Uma ideia começou a se consolidar sobre a guerra com o Irã: o Irã venceu.O argumento é direto. Os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã durante semanas, causaram enormes danos e exigiram grandes concessões. O Irã se recusou a se render. Seu governo continua no poder. Seus mísseis continuam sendo uma ameaça em toda a região. E, principalmente, Teerã ainda tem capacidade de interromper a navegação pelo Estreito de Ormuz, impondo custos maiores de energia aos Estados Unidos e a grande parte do mundo. Durante o verão, Trump alertou para uma depressão global caso o estreito permanecesse fechado.É um argumento forte. Mas pode ter se mostrado prematuro. Leia Mais Análise: Ataques entre Irã e EUA não significam volta de uma guerra total EUA e Irã pausam bombardeios após 13 dias seguidos; Teerã nega negociações "Não vamos ceder", diz negociador do Irã após trocas de ataques com EUA Guerras são disputas de poder de pressão e resistência. E essa disputa parece muito diferente de apenas alguns meses atrás.A quarta faseA trajetória deste conflito de seis meses ocorreu em quatro fases. A primeira começou com intensos ataques aéreos em 28 de fevereiro e durou seis semanas de operações militares de alta intensidade. A segunda começou com o cessar-fogo de 7 de abril e as negociações, culminando no memorando de entendimento assinado por Trump e pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian em 17 de junho. A terceira começou semanas depois, quando o Irã voltou a atacar navios comerciais no Estreito de Ormuz, levando a outra rodada de confrontos militares entre os dois lados.Foi naquele momento que aumentaram os pedidos para que os Estados Unidos efetivamente desistissem e cedessem o controle do Estreito ao Irã. Os Estados Unidos pareciam ter ficado sem opções.Não tão rápido.Desde meados de julho, os Estados Unidos retomaram o bloqueio militar aos portos iranianos e as sanções contra o comércio de petróleo do Irã. Paralelamente, os militares americanos trabalharam incansavelmente para liberar as rotas de navegação e ajudar a proteger navios comerciais que transitam pelo estreito. O resultado foi um bloqueio efetivo às exportações de petróleo iranianas, enquanto os embarques globais se recuperaram e os preços da energia permaneceram surpreendentemente estáveis. A Bloomberg informou nesta semana que o fluxo de petróleo pelo estreito havia se recuperado para dois terços dos níveis anteriores à guerra.Isso significa que a pressão agora está se acumulando sobre o Irã, e não sobre os Estados Unidos. E, se o Irã perder sua capacidade de manter o estreito como refém, seu poder de pressão desaparecerá rapidamente.Uma estratégia melhor para os EUAO Irã entrou na guerra enfraquecido por anos de sanções e má gestão econômica. Sua posição hoje é consideravelmente pior.Segundo o Fundo Monetário Internacional, a economia iraniana deve encolher mais de 5% neste ano, com a inflação se aproximando de 70%. O valor da moeda iraniana caiu acentuadamente. Os preços dos produtos básicos dispararam. Um funcionário do Ministério do Trabalho do Irã estimou recentemente que mais de 1 milhão de empregos desapareceram apenas nos três primeiros meses da guerra.Esses números são importantes porque a capacidade do Irã de sustentar o conflito depende, em última instância, de mais do que seu arsenal de mísseis remanescente. Antes da guerra, o regime iraniano enfrentava uma pressão pública sem precedentes contra seu governo repressivo e sua economia em crise. Milhares de iranianos teriam sido mortos nas ruas.Uma estratégia americana melhor desde o início poderia ter sido uma campanha econômica para apoiar os iranianos que exigiam mudanças. A primeira fase da guerra — que eliminou a maior parte das lideranças iranianas — resultou na consolidação da Guarda Revolucionária e em novas repressões contra a maioria dos iranianos que se opõem ao regime.Mas a Guarda precisa de recursos para