valorizar o trabalho científico e respeitar os avisos de prevenção. O monitoramento contínuo serve para antecipar desastres e salvar vidas humanas diante de eventos extremos. “A gente precisa que a população realmente ouça os alertas. Se a Defesa Civil mandar um alerta ou tocar uma sirene, obedeça, pois é a sua vida que está em jogo”.O post Super El Niño 2026: especialista alerta para secas na Amazônia, ondas de calor e risco de tornados no Brasil apareceu primeiro em Olhar Digital.