governar pela força, e essa nova quarta fase — um embargo militar — é algo que o Irã nunca havia enfrentado antes. Na verdade, esta é a primeira vez desde a Revolução de 1979 que o Irã enfrenta uma quarentena sobre sua linha vital econômica através de Ormuz.A saída para o Irã é parar de ameaçar navios no estreito e abandonar o que resta de seu programa de enriquecimento de urânio, em grande parte destruído. É um acordo que Trump aceitaria. Fazer qualquer uma das duas coisas, no entanto, do ponto de vista da Guarda, demonstraria fraqueza e ameaçaria seu governo.As cartas do IrãTeerã pode tentar lutar para sair desse estrangulamento. Sua estratégia nas três primeiras fases era clara: ameaçar o comércio no estreito, elevar os preços globais de energia e os preços da gasolina nos Estados Unidos, aumentar a pressão econômica global e, por fim, forçar Trump a recuar, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando.O Irã também atacou a infraestrutura energética dos países do Golfo e poderia fazer isso novamente. Sua força por procuração no Iêmen, os houthis, ameaçou fechar o comércio no Mar Vermelho com mísseis e drones iranianos.Tudo isso significaria recorrer às mesmas táticas das primeiras fases da guerra. Estrategicamente, isso não funcionou para o Irã. Os países do Golfo não estão satisfeitos com a guerra, mas a maioria não apoia ceder às exigências que consideram de extorsão do Irã no estreito. As tentativas iranianas de fechar o estreito com drones e minas também estão agora — pela primeira vez — fracassando.Portanto, eu não descartaria o risco de uma escalada iraniana à medida que a pressão econômica aumenta. Mas isso pode não ser suficiente, neste momento, para reduzir essa pressão. Trump parece muito mais comprometido do que os líderes iranianos aparentemente imaginavam.Ponto de rupturaLíderes iranianos e muitos analistas ocidentais projetam uma imunidade à pressão. O Irã nunca abandonará seu programa nuclear, nem o Estreito de Ormuz. Nem seus grupos aliados terroristas na região.Isso é algo que todos nós devemos aceitar como um fato da vida no Oriente Médio, segundo Teerã.O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, argumentou na semana passada que o bloqueio e a pressão das sanções estão “fadados ao fracasso”, assim como, segundo ele, todas as outras campanhas que fracassaram em mudar a política iraniana.Eu costumava ouvir a mesma coisa de especialistas sobre o Estado Islâmico, quando liderava a campanha para derrotar o grupo. E sobre o Hamas, quando negociava a libertação dos reféns mantidos em Gaza.Na verdade, todos têm um ponto de ruptura. O Irã achou que havia encontrado o de Trump. Trump pode ainda encontrar o deles. É cedo demais para dizer.Não é a última faseEssa disputa, de alguma forma, pode durar até o fim da presidência de Trump e além. Ela está em andamento há quase cinco décadas.As fases anteriores desta guerra foram prejudicadas, do lado americano, por objetivos que mudavam e eram mal definidos, posições amplamente contraditórias e declarações inconsistentes.Mas a quarta fase parece diferente. Os militares dos Estados Unidos têm um objetivo claro, conforme descrito nesta semana pelo comandante do CENTCOM, almirante Brad Cooper. Trata-se de fazer cumprir o bloqueio ao Irã e facilitar a circulação de tráfego comercial.O objetivo dos Estados Unidos também deveria ser claramente definido. O Irã deve abandonar suas reivindicações sobre o estreito e abrir mão do programa de enriquecimento nuclear. Até lá, este será o novo status quo.E esse status quo — talvez pela primeira vez desde o início da guerra — agora favorece Washington, e não Teerã.Sobre o autor: Brett H. McGurk é analista de assuntos globais da CNN e ocupou cargos de alto escalão na área de segurança nacional durante os governos de George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden.Entenda a troca secreta de avião feita por Trump após ameaça do Irã